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domingo, 7 de abril de 2013

Invocações sobre os elementos da carne: equilibrando o transhumano e o transpessoal


por Jason LOUV


       Quais serão as disciplinas críticas que irão conduzir a humanidade no século 21 à iniciação?  Como é que aqueles que desejam mudar do assento de espectadores para o meio do anel conseguirão fazer isso? Como a humanidade fez isso no passado?
       Os antigos representavam o salão de iniciação nos mistérios ladeado por duas colunas - uma preta, outra branca. A tradição sobrevive no cerimonial da maçonaria e no cartão da sacerdotisa do tarô, onde Isis, a iniciadora nos mistérios,  aparece entre os dois pilares, conciliando-os.
       Para os antigos, o pilar negro representava, entre outras coisas, o caminho da calcinação do ego; o branco, o caminho da dissolução do ego. Estes ideais abstratos ou, se preferirem, "maneiras de levar a vida", acabaram sendo chamados na linguagem comum de "magia branca” ou “magina negra", mas perderam seu significado original, sendo transmitidos de maneira errada.
       Se restaurarmos seu simbolismo original, no entanto, os pilares do Templo de Salomão podem oferecer sugestões cruciais sobre os modos de transcendência que a humanidade no século 21 está começando a explorar. Vou traçar isso em linhas claras para os psiconautas iniciantes.

O caminho da mão esquerda: o transhumanismo
       Transhumanismo é o aumento e, portanto, o reforço de si mesmo. É o cume do "projeto da civilização ocidental" que está em curso e sempre tem se preocupado em estender a manifestação da vontade individual sobre a realidade física. É o uso da tecnologia direcionada para amplificar a experiência humana  - e a tecnologia pode também significar meios ou técnicas não físicos.
       Aqui eu chamo atenção para a inseparabilidade crescente de seres humanos e tecnologia de comunicação. Tanto o aumento real do corpo com as redes, a modificação corporal, a nanotecnologia etc., quanto as técnicas de mudança corporal como hatha yoga, artes marciais, cirurgia plástica, o trabalho de Wilhelm Reich, energia médica, EFT/EMDR, as contribuições do Movimento do Potencial Humano e a indústria de suplementos cada vez mais inteligente e bizantina. Podemos acrescentar as modernas e antigas técnicas de mudança do cérebro como Programação Neurolingüística, Leary/Wilson, Modelo Circuito Oito, "Dreamachine" de Brion Gysin, radiônica, tantra, "magick caos" e todo o interminável ocultismo da Nova Era. Tudo isso e muito mais pode ser usado para alterar, deformar, limpar, excitar-se, capacitar, fazer manicure ou melhorar aquilo que você chama de "eu".
       O acesso a essas tecnologias é cada vez mais difundido e eu acredito que seu uso e refinamento provavelmente irão produzir algumas customizações admiráveis da experiência humana, bem como distorções do ego cada vez mais grotescas, com seres humanos outrora normais se transformando em algo que só poderia ser descrito como "criaturas" compostas por uma multiplicidade de fragmentos de ego despedaçados e exagerados, ao invés de uma saudável identidade integrada.

O caminho da mão direita: o transpessoal
       Se a transhumanidade pode ser vista como uma busca contínua pelo domínio sobre o corpo físico e a realidade material, o transpessoal oferece um caminho muito mais direto (e talvez ainda mais perigoso): o de quebrar as barreiras que separam o pequeno “eu” de todo o mundo em si. Isto é o que pode mais vagamente ser chamado de "caminho espiritual": o caminho da dissolução do ego e união com algo maior que si mesmo.
       Sob o título de transpessoal devemos colocar os muitos ramos do  sufismo, gnosticismo, cabala, advaita vedanta, budismo mahayana, a maioria das yogas, verdade Tantra, xamanismo, "depth psychology" e as atividades que decorrem da empatia ampliada que essas práticas podem produzir: ativismo político, movimento dos direitos humanos, movimento ambientalista, trabalho direcionado para os problemas da espécie humana e outras formas de "melhorar o mundo."
       Deixando de lado, por enquanto, a questão sobre o caráter real ou não da experiência espiritual ou "consciência cósmica", e considerando o espiritual simplesmente enterrado no mundo material, acredito que podemos encontrar a mais alta expressão do caminho transpessoal no campo crescente da ecopsicologia: um modelo psicológico que propõe, grosso modo, que os problemas individuais são  manifestações dos problemas do mundo em si, e que se torna impossível falar sobre cura de um paciente sem a cura do mundo em que vivem e o eu e o mundo são, em última análise, indistinguíveis. Nunca houve uma separação, pra começar.

Entre os portões
       É fácil ver como esses dois caminhos podem se sobrepor nos seus níveis mais extremos. Por exemplo, vá até os limites de sua expansão e você pode muito bem quebrar-se no processo, permitindo que a "realidade maior" inunde para dentro. Da mesma forma, as percepções de profundidade que surgem do trabalho transpessoal podem e devem nos permitir alterar o mundo físico em razão do fortalecimento e capacitação que o "indivíduo" experimenta - chega um momento em que você pode ter que levantar o seu corpo de espantalho da esteira de meditação, fazer algumas flexões de braço, vestir um terno e começar comunicar ao mercado o que você aprendeu.
     Você também pode perceber como esses dois caminhos podem se mostrar intensamente antagônicos.
       Não tenha dúvidas de que o  transumanismo surge do mesmo impulso dominador que nos deu impérios, moinhos satânicos, a guerra nuclear, a tecnologia biológica, a escravidão, a violação e degradação do mundo físico e assim por diante. Os produtos calcificados e sem alma da cultura ocidental e a ego-adoração pode fazer a expandida consciência transpessoal se sentir tão confortável como farpas nas unhas. [N.T.: para contrabalançar esse ponto, ver artigo David Pearce]
       Alternativamente, é questionável o efeito que os insights dos místicos podem realmente produzir. As "elevadas revelações" podem ser novos pontos de vista verdadeiros e necessários para o equilíbrio da equação humana ou apenas delírios de um umbigo alucinado. As contribuições mais duradouras dos místicos que trilham o caminho transpessoal são visões interiores que, uma vez expressas, podem produzir mudanças enormes na forma como as culturas pensam - mas, assim que o autor da visão é (muitas vezes) convenientemente eliminado, no estilo “Poderoso Chefão”, esses insights rapidamente se transformam em burocráticas religiões dominadoras.

O que nos resta?
       Dois caminhos. O preto: alterar o ego como algo separado do mundo. O branco: excluir o ego e apagar toda a separação com o mundo. Ambos fornecem uma experiência e a promessa de ir além da "condição humana".
       Isolado, o transpessoal resulta em ineficácia; sozinho, o transhumano pode resultar em uma máquina sem alma em um mundo cruel.
       Caminhando entre os pilares - sem promessas - pode-se encontrar algo novo em que aqueles que cruzam pelos pilares encontrarão uma estrada ainda sem iluminação, que poucos cruzaram e cujo destino final ninguém ninguém ainda.
       Caminhe consciente.

Jason Louv é o autor de Valentine Queen e editor do Hex Generation, Ultraculture e Thee Psychick Bíble. Site: www.jasonlouv.com . Texto original: Conjurations in the element of flesh - balancing the transhuman and the transpersonal

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Professor da USP dá palestra sobre "Transhumanismo e Biohacking" no Intercon2012



"O próximo degrau está sempre escondido da gente" - Luli Radfahrer
     Tenho que quebrar meu jejum blogueiro para divulgar aqui a palestra bem-humorada, visionária e realista de Luli Radfahrer intitulada "Transhumanismo e Biohacking", que foi a palestra de encerramento do Intercon 2012. Luli Radfahrer é Professor-Doutor da ECA-USP, colunista da Folha de S. Paulo e curador do InterCon. É a melhor apresentação em português sobre as tecnologias emergentes que poderão resultar no transhumanismo que já assisti. Essa palestra deveria ser transformada em livro.
     Na primeira metade da palestra, Luli Radfahrer fala basicamente da evolução da internet. Na segunda parte, ele entra em temas relacionados ao transhumanismo como o movimento Quantified Self, cultura hacker, empreendedorismo DIY, impressora 3D e -- a parte mais interessante -- biologia sintética
     Quem já viu as palestras de Peter Dimamandis e Juan Enriquez e acompanha esses assuntos não vai encontrar muita informação nova (a questão da privacidade foi novidade pra mim, não tinha pensado o assunto dessa forma). Mas o estilo de apresentação é totalmente diferente e, é claro, trata-se de um original pensador brasileiro. Radfahrer faz algumas críticas ao Kurzweil ("O Padre Marcelo dos tecnofilistas") e à singularidade ("Uma ideia no mínimo torta"). Infelizmente, as críticas têm um formato mais retórico que analítico (isto é, rigoroso e com argumentos explícitos ao invés de frases de efeito). Por exemplo, a analogia do corredor de 100 metros rasos que Radfahrer emprega para criticar a ideia de curva exponencial e a singularidade me pareceu inexata e mal empregada (o próprio Kurzweil rebate facilmente essa crítica explicando que sua "lei dos retornos acelerados" prevê uma série de curvas exponenciais em formato "S", em que uma curva termina ao atingir certos limites e dá lugar a outro crescimento exponencial, em um nível mais alto). O problema que vejo nesse tipo de crítica é que se perde a oportunidade para uma crítica mais essencial: qual o fundamento epistemológico da hipótese da singularidade? (Ou seja, essa ideia é plausível ou é uma crença milenarista  sofisticada?) Como fica a questão das hierarquias e desigualdades sociais nessa história? Como se falar em imortalidade pra todo mundo quando hoje o pobre não tem nem saúde básica decente? O garoto com smartphone com acesso ao Google na África vai ter comida para boa formação e funcionamento do seu cérebro? Mas a singularidade e essas questões não foram o tema central da palestra, que também não teve formato acadêmico (ou seja, provavelmente todos na plateia permaneceram acordados).
    Radfahrer fez uma grande síntese bastante completa dos últimos desenvolvimentos da tecnologia e dos novos tempos que estão chegando e apresentou tudo isso de forma energizante. A palestra termina com um trecho otimista de uma palestra do físico Freeman Dyson em que a atitude niilista de curtir uma depressão diante de um universo frio e indiferente cede lugar a um impulso de afirmação da vida baseado na curiosidade e no espírito de aventura:

"Então eu espero que nos próximos 10 anos, nós encontraremos essas criaturas, e, sendo assim, é claro, toda a nossa visão de vida no universo mudará. Se nós não as encontrarmos, podemos criá-las nós mesmos. (Risos) Esta é outra grande oportunidade que se abre. Nós podemos, tão cedo tenhamos um pouco mais de entendimento de engenharia genética (...) é desenvolver uma criatura que possa viver num satélite frio, um lugar como Europa [Satélite de Júpiter], então poderíamos colonizar com nossas próprias criaturas. Isto seria algo divertido de fazer. (Risos) A longo prazo, é claro, isto tornaria possível para nós nos movermos para lá. O que vai acontecer no fim -- Não serão apenas os humanos quem colonizarão o espaço, a vida se moverá para fora da terra, se movendo para seu reino final. E o reino da vida, é claro, será o universo. E, se vida já estiver lá, isto se tornará mais entusiasmante, a curto prazo, mas, a longo prazo, se não houver vida lá, nós mesmos a criaremos. Nós transformaremos o universo em algo muito mais rico e belo do que é hoje. Então, de novo, nós temos um lindo e grande futuro para conceber."Freeman Dyson no TED2003
  
     Vale a pena ver e divulgar.





sábado, 30 de junho de 2012

As melhores TEDtalks de todos os tempos (pra mim)

O site TED é uma fonte quase inesgotável de conhecimento, entretenimento e inspiração. São um grande ponto de partida para o aprofundamento em muitas ideias. Difícil é saber o que (e em que ordem) assistir suas milhares de palestras.
Abaixo, uma lista com algumas das minhas palestras preferidas:
http://www.ted.com/profiles/1231114/talks



Quem quiser enriquecer este post pode colocar nos comentários a própria lista ou o link para alguma palestra específica.



































sexta-feira, 15 de junho de 2012

Após decisão da Justiça, Luiz Felippe Monteiro será o 1º brasileiro criopreservado

Qual é o preço do amor? Até onde você iria numa briga por uma chance de trazer de volta uma pessoa amada? 
Ligia Cristina Mello Monteiro foi longe. Gastou quase R$95mil para manter o corpo do pai, o ex-engenheiro da FAB Luiz Felippe Dias de Andrade Monteiro falecido aos 82 anos, congelado provisoriamente em uma funerária durante 3 meses de disputa judicial, já que duas outras filhas do casamento anterior de Luiz Felippe não concordaram com sua intenção de criopreservar o corpo do pai. A Justiça brasileira, finalmente, decidiu favoravelmente a Ligia, possibilitando o transporte do corpo de Luiz Felippe aos EUA, onde será preservado em uma longa noite de nitrogênio líquido.
Além de ter gasto quase R$95mil, Ligia ainda abriu mão da herança a que teria direito em favor das outras irmãs que tentaram impedi-la de congelar o corpo do pai. É o tipo de história heróica, de amor intenso e desinteressado que a gente não vê por aí todos os dias. Meus parabéns, Ligia!
Pra mim, foi mais uma simbólica vitória da vida sobre o nada. Uma vitória do poder humano de sonhar e, sonhando, alterar a realidade para tornar o mundo um melhor habitat para a mente humana. Com uma probabilidade de não ser apenas simbólica...
Os comentários dos internautas no site G1 são na grande maioria agressivos e negativos (é aquele mesmo tipo de internauta patriota que diz ser contra a criogenia porque poderia quebrar o INSS ou permitiria que o Sarney fosse senador por 1000 anos):
"Esta mulher não cresceu, foi mimada o tempo todo. Não vê que a vida é muio ais que uma vontade própria. Quanta gente morrendo por não ter o que comer, não poder comprar remédio e esta maluca gastando os tubos por capricho!!!"
"Vai ajudar quem precisa cm essa grana mulher, o homem já fez a parte dele aqui na terra. terra."
"A falta da crença em Deus e em uma vida espiritual após esse mundo é o que leva uma pessoa a fazer uma loucura dessas..."
Engraçado. As pessoas gastam uma enorme quantidade de dinheiro em produtos e serviços de utilidade pessoal ou social duvidosa, como produtos de grife, carro do ano, fast-food, cigarros e consumo exagerado de álcool (isso pra não falar em dízimos...). E aí, quando estão diante de uma questão existencial fundamental, que diz respeito à única possibilidade concreta de preservar a história e a riqueza da existência de uma pessoa amada elas ficam tão econômicas, solidárias e sensíveis à pobreza alheia... Eu vejo nessa atitude uma mistura de medo e hipocrisia: a fachada de agressividade procura esconder o próprio medo da morte, protegendo visões de vida no além que foram se apegando durante a vida. Tudo o que ameça essas visões passa a ser visto como uma ameaça.

Existe prova de que a criogenia funciona?

Confira os comentários de Nick Bostrom (filósofo analítico e professor de Oxford) sobre a criogenia:
Nick Bostrom: "Penso que criogenia é uma opção racional para uma pessoa que pode facilmente arcar com os custos e que valoriza a sua própria sobrevivência.
A lógica básica é simples. Em temperaturas tão baixas quanto a do nitrogênio líquido, os processos bioquímicos basicamente param. Isso signi fica que não existe nenhuma degradação subsequente do corpo ou do cérebro uma vez que ele tenha sido congelado ou vitri ficado. Ainda que com os protocolos atuais uma grande quantidade de dano seja feita no processo de preservação, é perfeitamente plausível que a informação contida no cérebro não é verdadeiramente apagada, apenas embaralhada - da mesma maneira como não se apaga realmente a informação de um documento impresso ao cortá-lo em pedaços: com paciência, os pedaços podem ser unidos novamente para revelar o texto original.
Temos então uma situação na qual a informação provavelmente ainda esta lá, mas de uma forma embaralhada e inviável. Alguma tecnologia avançada do futuro, tal como a Nanotecnologia ou a emulação completa cerebral, seria necessária para reparar o dano ocorrido no processo de resfriamento bem como para reverter a causa original da morte (ou 'desanimação', em linguajar criogênico). Parece negligente apostar a sua própria vida na convicção de que essas tecnologias nunca serão desenvolvidas. Consequentemente, um tratamento conservador apropriado para cadáveres seria preservá-los em temperaturas de nitrogênio líquido na esperança de que, em algum ponto no futuro, a tecnologia médica irá avançar o su ficiente para que a reanimação se torne factível.
Não existe garantia de que isso irá funcionar, mas as chances são certamente melhores do que enterrar ou cremar o corpo, o que apaga permanentemente toda a informação do seu cérebro. A criogenia é geralmente paga por um seguro de vida. O custo anual depende da idade da pessoa quando ela se inscreve. Para uma pessoa jovem, deve ser algo em torno de 500 dólares por ano, o equivalente a um ou dois pares de sapatos de grife."


Li em algum site americano alguém dizer que a criogenia é, no momento, "o único jogo na cidade" ("the only game in town") e, portanto, uma aposta racional. Para quem se preocupa com a preservação da personalidade, da sabedoria, do conhecimento adquirido e a história única de uma vida, é uma estratégia bem melhor, por exemplo, do que tapar os olhos e fingir que o problema não existe ou passar a acreditar em mágica (como a existência de um paraíso celestial). Outras pessoas estão contentes em viver uma vida só e não vêem problema nenhum nisso. Cada um deve inventar o seu caminho.
A técnica da criogenia tem sido aperfeiçoada. A técnica atual chama-se vitrificação e reduz os danos ao sistema nervoso resultantes do congelamento. Pesquisadores já conseguiram fazer um órgão vitrificado de um coelho voltar a funcionar (mas daí a ressuscitar uma pessoa vai uma boa distância).
Como a própria Lígia declarou ao G1, não é garantido que a criogenia funcione. Mas existem fundamentos científicos para crer que ela pode funcionar (veja, por exemplo, esta TED Talk: http://www.ted.com/talks/lang/pt/sebastian_seung.html), pois por meio dela tanto o DNA quanto, principalmente, o conexoma humano são preservados.
Como a criogenia poderia funcionar? Talvez um avanço substancial na área de imagens médicas, neurobiologia, somado a um desenvolvimento da "neurobiologia sintética" criassem as bases para se extrair todo o conexoma de um cérebro congelado  (http://www.ted.com/talks/lang/pt/sebastian_seung.html) e, ao mesmo tempo, transferi-lo (http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/ed_boyden.html) para outro meio. Poderia ser um clone, o próprio corpo rejuvenescido ou um computador (tenho dúvidas de que a transferência para um computador manteria a identidade humana). Mas um corpo humano com o mesmo DNA e o mesmo conexoma seria basicamente... a mesma pessoa. Talvez não em todos os detalhes (talvez as impressões digitais fossem diferentes, dentre outras diferenças). Mas somos exatamente as mesmas pessoas que éramos há um ano atrás? E há dez anos? E uma pessoa que sofre um derrame ou um traumatismo craniano? O que faz com que uma pessoa seja considerada ela mesma?
Nessa visão, as pessoas não possuem um espírito composto de algum tipo de energia ou fumaça sobrenatural que deixa o corpo com a morte, um núcleo fundamental permanente. A pessoa seria um conjunto (muito, muito grande) ou um fluxo de informação em um substrato biológico: uma mistura de informação decorrente da estrutura de uma mente fornecida pelo DNA somada a informação decorrente do desenvolvimento (nutrição e experiências de vida). Sempre sofrendo pequenas e contínuas mudanças de acordo com um padrão mais ou menos previsível (alguém também notou a semelhança desta visão com uma filosofia/religião antiga bem conhecida?).
Eu acho que um mundo em que essas entidades conscientes inteligentes pudessem evoluir o conhecimento, a sabedoria, a moral, a ciência e a arte pelos séculos a fora seria um mundo... fabuloso. No final, acho que o caminho de muitos seria semelhante ao do protagonista do filme "Feitiço do Tempo" (Groundhog Day - 1993).

“Não faça perguntas quando não quer saber as respostas”
Infelizmente, não existem quaisquer evidências de uma vida no além. Mas existem fortes evidências (confira os trabalhos dos antropólogos Scott Atran, Ernest Becker, por exemplo) apontando que o medo da morte, leva o ser humano a procurar alguma forma de acreditar na vida após a morte como forma de aplacar o estresse cognitivo gerado pelo conflito entre o instinto de sobrevivência de um lado e a consciência da inevitabilidade da morte de outro. Pode ser uma imortalidade literal ("vou para o Céu, Deus não faria isso com a gente") ou uma imortalidade simbólica ("vou ganhar o Prêmio Nobel e entrar para a história"). Mas produz também uma série de comportamentos humanos indesejáveis (inclusive a violência e intolerância). Para um resumo destas ideias, recomendo o excelente artigo: How the Unrelenting Threat of Death Shapes Our Behavior e, ainda, o filme "Flight From Death - The Quest For Immortality" (só metade dele está disponível no Youtube).
Se você fica triste com o assunto, não pense nele, e a melhor forma parece ser treinar sua mente a se voltar para o momento presente (meditação "mindfullness"). É o conselho do filósofo e neurocientista Sam Harris (que também faz parte do movimento dos "novos ateus"). Foi o conselho dado há 2.500 anos por Sidarta Gautama, que também se deparou pensando no mesmo problema. Se a questão é importante para você, tome alguma ação e, depois, "esqueça" o assunto. Lembre-se sempre da redentora frase do Guia do Mochileiro das Galáxias: "Não entre em pânico!"

Resumo da notícia no G1:
'Já pensou poder rever meu pai?', diz filha que acha possível ressuscitá-lo
Briga judicial entre irmãs vai decidir se pai será congelado ou sepultado.
Filha mais nova já gastou R$ 95 mil para manter corpo preservado em gelo.



O sonho de ressuscitar o pai, que morreu no começo deste ano, está causando uma disputa judicial entre três irmãs. Luiz Felippe Dias de Andrade Monteiro, engenheiro da Força Aérea Brasileira (FAB), faleceu em 22 de fevereiro, em plena Quarta-feira de Cinzas. A filha mais nova dele, Ligia Cristina Mello Monteiro, do segundo casamento de Luiz Felippe, começou então uma saga para tentar congelar o corpo do pai com s da técnica conhecida como “criogenia”, que utiliza nitrogênio liquido para resfriar e preservar o corpo. Segundo ela, o congelamento era um desejo expresso pelo pai antes de morrer. Como o pai, Ligia acredita que, com o avanço da ciência, será possível trazê-lo de volta à vida em algumas décadas.
“Já pensou ter a oportunidade de, daqui a 30 ou 40 anos, poder rever meu pai?”, indaga Ligia. “Não tem provas de que isso pode acontecer, mas é um sonho”, complementa. Entretanto, as outras duas irmãs, Carmen Sílvia Monteiro Trois e Denise Nazaré Bastos Monteiro, do primeiro casamento, não concordaram com o congelamento, que seria realizado por uma empresa da cidade de Detroit, nos Estados Unidos. Elas entraram com um processo contra Ligia, exigindo o sepultamento de Luiz Felippe no jazigo da família, em um cemitério de Canoas (RS), onde vivem. “As irmãs que moram no Sul falaram que o congelamento do pai era um absurdo”, conta Rodrigo Marinho Crespo, advogado delas.
(...)
Do outro lado, Ligia comemora a decisão, e avisa vai fazer de tudo para que a vontade do pai seja realizada. “Cheguei a abrir mão da minha parte na herança e deixar para minhas irmãs. Isso está nos autos. Estou muito positiva, porque os desembargadores foram muito sensatos. Meu pai vai ser o primeiro homem congelado da América do Sul. Pode ser até que esse caso venha a suscitar outros”, conclui ela.

Leia a notícia completa aqui.

Outros artigos neste blog sobre criogenia/criônica:
Larry King, celebridade da CNN, choca convidados ao confessar que quer ser criopreservado
É possível ser criopreservado no Brasil?
Excelente entrevista de Nick Bostrom na Revista Filosofia

segunda-feira, 11 de junho de 2012

USP realizará sua "1ª Jornada Transhumanista"

Um evento muito interessante terá lugar na FFLCH (a faculdade de filosofia e humanidades da USP) : A 1ª Jornada Transhumanista. E, o melhor de tudo, é que o evento poderá ser assistido online pelo site http://www.iptv.usp.br .


Não é o primeiro evento discutindo o transhumanismo no Brasil (a Federal de Santa Maria já fez vários eventos). Mas o evento é importante porque é realizado na FFLCH-USP que, na área de humanidades, acho que é de longe o centro mais respeitado e influente do Brasil. Corre-se até o risco de, depois de um evento como este, o transhumanismo sair do armário e começar a virar moda nas faculdades de filosofia do Brasil. Filósofos devem pensar as grandes questões abertas do seu tempo. O transhumanismo é, sem dúvida, uma delas.
Enfim, em termos do Brasil acadêmico, é um evento bastante significante, de impacto. Parabéns aos organizadores.
O evento ainda contará com a participação de David Pearce, cofundador da Humanity+ e, sem dúvida um dos filósofos mais relevantes nos dias de hoje (pelo menos na minha lista, que inclui também Owen Flanagan, Daniel Dennett e Sam Harris).
O evento é organizado pelo Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade (único instituto devotado ao estudo e divulgação do transhumanismo no Brasil que tenho conhecimento).

Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidadeúnico instituto devotado ao estudo e divulgação do transhumanismo e da singularidade no Brasil organizou o evento.

Vale a pena divulgar e participar.

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Cartaz do evento:
http://www.fflch.usp.br/df/site/agenda/arquivos/Jornada_transhumanista_2012_cartaz.pdf

Sexta-Feira, 15 de junho de 2012, 14 às 20 hs, sala 8
Depto. de Filosofia – FFLCH – USP
Transmissão online:  http://www.iptv.usp.br
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 (Cidade Universitária) São Paulo, SP

14:00-15:00 hs João Lourenço Fabiano (FFLCH-USP):

“Melhoramentos cognitivos: razões para modificar a evolução”

15:00-16:00 hs  Leo Arruda (Unifesp): “Ética utilitarista e transhumanismo”

16:30-18:00 hs Diego Caleiro (FFLCH-USP): “Nossos valores atravessarão a Singularidade?”

18:00-19:00 hs David Pearce (BLTC Research – Brighton, Inglaterra): “Abolishing suffering”

19:00-20:00 hs Discussão

“O transhumanismo é a classe de filosofias que busca nos guiar a uma condição pós-humana. O
transhumanismo compartilha muitos elementos do humanismo, como o respeito pela razão e
pela ciência, o compromisso pelo progresso, e uma valorização da existência humana (ou
transhumana) nesta vida, ao invés de em alguma  sobrenatural  ‘vida após a morte’. O
transhumanismo difere do humanismo no reconhecimento e na antecipação de alterações
radicais na natureza e nas possibilidades de nossas vidas, resultantes de várias ciências e
tecnologias, como a neurociência e neurofarmacologia, extensão da vida, nanotecnologia, ultrainteligência artificial e habitação do espaço cósmico, combinadas com uma filosofia e um
sistema de valores racionais” (MAX MORE, 1990, http://www.maxmore.com/transhum.htm).

Sexta-Feira, 15 de junho de 2012, 14 às 20 hs, sala 8
Depto. de Filosofia – FFLCH – USP
Transmissão online:  http://www.iptv.usp.br
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 (Cidade Universitária) São Paulo, SP

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Começo do Infinito, A Condição Humana, Abundância etc.


Quem ainda não conhece, vale apena dar uma olhada nos vídeos do "filósofo-ator" Jason Silva. São pequenos vídeos artístico de aproximadamente 2 minutos de duração em que Jason condensa sons e imagens exuberantes com ideias filosóficas (tecno-otimistas) em velocidade tão rápida que dá a impressão de que despeja tudo direto no seu cérebro.
Confira três dos vídeos (ainda que você não entenda bem inglês, se já está familiarizado com o assunto, vai captar alguma coisa)

O COMEÇO DO INFINITO

A CONDIÇÃO HUMANA

ABUNDÂNCIA

Para saber mais

Entrevista de Jason à revista Wired (inglês):
http://www.wired.com/underwire/2012/01/jason-silva/all/1
Palestra de Jason em evento da revista The Economist:
http://www.youtube.com/watch?v=UWl6Pm2klPU
Canal com os todos os vídeos de Jason:
http://www.youtube.com/user/jasonsilvamindmeld/videos


domingo, 6 de maio de 2012

Universidade futurista do Vale do Silício quer moldar um novo mundo



São Paulo, domingo, 06 de maio de 2012
Ilustrissima

CIÊNCIA

'Think tank' do futuro
A universidade que quer moldar um novo mundo
CAROLE CADWALLADR
TRADUÇÃO CLARA ALLAIN


É o primeiro dia de trabalho na Universidade da Singularidade, e um holograma acaba de fazer o discurso inaugural. O próximo é Craig Venter, pioneiro do sequenciamento do genoma humano e criador da primeira forma de vida sintética. Mais tarde, veremos duas pessoas paralisadas da cintura para baixo vestindo exoesqueletos robóticos ficarem de pé e andar.
Antes disso, porém, o cofundador da Universidade da Singularidade, Peter Diamandis, nos dá as instruções do dia. Nossa tarefa, diz ele, é escolher "um dos grandes desafios da humanidade" -por exemplo, a escassez de água potável. E então bolar uma ideia "que possa impactar positivamente a vida de 1 bilhão de pessoas".
São 9h30. Somos uns 50, e a sala foi divida em mesas: educação, pobreza, água etc. Diane Murphy, a assessora de imprensa da universidade, me indica a mesa sobre "alimentação". "Por que não senta no lugar do Ashton Kutcher? Ele vai demorar a chegar."
A Universidade da Singularidade não parece uma universidade comum. E não só por acolher gente como Craig Venter, Kutcher ou o músico will.i.am, que, num debate, faz uma pergunta sobre levar a universidade até o gueto. Os cursos não são reconhecidos oficialmente. Não há estudantes tradicionais.
A Universidade Stanford pode ter sido o berço de mil "startups" -empresas iniciantes de tecnologia em geral relacionadas a grupos empreendedores- do Vale do Silício e de grandes inovações, mas a Singularidade é criada à própria imagem do vale: altamente conectada em rede, alimentada por um coquetel de filantrocapitalismo e dotada de uma consciência quase mística de seu próprio destino.
Ela é o "think tank" futurista de elite do Vale do Silício e seu braço que se conecta com o mundo: o Google e a Microsoft vieram para a aula inaugural e doaram dinheiro, a Nasa cedeu o espaço para o campus e uma frase do cofundador do Google, Larry Page, enfeita o site da universidade: "Se eu fosse estudante, ia querer estar aqui". O objetivo é "reunir, educar e inspirar uma nova geração de líderes que se esforcem para compreender e utilizar tecnologias exponencialmente avançadas para fazer frente aos grandes desafios da humanidade".
Seria melhor tratar tudo à moda britânica: ironizar. Ashton Kutcher, o ator mais bem pago da TV americana! (Mais tarde, li que ele vai representar Steve Jobs no cinema e desconfiei de que ele possa pensar que é de fato Jobs.) Um bilhão de pessoas! E Diamandis é o tipo de empreendedor que encara qualquer parada e que nós, britânicos, tendemos a ironizar e evitar.
Metade das pessoas na sala já fez realmente coisas que tiveram impacto positivo sobre 1 bilhão de pessoas ou mais. Não só Venter; há também Vint Cerf, um dos pais da internet -trabalhou no Arpanet, antecessor da web- que hoje é o "evangelista-chefe da internet" no Google. E Sebastian Thrun, do Google, o homem por trás de uma das tecnologias mais recentes e perturbadoras: o carro que anda sozinho.
E há Elon Musk, cofundador do sistemas de pagamentos on-line PayPal e da Tesla Motors, que inventou o carro elétrico e está trabalhando numa nave para substituir os ônibus espaciais. Reid Hoffman, cofundador da rede social LinkedIn, está na plateia, além de Troy Carter, marqueteiro da estrela pop Lady Gaga.
Ao fim do dia, chega Buzz Aldrin, celebridade genuína. Todos os cientistas querem fotos com ele. "O que você acha da Universidade da Singularidade?", pergunto a Aldrin. "Sou do tipo do sujeito que realiza muitas coisas", ele responde. "Mas venho para cá e penso: 'Uau, preciso fazer mais'."

CELEBRIDADES
Apesar das "poucas" realizações de Aldrin -ele foi o segundo homem a pisar na Lua, pilotou 66 missões na Guerra da Coreia (1950-53), já fez um dueto com o rapper Snoop Dogg-, ele não deixa de ter razão. A ideologia da Universidade da Singularidade é justamente essa: fazer melhor. Sua fé no progresso é tão enraizada que o lugar ganha um ar retrofuturista, com carros voadores e propulsores a jato dos anos 1950.
Até o nome soa como se tivesse saído da ficção científica. Talvez porque tenha saído mesmo da ficção científica. Singularidade é um termo que o cofundador da instituição, o escritor e futurólogo Ray Kurzweil, emprestou de um ensaio de Vernor Vinge, autor de ficção científica. As definições variam, mas o termo costuma ser interpretado como o ponto em que a inteligência do computador supera a do homem. Nas bem fundamentadas previsões de Kurzweil, isso se dará em 2029.
Kurzweil é um homem genuinamente singular. É cientista, inventor -desenvolveu um dos primeiros sistemas de reconhecimento de voz-, autor e trans-humanista: acredita que, caso consiga se manter vivo até que a tecnologia necessária seja inventada, poderá se manter vivo para sempre. Mas é conhecido sobretudo como futurólogo: previu a fragmentação da URSS, o crescimento da internet, o ano em que computadores derrotariam os melhores enxadristas humanos, o e-book, o ensino on-line e dezenas de outras coisas.
Pelas suas contas, 89 de 108 previsões que fez em 1999 sobre como estaria o mundo em 2009 se mostraram corretas; já outras 13 estavam "essencialmente corretas".
O que está no cerne das previsões de Kurzweil é a lei de Moore, segundo a qual a potência de computação dobra a cada dois anos. A regra foi observada originalmente por Gordon Moore, que em 1965 cofundou a fabricante de processadores Intel e previu que a tendência se manteria "por pelo menos dez anos". Ela se manteve pelas cinco décadas seguintes, e não se sabe por quanto tempo ainda valerá. A potência de computação tem crescimento exponencial: o que é um vira dois, dois vira quatro, quatro se torna oito, e por aí vai.
O programa-padrão na Universidade da Singularidade é um curso de dez semanas que custa US$ 25 mil (R$ 47,5 mil) e em 2011 teve 2.400 candidatos disputando 80 vagas. É a versão Vale do Silício de um MBA. E a demanda é tão grande que a universidade começou a promover minicursos "executivos", como o que assisti.
"Empresas de bilhões de dólares estão nascendo da noite para o dia", diz Peter Diamandis. "E empresas de bilhões de dólares estão sendo fechadas da noite para o dia." Ou, como me disse Mike Federle, executivo-chefe da "Forbes": "Os CEOs estão desesperados para aprender essas coisas. Todo o mundo está tentando prever o que vai vir a seguir."
"A potência de computação por dólares se multiplicou trilhões de vezes desde os meus tempos de faculdade", diz Kurzweil em seu discurso inaugural, proferido a partir de sua casa, em Boston, tendo sua cabeça projetada em 3D na sala, em uma imagem holográfica.
"Guerras, crise econômica, nada tem impacto. A potência continua a crescer exponencialmente." Antigamente, a saúde avançava em progresso linear, mas "virou uma tecnologia exponencial". E o mesmo que aconteceu com a impressão em 3D se dará com "o mundo das coisas físicas".
Nosso problema ao visualizar o futuro é que nossas expectativas são "lineares, não exponenciais", diz Kurzweil. As coisas não vão mudar de modo incremental, vão mudar explosivamente. E foi isso o que captou a atenção de Peter Diamandis -ele leu o livro de Kurzweil, "The Singularity is Near" (a singularidade está próxima), durante uma caminhada de aventura no Chile- e o inspirou a criar a universidade.
Somos sete em nossa mesa. Devemos pensar soluções para alimentar os 7 bilhões de habitantes do mundo. Me pergunto o que Ashton Kutcher diria. Sem constrangimentos, o meu grupo começa a dar ideias. "O que acham de carne artificial?", propõe Mike Federle. "Poderíamos fabricar um bife agora mesmo", diz Robert Hariri, médico que fundou uma empresa de biotecnologia especializada em tratamentos pioneiros com células-tronco. "Mas ele nos custaria US$ 20 mil."
O tom competitivo combina com os executivos-chefes e é um dos princípios que norteiam Peter Diamandis. Ele estava aprendendo a pilotar quando alguém lhe deu um livro sobre o voo de Charles Lindbergh sobre o Atlântico, realizado em 1927. Ele descobriu que a viagem de Lindbergh foi precipitada por um prêmio.
Essa teoria o levou a criar o Prêmio X, que começou com um incentivo de US$ 10 milhões para a primeira pessoa ou empresa que criasse uma nave espacial tripulada, reutilizável e para particulares (Burt Rutan e Paul Allen, cofundador da Microsoft, ganharam o prêmio em 2004, pela nave SpaceShipOne). A Fundação Prêmio X já lançou muitos outros prêmios, sendo o mais recente o Prêmio Qualcomm Tricorder, também de US$ 10 milhões, pela invenção de um aparelho que possa ser segurado nas mãos -ou "tricorder", como é chamado em "Jornada nas Estrelas"- e seja capaz de diagnosticar 15 doenças.

ABUNDÂNCIA DE IDEIAS
Antes do almoço, já ouvimos Craig Venter sobre seus planos de criar biocombustíveis: ele acredita que um acre (cerca de 4.000 m²) de algas microscópicas poderá produzir 10 mil litros de óleo por ano -um milharal da mesma área rende 18 litros. Venter acaba de receber US$ 300 milhões em investimento da Exxon para converter isso em realidade.
Andrew Hessel, docente de biotecnologia da Universidade Singularity que quer criar tratamentos contra o câncer com código aberto e distribuição livre, diz que a biologia é a próxima tecnologia exponencial. O código genético vai se tornar "uma linguagem de programação", diz ele. Estamos no início de transformações maciças: o bio-hacking do tipo "faça você mesmo" já começou. "Os vírus estão chegando primeiro", ele afirma. "Vírus são fáceis de fabricar."
Enquanto isso, Vint Cerf fala sobre a "internet das coisas". No futuro próximo, afirma, aparelhos vão conversar uns com os outros. "Você vai estar no supermercado e receberá uma ligação da geladeira dizendo 'não esqueça o molho marinara'."
A tese de Diamandis é que em pouco tempo vamos ingressar num mundo "pós-escassez". Esqueça o esgotamento das reservas de petróleo. Quem vai precisar delas quando temos "15 terawatts de energia do Sol chegando à Terra a cada 15 minutos"? O desafio é apenas como atrelar essa energia. "E estamos cada vez melhores nisso", diz ele.
Não é só isso o que nos impede de mudar nosso comportamento não sustentável, apontam seus críticos; é que, como diz Craig Venter, esta tecnologia é bastante trabalhosa. E às vezes não tem resultados tão bons quanto se esperava.
Diamandis tem um arsenal de aforismos que mais parecem vindos de um "personal trainer de vida" ("a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo você mesmo"; "se você não pode vencer, mude as regras"). Mas ele também tem o dom de resumir uma ideia em uma imagem. Uma de suas frases mais conhecidas é que um guerreiro massai munido de um celular tem mais capacidade de telecomunicações do que o presidente dos EUA tinha há 25 anos. "E, se ele tiver um smartphone com o Google, tem acesso a mais informações do que tinha o presidente 15 anos atrás".
Diamandis pode ser um showman, mas é um showman que é levado a sério por algumas das pessoas mais inteligentes e mais bem-sucedidas do mundo. Há duas semanas, lançou uma empresa -com o respaldo de Larry Page e Eric Schmidt, presidente do Google- para extrair minerais raros de asteroides usando naves espaciais.
O segundo dia de nosso curso de três dias termina com uma festa no set de uma rua de Nova York, no estúdio da Fox. Dois paraplégicos se levantam de suas cadeiras de rodas para andar pelo palco em exoesqueletos robóticos, e will.i.am diz o que pensa sobre o dia que passou: "Mudou toda a minha visão da vida. Mas estou preocupado com os nossos centros urbanos pobres. Acabo de ouvir que a minha sobrinha vai ser menos inteligente do que o celular dela. Tivemos uma geração que quis melhorar o seu saldo bancário, não o cérebro. Eu quero inspirar jovens para serem cientistas e engenheiros."
Peter Diamandis cresceu no Brooklyn, filho de imigrantes gregos, e sentiu-se inspirado pela missão Apollo a tornar-se cientista, tendo se formado em medicina e biologia molecular e obtido um Ph.D. em engenharia aeroespacial no MIT (Massachusetts Institute of Technology). A Universidade Singularity não é a primeira universidade que ele fundou. Aos 20 e poucos anos, Diamandis criou a Universidade International Space (universidade espacial internacional), que já formou uma geração inteira de cientistas da Nasa.
É por isso que Buzz Aldrin veio para cá e que outro astronauta, Dan Barry, leciona robótica na Universidade da Singularidade. (A grande previsão de Barry diz respeito ao sexo robótico. "Você acha engraçado, né? Mas também sou um médico de reabilitação, e o sexo é uma necessidade humana básica que os robôs poderão suprir a deficientes físicos, viúvos, idosos. Isso vai acontecer. O melhor que você tem a fazer é aceitar e entrar nessa onda desde o começo.")

(...)

Texto publicado na Folha de S. Paulo em 06/05/2012. Leitores da Folha e do UOL podem ler o texto na íntegra aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/41125-think-tank-do-futuro.shtml



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Começaram os cursos do MITx: estude no MIT de graça e com certificado

Como anunciado antes (para evitar que as pessoas fiquem procurando por atualizações em vão) este blog está parado em 2012, com alguns poucos posts anteriormente agendados no blogger ainda em 2011. Mas as notícias abaixo merecem um post do tipo "plantão urgente" (não, ainda não é a singularidade ocorrendo, hehe).

O que é o MITx?

MIT: agora você pode obter um certificado sério de que estudou lá sem ter nunca ido lá.
O MIT é onhecido como uma das melhores escolas de engenharia (a melhor?) do mundo, onde "as grandes mentes de hoje ensinam as grandes mentes do amanhã". Você provavelmente já sabe disso. O que talvez não saiba é que, agora, é que o MIT quer educar a sua mente também, de graça e com certificado acessível (o alto custo do ensino superior nos EUA é um dos grandes problemas daquele país).

Depois do TED abrir sua plataforma com o TEDx, agora é a vez do MIT com o MITx
 

Você já deve ter ouvido falar do MIT Open Curse Ware (MIT OCW), que coloca o material de disciplinas do MIT (às vezes, vídeos completos) online, gratuitamente, na internet. Mas agora, o MIT resolveu dar um passo além e ir mais longe criando o MITx, um projeto que desenvolverá cursos inteiramente online (sim, porque os cursos OCW eram simples gravações de cursos presenciais), em um estilo semelhante ao da Khan Academy. Mas a maior inovação, no entanto, está no fato de que o MIT oferecerá certificação respeitável e séria a quem conseguir concluir os cursos "a um custo módico" e acessível. Você se inscreve no curso, estuda gratuitamente e é avaliado por sistemas automatizados de atribuição de notas. Se já estiver satisfeito, você já teve educação top de linha completamente gratuita. Se quiser ir além e documentar isso em seu currículo ou para mostrar a um empregador, você poderá obter um certificado, pagando uma pequena taxa (em um notícia li que ela seria variável de país para país, talvez em torno de "1/4 do salário mínimo de um país"). Na prática, isso significa que alunos pobres e sem recursos a partir de qualquer lugar do mundo poderão desfrutar da educação do MIT. As faculdades ruins (privadas ou públicas) que se preparem...

Além disso, a plataforma estará aberta a outras universidades que poderão organizar e oferecer seus próprios cursos através de contratos ou convênios com o MITx. 

Os certificados não serão conferidos pelo MIT, mas pela nova grife MITx (http://mitx.mit.edu/). Mas MITx não significará cursos mais fáceis, nem um MIT com colher de chá. Os cursos serão puxados, no mesmo nível dos cursos do MIT e você só vai ser aprovado se realmente assimilar aquele conhecimento. Também, a princípio (e provavelmente por muito tempo) não serão conferido diplomas de graduação pelo MITx, apenas certificados das disciplinas.
O melhor da notícia é que o projeto já começou e o primeiro curso começa no dia 05 de março. Este curso piloto irá conferir o certificado aos aprovados gratuitamente (os demais cursos, que logo se seguirão a este, cobrarão apenas o certificado -- o estudo, inclusive os exercícios, será sempre gratuito). Você pode obter mais informações e se inscrever no curso aqui:

Um pouco de aUdácia
Se você, além das disciplinas de graduação e pós graduação, se interessa mesmo é por um diploma completo, não se preocupe. Uma empresa com mais audácia já está prometendo isso: a Udacity, que tem como um dos co-fundadores Sebastian Thrun.




















Thrun é um dos cabeças do "Google X Lab", o lendário e secreto laboratório em que "são desenvolvidos os selvagens sonhos de futuro do Google" e onde ele desenvolve os carros robôs do Google que dirigem sozinho. Além disso, até recentemente Thrun foi professor de Stanford, onde lecionou a ai-class.com, um turma aberta de Stanford que ensinou a dezenas de milhares de alunos pelo mundo afora um curso introdutório de inteligência artificial

"Audácia, mais audácia, sempre mais audácia" (Danton).  A Udacity, a startup que quer revolucionar a educação superior 


A grande repercussão da ai-class.com, mexeu com a cabeça de Thrun: "Você pode tomar a pílula azul e voltar a dar aulas expositivas para seus 20 alunos, mas eu tomei a pílula vermelha e vi Maravilhas". Thrun resolveu largar de vez sua carreira de prfessor em Stanford (onde ele era um tipo de professor visitante e, segundo ele, já está pensando em sair mesmo para dedicar mais ao seu emprego no Google) para fundar a Udacity, uma empresa start up que promete revolucionar a educação, fornecendo educação de nível mundial gratuitamente (e, ao que parece, com certificação de custo reduzido) para todo o mundo. Thrun disse que também foi inspirado por Salman Khan e que a Udacity utilizará recursos semelhantes ao de Khan. Na prática, parece que a Udacity será uma espécie de Khan Academy privada e empresarial (a Khan Academy é uma instituição sem fins lucrativos), no modelo das empresas de tecnologias do Vale do Silício, que inovará na área de certificação
Os dois primeiros cursos da Udacity começam anda este mês (fevereiro de 2012): um curso mais avançado sobre como programar um carro robô e um curso básico que promete ensinar a você o básico da programação de computadores em sete semanas, o suficiente para permitir-lhe construir "um engenho de buscas semelhante ao Google". Parece uma promessa grande demais. Mas essas pessoas costumam não brincar em serviço: no vídeo da Udacity é o próprio Sergey Brin, co-fundador do Google, que dá uma mãozinha como garoto propaganda. A empresa anunciou ainda outros 08 cursos online ainda este ano e teve a audácia de prometer um curso de graduação completo de ciência da computação à distância (inteiramente online) e certificado.
Ainda não está claro como a Udacity vai ganhar dinheiro com a iniciativa. Uma das formas anunciadas é que ela irá funcionar como uma espécie de intermediadora de mão de obra qualificada. Ela cobraria de empresas clientes (como o próprio Google) para fornecer-lhes contato com alunos excepcionais em seus cursos (ou seja, além de estudar de graça, você ainda corre o risco de ganhar um emprego em uma empresa de tecnologia). Além disso, provavelmente desenvolverá um modelo freemium semelhante ao do MITx: cursos e avaliações são gratuitas, porém valores módicos são cobrados pela certificação. Como estamos falando de uma escala de centenas de milhares de alunos, a empreitada pode se tornar sustentável e até bastante lucrativa.

Falta-lhe base para fazer esses cursos?
Que tal começar com a Khan Academy? Você pode usar os vídeos da Khan Academy tanto para estudar matemática e outras disciplinas como para desenvolver seu inglês. Também pode usar vários outros recursos online, como o software Rosetta Stone,  duolingo.com, e (o que mais funcionou para mim, que já tinha alguma base da gramática inglesa), assistir a palestras TED com legenda em inglês e estudando o vocabulário (você pode assistir as palestras em português, para conseguir a compreensão e, depois, estudá-las em inglês e ir estudando o vocabulário e memorizando-o com uso de softwares que ajudam a memorização de conteúdos, como o anki.
Outra excelente notícia é que a Fundação Lemann, em parceria com o Iinstituto Península e o Instituto Natura começou a dublar os vídeos da Khan Academy, com dublagem profissional. E, assim como na Califórnia e em outros lugares dos EUA, o projeto da Fundação Lemann e seus parceiros pretende levar a Khan Academy para dentro das salas de aula de escolas brasileiras, em um experimento para tentar aprimorar a educação (mais informações: http://www.fundacaolemann.org.br/khanportugues/nas-escolas.php).

Então, o que você está esperando para começar adquirir conhecimento para enfrentar os grandes problemsa do século XXI?


Para saber mais:





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O que é a singularidade? Como seria vivenciar a singularidade?


Escala de Inteligência: rato, chimpanzé, um idiota, Albert Einstein e, finalmente, uma superinteligência artificial capaz de aprimorar a si própria.

Excelente entrevista (em inglês, sem legendas) de Peter Norvig sobre a plausibilidade da singularidade. É a entrevista mais equilibrada sobre o assunto que já vi. Peter Norvig escreveu o livro mais famoso do mundo sobre Inteligência Artificial e, além disso, é professor em Stanford e diretor de pesquisas no Google. Eis o link da entrevista:




Embora de natureza especulativa, a hipótese da singularidade é intelectualmente instigante e levanta muitas questões interessantes. Em um exercício lúdico, poderíamos, por exemplo, perguntar: como nós, seres humanos, nos sentiríamos diante da ocorrência da singularidade? Como poderíamos representar visualmente a "sensação" de vivenciar a singularidade, assistir a "decolagem" de máquinas cuja capacidade de comunicação e pensamento estariam muito além de nossa imaginação? Como seria essa sensação de ser "deixado para trás", essa incapacidade de compreensão de uma linguagem possivelmente muito mais rica e rápida?  Eis o meu palpite: se algum dia algo semelhante a singularidade tecnológica ocorrer, acho que poderíamos comparar às sensações experimentadas por uma ser humano "não aprimorado" a deste astronauta:


Para quem procura por argumentos aprofundados sobre a possibilidade da singularidade, eis um bom começo:
http://consc.net/papers/singularity.pdf

E uma explicação bem didática da ideia da singularidade:


domingo, 1 de janeiro de 2012

Fique vivo: não entre com doçura nessa noite acolhedora


A palestra acima de Joe Betts-Lacroix no TEDxSF (San Francisco - Califórnia) em 2011 intitulada "Fique vivo: não entre com doçura nesta noite acolhedora" realmente ressoou em mim. Acho que esse é o espírito!

Resolvi legendá-la em português. Afinal, são 200 milhões de pessoas que falam português no mundo e precisam ter ao menos a oportunidade de poder conhecer o assunto.

Se você concordar com as ideias desta palestra, divulgue-a. Os obstáculos culturais não são menores que os desafios científicos.

Halcyon Molecular: a empresa "start up" que quer transformar a biologia em uma ciência da informação com vistas a curar doenças e estender o tempo de vida dos seres humanos.

Lembro-me de uma notícia veiculada no Yahoo! este ano sobre o Aubrey de Grey e a cura do envelhecimento. Não consegui achar a notícia original com os comentários, mas lembro de alguns comentários de cabeça. Havia dezenas de comentários e quase todos negativos. As pessoas argumentavam coisas do tipo: "Se as pessoas viverem 1000 anos, não teremos como aposentar" ou "se não envelhecermos, a previdência social vai quebrar" ou ainda "o governo vai roubar ainda mais dinheiro da gente" e "se descobrirem a fonte da juventude, políticos como o Sarney nunca sairão do poder".

É um privilégio poder assistir o cérebro dos internautas funcionando a todo vapor! Quanta preocupação cívica com o INSS! Os brasileiros são tão patriotas a ponto de preferirem a própria morte à falência da previdência social (eu preferiria esquecer a aposentadoria e ser produtivo pelos séculos a fora). Uma lição de patriotismo abnegado para o resto da humanidade. A Dinamarca e a Suécia devem estar morrendo de inveja.

E a preocupação com a política? Os internautas, nos mesmos comentários desta notícia, diziam que é melhor todo mundo morrer "para que o Sarney também morra", a existir uma cura para o envelhecimento que beneficie a todos. Colocam (obviamente, só em um fantasioso comentário na internet) a participação política acima de suas próprias vidas. E, ainda, preferem condenar não só uma, mas todas as pessoas boas e criativas (nem Albert Einstein ou Fernando Pessoa escapariam se estivessem vivos!) só para garantir que os corruptos também morram. Ora, não seria mais fácil deixar de votar nos corruptos ou mudar o sistema político? Ou derrubá-los como fizeram os árabes? Também se esquecem que os corruptos possuem filhos, netos, irmãos etc. que rapidamente os substituem. Os corruptos podem ser mortais, mas a corrupção é perene.

Em resumo: as dificuldades culturais são enormes. Como Einstein disse, "é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito" e há muito preconceito quanto ao tema superlongevidade e combate ao envelhecimento. Além da religião falar que não há problema algum e que o céu fica depois da morte, mesmo quem não é religioso sustenta que não seria uma boa ideia com base nesse tipo de fundamentação.

Uma razão mais preocupante sobre as consequências da superlongevidade diz respeito à escassez de recursos e a quantidade de gente que o planeta terra suporta. Mas é preciso considerar que as taxas de natalidade se reduzem drasticamente quando um país atinge certo nível de desenvolvimento e, o principal: não há um único habitante na Lua, nem em Marte ou nas luas de Júpiter. Definitivamente, há muito espaço no céu. E já há gente séria prometendo colocar "milhões de pessoas" em Marte: http://www.newscientist.com/article/mg21228433.000-ill-put-millions-of-people-on-mars-says-elon-musk.html

Você acha que não caberia tanta gente no planeta se houvesse uma cura para o envelhecimento? Que tal mandar o excedente para explorar Marte?
Acho que por isso a causa do combate ao envelhecimento mexe comigo. É que é me parece algo tão óbvio, tão plausível e, ao mesmo tempo, tão ignorado (ou combatido) que me causa espanto. Você vê toda a preocupação e sofrimento em relação às doenças, mas nenhuma preocupação em relação à esta grande doença-mãe que é o envelhecimento. Assim, divulgar esse ponto de vista alternativo é essencial.

Eis o poema de Dylan Thomas a que Joe Betts-Lacroix se refere (traduzido do inglês por Ivan Juqueira):

O poeta Dylan Thomas por ocasião da morte de seu pai: "Não entres nessa noite acolhedora com doçura"
























Não Entres Nessa Noite Acolhedora Com Doçura

“Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva lhes  perdura
Porque suas palavras não garfaram a centelha esguia,
Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os bons que, após o último aceno, choram pela alvura
Com que seus frágeis atos bailariam numa verde baía
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea alvura
E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua travessia
Não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os transfigura
Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se alegraria,
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

E a ti, meu pai, te imploro agora, lá na cúpula obscura,
Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima bravia.
Não entres nessa noite acolhedora com doçura.
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.”