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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Difícil competir com a religião

Não adianta querer retirar o terreno e achar que a casa vai ficar flutuando no vácuo, porque não vai.


Noticiei aqui no blog o importante papel desempenhado por alguns filantropistas no financiamento de pesquisas científicas antienvelhecimento. Não sei ao certo quanto o SENS já arrecadou em doações, mas acho que é plausível estimar, muito por alto, algo na casa dos R$12 milhões em cerca de cinco anos, com doações do mundo inteiro (mas principalmente dos EUA).

E a religião, o que arrecada? Não tenho os dados  nesse sentido, mas uma única igreja (a Igreja Universal), no Brasil, arrecadou em 2009, segundo o Ministério Público, aproximadamente R$1,4 (um bilhão e quatrocentos milhões de reais), basicamente vendendo promessas de saúde, prosperidade e vida além da morte no paraíso a seus fiéis. Se acrescentarmos a receita de todas as demais denominações e religiões, talvez seja possível dobrar esta conta, ou seja, cerca de R$2,8 bilhões apenas no Brasil, em um único ano.

Pobre condição humana. Cientistas transhumanistas precisam ter mesmo muita tenacidade de espírito, porque, além de lidar com a incerteza, lidam com um orçamento muitíssimo menor.  Como disse William Andregg sobre as pesquisas antienvelhecimento, "Não há nada inevitável sobre o nosso sucesso. Todo mundo que tem talento suficiente para fazer uma contribuição deveria estar tentando ajudar, em todas as frentes, por qualquer meio ético, como se fosse uma questão de vida ou morte -- porque é." 

Mas, como já disse antes no primeiro post, a culpa não é apenas da religião. A religião é uma  tecnologia humana que serviu muito para o homem durante milhares de anos para conciliá-lo com a observação empírica de que o corpo morre e apodrece (a par dessa função psicológica, também sempre foi instrumento hábil de exploração, agregação e controle social). Acho que, se tivessem um cérebro um pouco maior, elefantes e golfinhos criariam suas próprias denominações.

Mas homens e mulheres de ciência também merecem crítica: é preciso algo para inspirar as pessoas, não basta subtrair-lhes a fé com explicações científicas do mundo (daí o valor de trabalhos como os da SingularityU). Aos seguidores de Dawkins: nem uma tonelada de evidências vai subtrair a fé de alguém se não houver alternativa ao conforto psicológico e existencial que a fé proporicona, sem que hajam novos mitos, ainda que calcados na ciência e tecnologia. Isso se equipara a uma necessidade fisiológica. Não adianta querer retirar o terreno (a religião) e achar que a casa vai ficar flutuando no vácuo, porque não vai. Vai cair em cima do primeiro arrimo, que pode ser o subsolo de um templo da Universal no Japão.

3 comentários:

  1. É cara, as coisas são assim, lembro-me que resolvi informar-me sobre criônica, depois de perceber que embora eu não mais quisesse que Deus existisse, principalmente por questões de igualdade e liberdade, eu tinha um espaço vazio na cabeça em relação a morte, minha perspectiva de abdicar da vida não era sincera e ao influenciar meus projetos para o futuro, me limitava. Bom o resto da realidade é pura invenção, garantindo a sobrevivência é questão de estar feliz.
    Outro ponto é que a igreja faz parte do pão e circo dado ao povo, a televisão, o futebol e todo o resto da mediocridade que torna multidões de pessoas simplesmente um bando de ninguéns são iguais.

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  2. Muito interessante esse seu feedback, Píi. Vou tentar escrever algo em mais detalhe sobre isso: transhumanismo, morte, sentido da vida. Mas a ideia é essa: ciência não dá significado, dá explicações. As pessoas procuram significado diante da angústia do sofrimento, da morte, das injustiças e da finitude. E, se nada racional, honesto, secular for oferecido, elas vão no que está disponível.
    Não endosso, não cultivo, mas também não me oponho a ideia de um deus impessoal, que é mais uma metáfora (como o deus de que Einstein falava). Mas não acredito na existência após a morte (como, aliás, Einstein também não acreditava, achava que essa ideia era fruto do egoísmo, de não aceitarmos a morte). Acho inteligente e congruente um desses dois caminhos: aceita-se serenamente a morte ou, para quem não fica sereno, faz-se o que for possível contra ela, agindo segundo as suas probabilidades. O que particularmente me incomoda são os contos de fadas confortadores. Fora muito necessários, do paleolítico até agora. Mas acho que podemos superá-los, a humanidade está se aparelhando para isso.
    Abcs

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  3. Estou gostando muito do Blog, mas terminará assim? Terá mais postagens em 2015, não?

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