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sábado, 31 de dezembro de 2011

Feliz 2012! (e pausa no blog)

Em primeiro lugar, um feliz 2012 para todos. Que seja um ano de crescimento, realizações e florescimento!

* * * 

Quase um ano e meio blogando. Foi um projeto divertido. Ao invés de ser considerado doido varrido por amigos e parentes, uma oportunidade de trocar ideias com quem partilha de uma visão de mundo semelhante. Ao invés de uma conversa de bar restrita à falível memória de 4 ou 5 pessoas, você conversa com milhares de pessoas -- perpetuamente. Quando vi que tinha mais gente que o esperado "ouvindo" a conversa, tentei melhorá-la um pouco. Um blog é uma experiência legal, recomendo a todos.

Troquei e-mails com pessoas muito legais. Muitos comentários interessantes.

Tentar traduzir textos e legendar palestras deu uma turbinada no meu inglês. Antes de tentá-lo, nem achava que conseguiria (uma dica para seu inglês, se você também acha que não dá conta: assistir palestras do TED em português e, depois, em inglês, estudando 3 ou 4 palavras novas por palestra). Mas em 2012 tenho alguns grandes desafios profissionais para enfrentar e precisarei de cada minuto e da atenção focada apenas nestes projetos. Assim, provavelmente não haverá mais posts em 2012, a não ser posts automaticamente agendados. Mas, se tudo der certo, em 2013 estaremos aí. E se a singularidade ocorrer prematuramente 2013, quebro esse jejum blogueiro para dar plantão :)

Assim é a vida: não tem como pausá-la. É preciso viver e lançar hipóteses sobre a vida pelo caminho. E eu aprendi ou refleti melhor sobre muita coisa desde que comecei a blogar. Blogar é como pensar alto ou pensar por escrito. Eis algumas delas:

1. O transhumanismo é mais um conjunto de objetivos que uma filosofia sistematizada. Eu simpatizo com ele porque, de um lado, não quero (nem consigo) me iludir com crenças religiosas, esotéricas, místicas etc. (embora algumas dessas práticas possam até ser importante para, por exemplo, cultivar o desapego e a relativização do ego). Em uma sociedade em que a vida é dura e a educação é péssima, a religião, mesmo a religião tradicional (ex: evangélicos), pode ter uma função para a maioria das pessoas, já que elas não tem substitutos melhores. Não há grupos de professores de ética ou psicologia positiva tentando substituir pastores nas periferias brasileiras. A televisão está basicamente preocupada em atiçar desejos consumistas com programas bobocas intercalados com comerciais que prometem tornar seus cabelos cinematograficamente sedosos.
Minha avó é uma pessoa de fé e não vejo problema nenhum nisso. É o melhor que estava ao alcance dela e toda a vida dela está estruturada nisso. Por outro lado, acho imoral uma pessoa que teve melhores oportunidades educacionais, que tem um bom raciocínio, utilizar histórias consoladoras da religião – e ensiná-la a seus filhos. Podemos fazer algo melhor. Por isso eu acho que o espiritismo, que é muito popular no Brasil e tem muitos adeptos na classe média e classe média alta, é mais prejudicial que o barulhento movimento evangélico. São pessoas que poderiam estar dando alguma contribuição, que têm recursos. Com o propósito de tornar as pessoas mais relaxadas diante da angústia existencial, a religião desvia recursos e atenção, colocando-se no caminho das soluções reais.

2. Se a religião é uma má solução, o pessimismo niilista da cultura intelectual moderna e pós-moderna não é uma alternativa para mim. Simplesmente não me sinto atraído em curtir uma fossa na beira do abismo, nem pelo tipo de comportamento às vezes autodestrutivo e negligente que resulta dessas crenças. “Ah, a condição humana é uma miséria...", “o melhor que alguém pode conseguir na vida é não ter nascido” (Schopenhauer). A questão é que já nascemos e já estamos vivos e, se a condição humana tem aspectos deprimentes, por que não tentar fazer algo para melhorá-la, ao invés de consumir energias lamentando-se? Talvez não dê tempo para desfrutarmos dessas conquistas. Deixemos, então, de presente, às futuras gerações. A essência de ser humano é superar desafios e, pela cultura, avançamos mais rapidamente que a própria evolução. Sobre esse pessimismo desiludido moderno, eu diria: em comparação com as filosofias antigas, as filosofias modernas, além de elitistas (destinadas a guetos acadêmicos crescentemente especializados) são meio doentias (lembrando o aspecto visual da arte no século XIX, que abandonou o ideal da beleza). Os antigos estavam preocupados em uma maneira de viver bem a vida. Muitos modernos, pelo contrário, parecem ter se especializado em generalizar para toda a humanidade suas visões de mundo construídas, além dos problemas da condição humana, a partir de catástrofes pessoais (rejeição amorosa, fracasso acadêmico ou editorial, problemas financeiros, tuberculose etc.), históricas (guerras mundiais, holocausto etc.) e da inabalável crença de que as coisas nunca melhorarão. Sinceramente, eu acho que a humanidade não vai ficar muitos séculos ruminando “como a condição humana é miserável”. Muito antes, os seres humanos vão alterar a própria condição humana e vão se tornar  um pouco mais “divinos”.

3. Muito antes das pessoas se tornarem “divinas”, terão que se esforçarem para se tornarem sábias. Porque mesmo que a tecnologia crie um paraíso secular, escolhas morais equivocadas poderão transformar o céu em um inferno. Ou, destruindo tudo, poderão transformar o céu no nada. A boa notícia é que já possuímos muitas ferramentas e reflexões para tentarmos nos aprimorar moralmente. As filosofias antigas (e muitas reflexões modernas), como o estoicismo, o epicurismo e o budismo podem ter algo a nos ensinar. Não eram desenvolvidas para alimentar teses e carreiras acadêmicas, mas para proporcionar para as massas ferramentas para uma boa-vida. E permitir que a “marcha dos seres humanos” siga em frente...

4. Se queremos ser felizes, devemos entender também que a felicidade não está sujeita apenas a fatores externos (mas eu não vou ao ponto de afirmar que esses não importam nada). Em larga medida, a felicidade, o bem-estar, é subjetiva. E não se dar conta disso é jogar fora boas oportunidades para viver com bem-estar aqui e agora e gozar de melhor saúde. E ter a autodisciplina para se mover firmemente para dar sua contribuição para transformar as coisas.

5. Ao deixarem de ser atraídas pela religião, pessoas procuram por sentido. E porque isso ocorre? Por que as crianças indagam absolutamente sobre tudo, mas não se preocupam com o sentido da vida? Eis o que o grande cineasta Stanley Kubrick sugere: “As crianças, é claro, começam a vida com um sentimento de admiração imaculada, a capacidade de experimentar a alegria total com algo tão simples como o verde de uma folha. Mas, à medida que envelhecem, a consciência da morte e da decadência começa a interferir com a sua consciência e sutilmente corroem sua alegria de viver, seu idealismo - e sua hipótese da imortalidade. À medida que uma criança amadurece, ela vê morte e dor em todos os lugares ao seu redor, e começa a perder a fé na bondade superior do homem.” A solução, para mim, para o problema da falta de sentido da vida não reside tanto em tentar encontrar encontrar um sentido inato para a vida (porque a vida simplesmente parece não ter nenhum sentido inato obrigatório, a não ser os sentidos artificiais que cada um conferir a sua própria vida). A solução, para mim, está em dar um passo para atrás e perguntar porque nos perguntamos "qual o sentido da vida?"? Se é o sofrimento e a ansiedade diante da morte, da perda, das injustiças, dos fracassos e das doenças nos fazem indagar por um sentido da vida, então uma boa maneira de resolver o problema é usar o que está a nossa disposição para não sermos abalados por circunstâncias externas e, ao mesmo tempo, caminhar rumo à alteração dessas condições externas que nos fazem sofrer tanto. Um paraíso secular pode não dar um sentido para a vida. Mas poderia eliminar as condições que nos fazem buscar um sentido, de modo que a pergunta “qual o sentido da vida?” não faria qualquer sentido. Nos tornaríamos mais como crianças: veríamos uma existência de encanto e maravilhamento pelos segredos e mistérios do Cosmo.

7. A curto prazo, outro recurso cognitivo importante é: ao deixar de acreditar em um Deus pessoal, que ouve nossas preces, pune nossos inimigos e nos dá presentes, não devemos colocar nosso ego, nossa personalidade, no lugar antes ocupado pela divindade. Porque tudo conspira contra a ideia de que nosso ego seja o centro do Universo. Ao contrário: somos frágeis e, em escala cósmica e mesmo em escala social,  insignificantes, embora capazes de causar impactos positivos e negativos no mundo. Eu gostaria de ver esse ponto de vista ser mais explorado pelo transhumanismo. O desequilíbrio da balança para o lado do ego e do individualismo torna sua atmosfera um pouco asfixiante. Para mim é melhor tentar ver as coisas de uma perspectiva panorâmica, tentar perceber o fluxo da vida e a marcha humana "do alto do próprio eu". E, ao invés do ego, tentar identificar-se como uma gota do caudaloso rio do fluxo da vida, uma pegada na emocionante marcha dos homo sapiens. Além de muito mais plausível, isso nos ajuda e enxergar melhor nossos deveres e a nos conectar com algo maior que nós mesmos. 

8. Toda vez que leio sobre livros da antiguidade (obras perdidas de Sófocles, Aristóteles etc.) que se perderam para sempre, sinto uma pontadinha no coração. Perder um livro para sempre é algo que nunca deveria acontecer. E cada pessoa viva, além de ser uma instanciação do fluxo da vida, é também semelhante a um livro único: um conjunto de memórias e registros do mundo a partir de uma perspectiva única. Cada pessoa é um romance único que deveria ser preservado. E, esta é uma das razões pela qual simpatizo com o transhumanismo: é preciso também apreciar as pessoas, na sua individualidade, assim como apreciamos a singularidade de um floco de neve. Detalhe: as pessoas são microcosmos muito mais ricos e interessantes que um floco de neve ou um livro. A outra razão pela qual me identifico com o transhumanismo é que eu acho uma sacanagem cósmica a evolução ter criado seres mortais, com um forte instinto de sobrevivência lapidado por 4 bilhões de anos de evolução, e, ao mesmo tempo, conscientes da morte. É um tremendo bug. E a melhor solução que os seres humanos encontraram para esse problema foi a religião. Só que a religião, em um ambiente de livre circulação de informação, funciona bem apenas com os crédulos. Quem não consegue praticar bem a arte do "autoengano", fica de fora de seus benefícios. Pode-se argumentar que é possível treinar a mente para aceitar as coisas como são e não deixar se abalar por isso. Eu acho que esse é um bom remédio provisório, um paliativo, que deve ser utilizado enquanto caminhamos rumo às soluções reais. Mas talvez a grande maioria das pessoas nem  tenha nervos fortes o bastante para isso. E talvez seja um fenômeno natural que todos seres senscientes, conscientes da morte e intelientes, inclusive em outros cantos do Universo (se existirem), usem a tecnologia para redesenharem melhor a própria condição. A matéria produz vida. A vida produz consciência. A consciência torna-se inteligente e percebe os problemas envolvidos com seu substrato biológico (consciência da própria mortalidade). E usa a tecnologia para alterar o mundo e a si própria e transcender essa condição. E, também, para melhor se situar no eixo bem-estar/sofrimento (sistemas opióide e dopamínico).

Esses são os fios mais grossos da minha teia de crenças, do que considero ser uma visão plausível da Vida, do Universo e de Tudo Mais.  

Para terminar, então, esta fase deste blog, publico no próximo post uma excelente palestra de Joe Betts-Lacroix. Essa palestra realmente ressoou em mim e, por isso, me dei ao trabalho de legendá-la para que mais pessoas possam se beneficiar dela. É uma palestra bela e inspiradora. E, se você gostar dela também, faria um bem em divulgá-la. 

Além deste próximo post com a palestra de Joe Betts-Lacroix, eu agendei no Blogger alguns posts que já tinha quase prontos. Tem um bom post sobre literatura de autoajuda e psicologia positiva. E, ainda, alguns posts automáticos com algumas de minhas TED Talks favoritas. Só para não ficar absolutamente parado. Fora estes posts automáticos agendados no blogger, ficará tudo parado.

5 comentários:

  1. Que pena, boa sorte com os novos projetos e que 2012 passe logo para que 2013 chegue rápido então. Até lá vou me contentar em ler os artigos publicados no io9.com e no Inovação Téconologica, alé de assistir as palestras do TED.

    Um abraço e até logo mais.

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  2. 2012 vai ser um ano muito chato sem posts novos. Mas vou esperar ansiosamente até 2013.
    Marcelo Gama

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  3. Oi, oi!

    Por favor, poderia tirar uma dúvida? Você tem interesse em receber um livro pra leitura?

    O caso é o seguinte, há pouco fiz um lançamento por conta própria de um livro sobre generalismo. Agora gostaria de apresentar ele a um público mais crítico. Como o assunto tem relação com seu trabalho, achei que poderia ter algum interesse por sua leitura.

    Esse email é apenas de caráter de apresentação e convite. Se você desejar conhecer um pouco mais, este é o site oficial da obra: www.suavidaeumaporcaria.com.br

    Cheguei no seu contato porque fiz uma longa pesquisa na web por pessoas e grupos que poderiam ter algum benefício direto com o livro. É claro que gostaria de mandar uma cópia impressa, mas como juntei 1.066 contatos, e sou apenas um autor sem editora, tenho somente a versão digital à disposição (em arquivo pdf) gratuita. Ah sim, também me dediquei a uma versão narrada completa (em mp3).

    Então, você teria interesse em dar uma opinião crítica sobre o livro? Se tiver interesse, pode baixar gratuitamente ali no site ou posso enviá-lo como anexo no próximo email. Fica à sua escolha.

    Obrigado pela atenção. :)

    Juliano Moreira

    ps.: desculpa pela mensagem com caráter um pouco frio. Pela grande quantidade de emails que enviei me vi obrigado a padronizar. Contudo, nos próximos contatos escreverei mais pessoalmente.

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