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sábado, 11 de dezembro de 2010

Transhumanismo e generosidade

Desde a antiguidade a generosidade (a disposição de consumir os próprios recursos em benefício alheio) é considerada um dos atributos das pessoas virtuosas. Para Aristóteles, é o meio termo entre a avareza e a extravagância. E não é difícil entender o porquê desta virtude ser tão bem cotada: a generosidade provavelmente possui raízes profundas na mente humana, pois se trata de um importante fator de agregação e fortalecimento do tecido social. 

Talvez não seja exagerado afirmar que a maior parte do progresso humano deve-se a atos de generosidade social. Pessoas que dedicaram seu tempo, suas energias, suas vidas, suas fortunas a uma causa que consideraram maior que si mesmas, que transcendiam suas existências singularmente consideradas, empurrando o mundo para frente (a imagem que me vem a mente, aqui, é a Howard Hughes retratada no filme "O Aviador". E, por falar em avião, poucos exemplos seriam mais ilustrativos do que o nosso Santos Dumont).

No movimento transhumanista, é possível encontrar um bando dessas pessoas geniais e generosas trabalhando juntas. Pessoas que estão destinando seu tempo, suas vidas e seu dinheiro a transformar positiva e radicalmente a existência humana.

Nesta semana, o empresário Peter Thiel (cofundador do PayPal e investidor inicial do Facebook, um bilionário  que está não tem medido esforços para acelerar a chegada de um futuro radicalmente melhor) organizou um jantar com outros magnatas do Vale do Silício destinado a arrecadar doações para organizações relacionadas à temática transhumanista, como a SENS Foundation, o Seasteading Institute e a Humanity+, dentre outros. O próprio Thiel tirou do bolso alguns milhões de dólares em benefício da SENS Foundation e meio milhão para o Seasteading. No jantar, foi anunciado que o empresário e filantropo Jason Hope doou meio milhão de dólares para a mesma SENS Foundation. Nas palavras do próprio Jason Hope:

"Tenho um grande interesse na Fundação SENS e o trabalho do Dr. Aubrey de Grey há algum tempo. Acredito que seu trabalho é essencial para o avanço da medicina humana e sua abordagem para o problema global do envelhecimento humano e suas doenças associadas (doença de Alzheimer, aterosclerose, diabetes, etc) é o único caminho a percorrer. Seu trabalho e o trabalho dos outros que o apoiam irá conduzir a completa redefinição e reorganização dos cuidados de saúde e indústrias farmacêuticas e de biotecnologia tal como as conhecemos hoje. O avanço da biotecnologia do rejuvenescimento não só é extremamente importante, mas é o futuro. Tenho a honra de apoiar a Fundação SENS nos seus esforços, e espero que o meu apoio ajuda a gerar resultados mais rápidos para toda a humanidade."

Jason Hope: meio milhão de dólares para a SENS Foundation.  Nossos filhos e netos (e, quem sabe, alguns de nós) se lembrarão destes pioneiros para sempre.

Eu me sinto grato a Aubrey, Thiel, Jason e outros por essas ações extraordinárias. Existe muita gente rica no mundo. E, certamente, a grande maioria delas está mais preocupada em dispender seus recursos alimentando a própria luxúria do que em fazer a ciência avançar. Um pequeno (porém crescente) número de pessoas está realizando trabalhos com o potencial de melhorar radicalmente as condições de vida de bilhões de seres humanos, inclusive as minhas, suas e as de nossos filhos. Contribuindo, inclusive, para melhorar a vida mesmo daqueles que ridicularizam e desdenham de propostas como curar o envelhecimento e a inevitabilidade da morte. Talvez este seja o ápice da generosidade: doar até para aqueles que não querem, não entendem, nunca serão gratos mas que, certamente, utilizarão tais recursos quando eles estiverem disponíveis, já que, como disse Machado de Assis, "a vida é o maior benefício do universo, e não há mendigo que não prefira a miséria à morte". 

Machado de Assis pela boca de Brás Cubas: "não há mendigo que não prefira a miséria à morte". Sejamos francos: quando as tecnologias que nos tornem mais inteligentes, saudáveis e felizes estiverem disponíveis, será que os críticos dos transhumanistas e os que hoje desdenham do movimento, também as combaterão?

Eu apreciaria muito se no Brasil tivéssemos pessoas com esta visão e esta generosidade, mas estas aves raras que gorjeiam na Califórnia não gorjeiam por aqui (para fazer justiça às exceções, um caso raro e significativo de generosidade brasileira é a de Lily Safra, que levou à criação do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, que,  aliás, desenvolve várias pesquisas de interesse para os interessados na evolução humana). Entre nós, as preocupações  da Casa Grande estão menos voltadas para eliminar o sofrimento humano e propagar inteligência e felicidade do que para ganhar dinheiro fácil vivendo de juros e rendas. A classe média -- que carrega este país -- pode estar desvencilhada desta mentalidade. Podemos contribuir com nossos modestos (individivudalmente) recursos (um pouco de tempo aos fins de semana, redes sociais, o saldo do AdSense, uma doação anual etc.) para acelerar estas mudanças. Lutar por um futuro radicalmente melhor para nós, nossos filhos e até para os estranhos. Não apenas receber. Contribuir também e acelerar as mudanças.

Ecoando, mais uma vez, David Pearce:

"Se queremos viver no paraíso, teremos nós próprios de o produzir. Se queremos a vida eterna, então teremos de reescrever o nosso código genético cheio de erros e tornarmo-nos divinos. 'Possa tudo o que vive ser libertado do sofrimento', afirmou Gautama Buda. É um sentimento maravilhoso. Infelizmente, só as soluções de alta tecnologia podem erradicar o sofrimento do mundo vivo. A compaixão por si só não basta."

2 comentários:

  1. embora a atitude seja louvável, ao meu ver nem toda a ajuda financeira será suficiente.
    Para a espécie transcender, primeiro sua sociedade precisará.

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  2. Só há pouco mais de um mês descobri o movimento transhumanista, apesar de eu ter as mesmas ideias há anos (o sofrimento (de humanos e animais), deficiências e a morte involuntária são inaceitáveis; a humanidade deve usar a tecnologia para melhorar-se).

    Talvez seja um bom exemplo de como o transhumanismo está (muito) mal difundido, pelo menos aqui em Portugal parece que é próximo do zero.

    Era transhumanista e não sabia - quantos mais serão sem saber? E evitava falar nestas ideias para não dizerem que estava doido.

    Concordo com Cassini, devemos financiar tanto quanto possível quem busca estes objectivos e divulgar o transhumanismo.

    Parabéns pelo Blog, li quase todo e vou passar a acompanhar.

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