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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Após decisão da Justiça, Luiz Felippe Monteiro será o 1º brasileiro criopreservado

Qual é o preço do amor? Até onde você iria numa briga por uma chance de trazer de volta uma pessoa amada? 
Ligia Cristina Mello Monteiro foi longe. Gastou quase R$95mil para manter o corpo do pai, o ex-engenheiro da FAB Luiz Felippe Dias de Andrade Monteiro falecido aos 82 anos, congelado provisoriamente em uma funerária durante 3 meses de disputa judicial, já que duas outras filhas do casamento anterior de Luiz Felippe não concordaram com sua intenção de criopreservar o corpo do pai. A Justiça brasileira, finalmente, decidiu favoravelmente a Ligia, possibilitando o transporte do corpo de Luiz Felippe aos EUA, onde será preservado em uma longa noite de nitrogênio líquido.
Além de ter gasto quase R$95mil, Ligia ainda abriu mão da herança a que teria direito em favor das outras irmãs que tentaram impedi-la de congelar o corpo do pai. É o tipo de história heróica, de amor intenso e desinteressado que a gente não vê por aí todos os dias. Meus parabéns, Ligia!
Pra mim, foi mais uma simbólica vitória da vida sobre o nada. Uma vitória do poder humano de sonhar e, sonhando, alterar a realidade para tornar o mundo um melhor habitat para a mente humana. Com uma probabilidade de não ser apenas simbólica...
Os comentários dos internautas no site G1 são na grande maioria agressivos e negativos (é aquele mesmo tipo de internauta patriota que diz ser contra a criogenia porque poderia quebrar o INSS ou permitiria que o Sarney fosse senador por 1000 anos):
"Esta mulher não cresceu, foi mimada o tempo todo. Não vê que a vida é muio ais que uma vontade própria. Quanta gente morrendo por não ter o que comer, não poder comprar remédio e esta maluca gastando os tubos por capricho!!!"
"Vai ajudar quem precisa cm essa grana mulher, o homem já fez a parte dele aqui na terra. terra."
"A falta da crença em Deus e em uma vida espiritual após esse mundo é o que leva uma pessoa a fazer uma loucura dessas..."
Engraçado. As pessoas gastam uma enorme quantidade de dinheiro em produtos e serviços de utilidade pessoal ou social duvidosa, como produtos de grife, carro do ano, fast-food, cigarros e consumo exagerado de álcool (isso pra não falar em dízimos...). E aí, quando estão diante de uma questão existencial fundamental, que diz respeito à única possibilidade concreta de preservar a história e a riqueza da existência de uma pessoa amada elas ficam tão econômicas, solidárias e sensíveis à pobreza alheia... Eu vejo nessa atitude uma mistura de medo e hipocrisia: a fachada de agressividade procura esconder o próprio medo da morte, protegendo visões de vida no além que foram se apegando durante a vida. Tudo o que ameça essas visões passa a ser visto como uma ameaça.

Existe prova de que a criogenia funciona?

Confira os comentários de Nick Bostrom (filósofo analítico e professor de Oxford) sobre a criogenia:
Nick Bostrom: "Penso que criogenia é uma opção racional para uma pessoa que pode facilmente arcar com os custos e que valoriza a sua própria sobrevivência.
A lógica básica é simples. Em temperaturas tão baixas quanto a do nitrogênio líquido, os processos bioquímicos basicamente param. Isso signi fica que não existe nenhuma degradação subsequente do corpo ou do cérebro uma vez que ele tenha sido congelado ou vitri ficado. Ainda que com os protocolos atuais uma grande quantidade de dano seja feita no processo de preservação, é perfeitamente plausível que a informação contida no cérebro não é verdadeiramente apagada, apenas embaralhada - da mesma maneira como não se apaga realmente a informação de um documento impresso ao cortá-lo em pedaços: com paciência, os pedaços podem ser unidos novamente para revelar o texto original.
Temos então uma situação na qual a informação provavelmente ainda esta lá, mas de uma forma embaralhada e inviável. Alguma tecnologia avançada do futuro, tal como a Nanotecnologia ou a emulação completa cerebral, seria necessária para reparar o dano ocorrido no processo de resfriamento bem como para reverter a causa original da morte (ou 'desanimação', em linguajar criogênico). Parece negligente apostar a sua própria vida na convicção de que essas tecnologias nunca serão desenvolvidas. Consequentemente, um tratamento conservador apropriado para cadáveres seria preservá-los em temperaturas de nitrogênio líquido na esperança de que, em algum ponto no futuro, a tecnologia médica irá avançar o su ficiente para que a reanimação se torne factível.
Não existe garantia de que isso irá funcionar, mas as chances são certamente melhores do que enterrar ou cremar o corpo, o que apaga permanentemente toda a informação do seu cérebro. A criogenia é geralmente paga por um seguro de vida. O custo anual depende da idade da pessoa quando ela se inscreve. Para uma pessoa jovem, deve ser algo em torno de 500 dólares por ano, o equivalente a um ou dois pares de sapatos de grife."


Li em algum site americano alguém dizer que a criogenia é, no momento, "o único jogo na cidade" ("the only game in town") e, portanto, uma aposta racional. Para quem se preocupa com a preservação da personalidade, da sabedoria, do conhecimento adquirido e a história única de uma vida, é uma estratégia bem melhor, por exemplo, do que tapar os olhos e fingir que o problema não existe ou passar a acreditar em mágica (como a existência de um paraíso celestial). Outras pessoas estão contentes em viver uma vida só e não vêem problema nenhum nisso. Cada um deve inventar o seu caminho.
A técnica da criogenia tem sido aperfeiçoada. A técnica atual chama-se vitrificação e reduz os danos ao sistema nervoso resultantes do congelamento. Pesquisadores já conseguiram fazer um órgão vitrificado de um coelho voltar a funcionar (mas daí a ressuscitar uma pessoa vai uma boa distância).
Como a própria Lígia declarou ao G1, não é garantido que a criogenia funcione. Mas existem fundamentos científicos para crer que ela pode funcionar (veja, por exemplo, esta TED Talk: http://www.ted.com/talks/lang/pt/sebastian_seung.html), pois por meio dela tanto o DNA quanto, principalmente, o conexoma humano são preservados.
Como a criogenia poderia funcionar? Talvez um avanço substancial na área de imagens médicas, neurobiologia, somado a um desenvolvimento da "neurobiologia sintética" criassem as bases para se extrair todo o conexoma de um cérebro congelado  (http://www.ted.com/talks/lang/pt/sebastian_seung.html) e, ao mesmo tempo, transferi-lo (http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/ed_boyden.html) para outro meio. Poderia ser um clone, o próprio corpo rejuvenescido ou um computador (tenho dúvidas de que a transferência para um computador manteria a identidade humana). Mas um corpo humano com o mesmo DNA e o mesmo conexoma seria basicamente... a mesma pessoa. Talvez não em todos os detalhes (talvez as impressões digitais fossem diferentes, dentre outras diferenças). Mas somos exatamente as mesmas pessoas que éramos há um ano atrás? E há dez anos? E uma pessoa que sofre um derrame ou um traumatismo craniano? O que faz com que uma pessoa seja considerada ela mesma?
Nessa visão, as pessoas não possuem um espírito composto de algum tipo de energia ou fumaça sobrenatural que deixa o corpo com a morte, um núcleo fundamental permanente. A pessoa seria um conjunto (muito, muito grande) ou um fluxo de informação em um substrato biológico: uma mistura de informação decorrente da estrutura de uma mente fornecida pelo DNA somada a informação decorrente do desenvolvimento (nutrição e experiências de vida). Sempre sofrendo pequenas e contínuas mudanças de acordo com um padrão mais ou menos previsível (alguém também notou a semelhança desta visão com uma filosofia/religião antiga bem conhecida?).
Eu acho que um mundo em que essas entidades conscientes inteligentes pudessem evoluir o conhecimento, a sabedoria, a moral, a ciência e a arte pelos séculos a fora seria um mundo... fabuloso. No final, acho que o caminho de muitos seria semelhante ao do protagonista do filme "Feitiço do Tempo" (Groundhog Day - 1993).

“Não faça perguntas quando não quer saber as respostas”
Infelizmente, não existem quaisquer evidências de uma vida no além. Mas existem fortes evidências (confira os trabalhos dos antropólogos Scott Atran, Ernest Becker, por exemplo) apontando que o medo da morte, leva o ser humano a procurar alguma forma de acreditar na vida após a morte como forma de aplacar o estresse cognitivo gerado pelo conflito entre o instinto de sobrevivência de um lado e a consciência da inevitabilidade da morte de outro. Pode ser uma imortalidade literal ("vou para o Céu, Deus não faria isso com a gente") ou uma imortalidade simbólica ("vou ganhar o Prêmio Nobel e entrar para a história"). Mas produz também uma série de comportamentos humanos indesejáveis (inclusive a violência e intolerância). Para um resumo destas ideias, recomendo o excelente artigo: How the Unrelenting Threat of Death Shapes Our Behavior e, ainda, o filme "Flight From Death - The Quest For Immortality" (só metade dele está disponível no Youtube).
Se você fica triste com o assunto, não pense nele, e a melhor forma parece ser treinar sua mente a se voltar para o momento presente (meditação "mindfullness"). É o conselho do filósofo e neurocientista Sam Harris (que também faz parte do movimento dos "novos ateus"). Foi o conselho dado há 2.500 anos por Sidarta Gautama, que também se deparou pensando no mesmo problema. Se a questão é importante para você, tome alguma ação e, depois, "esqueça" o assunto. Lembre-se sempre da redentora frase do Guia do Mochileiro das Galáxias: "Não entre em pânico!"

Resumo da notícia no G1:
'Já pensou poder rever meu pai?', diz filha que acha possível ressuscitá-lo
Briga judicial entre irmãs vai decidir se pai será congelado ou sepultado.
Filha mais nova já gastou R$ 95 mil para manter corpo preservado em gelo.



O sonho de ressuscitar o pai, que morreu no começo deste ano, está causando uma disputa judicial entre três irmãs. Luiz Felippe Dias de Andrade Monteiro, engenheiro da Força Aérea Brasileira (FAB), faleceu em 22 de fevereiro, em plena Quarta-feira de Cinzas. A filha mais nova dele, Ligia Cristina Mello Monteiro, do segundo casamento de Luiz Felippe, começou então uma saga para tentar congelar o corpo do pai com s da técnica conhecida como “criogenia”, que utiliza nitrogênio liquido para resfriar e preservar o corpo. Segundo ela, o congelamento era um desejo expresso pelo pai antes de morrer. Como o pai, Ligia acredita que, com o avanço da ciência, será possível trazê-lo de volta à vida em algumas décadas.
“Já pensou ter a oportunidade de, daqui a 30 ou 40 anos, poder rever meu pai?”, indaga Ligia. “Não tem provas de que isso pode acontecer, mas é um sonho”, complementa. Entretanto, as outras duas irmãs, Carmen Sílvia Monteiro Trois e Denise Nazaré Bastos Monteiro, do primeiro casamento, não concordaram com o congelamento, que seria realizado por uma empresa da cidade de Detroit, nos Estados Unidos. Elas entraram com um processo contra Ligia, exigindo o sepultamento de Luiz Felippe no jazigo da família, em um cemitério de Canoas (RS), onde vivem. “As irmãs que moram no Sul falaram que o congelamento do pai era um absurdo”, conta Rodrigo Marinho Crespo, advogado delas.
(...)
Do outro lado, Ligia comemora a decisão, e avisa vai fazer de tudo para que a vontade do pai seja realizada. “Cheguei a abrir mão da minha parte na herança e deixar para minhas irmãs. Isso está nos autos. Estou muito positiva, porque os desembargadores foram muito sensatos. Meu pai vai ser o primeiro homem congelado da América do Sul. Pode ser até que esse caso venha a suscitar outros”, conclui ela.

Leia a notícia completa aqui.

Outros artigos neste blog sobre criogenia/criônica:
Larry King, celebridade da CNN, choca convidados ao confessar que quer ser criopreservado
É possível ser criopreservado no Brasil?
Excelente entrevista de Nick Bostrom na Revista Filosofia

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Muito Obrigada pelo apoio! Você conseguiu enxergar o que realmente me move: MUITO AMOR!!! Att. Lígia 21 8281-0000

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  3. Parabéns Ligia, acredito que mais pessoas pediram isso mas os familiares não tiveram a coragem que vc teve de fazer acontecer. Muito bom este blog, abraço

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  4. Concordo com a mulher. Mas é difícil pra pessoas normais entenderem essa atitude, essa mulher deve ser inteligente.

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