terça-feira, 15 de novembro de 2011

Uma crença fatal

A maioria das pessoas costuma lidar com a morte com crenças religiosas ("há existência após a morte, que é só uma passagem" ou "há uma energia espiritual que persiste após a morte física" etc.). Embora seja menos criticado, por ser uma racionalização mais inteligente, alguns ateus mais ligados às ciências naturais (como biólogos e físicos) também procuram adocicar a morte com ideias que para mim soam implausíveis, algo como "sobrevivemos parcialmente por meio de nossos filhos, que herdam 50% de nossos genes" ou "somos poeiras das estrelas, não morremos, a matéria apenas sofre uma transformação".
Ora, quem tem um irmão gêmeo ou conhece-os, sabe que um não é o outro, embora compartilhem 100% os genes e muito da história de vida, quanto menos um filho. E quanto à ideia de que a matéria de que somos feitos sobrevive, considere: se o Museu do Louvre pegasse fogo e só restassem cinzas de seu prédio e suas peças de arte, ainda assim não haveria motivos para ficarmos tristes? Afinal, as peças de arte eram feitas daquelas cinzas... Convenhamos, este raciocínio não serve para justificar nem a perda da Monalisa, quanto mais de uma pessoa de carne e osso como foi Leonardo da Vinci ou você é. 

Alguns ateus mais ligados às ciências humanas (mais intelectuais e menos cientistas) não costumam se satisfazer com estas explicações naturais e, por sinal, parecem não se satisfazerem com qualquer outra coisa. Mas, com o perdão do estereótipo e de todas as numerosas exceções, esse tipo costuma lançar mão de uma mistura encantada de pessimismo, boemia, sexo casual e tragédia pessoal para tocar à frente a “absurda existência humana”.

Qual é o problema que vejo nestas visões? Todas elas levam as pessoas à inércia em relação ao problema da morte, seja considerando que a morte é só uma passagem para um paraíso imaginário, que a morte não existe ou que ela existe e, por conta disso, a existência humana é irremediavelmente absurda e é melhor largar o assunto pra lá.

Daí surge minha simpatia pelas ideias dos engenheiros e cientistas radicalmente otimistas e ousados, no estilo dos TEDsters ou transhumanistas. Essas pessoas, ao mesmo tempo em que são honestas o bastante para reconhecerem o problema, propõem uma solução positiva: não vamos brincar de esconde-esconde; vamos começar a pôr a mão na massa e, quem sabe assim, pelo menos nossos netos terão sorte o bastante para levar uma existência menos sombria e, quem não se der bem a tempo, fica criopreservado, que parece ser bem mais prudente que cremado.

Fora essas poucas pessoas de imaginação ousada, o restante das pessoas prefere simplesmente aceitar docilmente a morte a pensar claramente sobre o assunto, o que para mim é um paradoxo: na busca do conforto psicológico diante do medo da morte, as pessoas preferem se deixarem morrer, sem nem ao menos considerar a possibilidade de algumas soluções técnicas que começam a ser vislumbradas atualmente (como a criônica e o início das pesquisas anti-envelhecimento). Eu vejo isso como uma piada ou pegadinha existencial: a melhor forma que a maioria dos seres humanos encontra para lidar com a morte, atualmente aumenta suas chances de morrerem, da mesma forma como a gordura adiposa, que foi evolutivamente útil em eras passadas, atualmente mata as pessoas obesas. Como, disparadamente, o recurso mais utilizado é algum tipo de crença na existência após a morte (espiritismo, esoterismo, misticismo, espititualismo etc. -- já que ninguém quer mais usar a palavra "religião"), acho que não é de todo absurdo dizer que a crença na existência após a morte é uma ideia que, de certa forma, mata. Uma crença mortal. “Pesquisas anti-envelhecimento? Criônica? Isso é uma bobagem, meu lugar é no céu, junto de Deus e suas hordas celestiais.”

Mas acho que essa é uma piada lúgubre, de profundo mal gosto. Muitas pessoas maravilhosamente boas se voltam para as religiões com as melhores das intenções e com sinceridade. Como insetos que são torrados nas lâmpadas dos postes, as pessoas procuram a crença no sobrenatural atrás de vida, certezas sobre como viver a vida e segurança para uma existência espiritual após a morte. Mas tudo o que recebem por isso é a morte embrulhada no papel da ignorância. Isso me faz lembrar um versículo bíblico, em que Jesus teria indagado: "E qual o pai dentre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? Ou, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião?". 



Pequeno documentário sobre o estoicismo

Acho que essa visão explica um pouco a motivação de se criar um blog para divulgar essas ideias a quem possa interessar. Mas a dúvida que queria expor, é a seguinte: a consequência de não se acreditar em Deus ou na vida após a morte e nem se utilizar racionalizações para lidar com a morte é uma vida infeliz, dominada pelo pessimismo e pela ansiedade? E minha resposta é um contundente NÃO. Você não precisa se valer de crendices como a existência após a morte, nem precisa dar nó em pingo d'água para se convencer de que não existe problema algum com a morte. Podemos levar uma vida feliz apesar de tudo isso porque podemos, em larga medida, assumir o controle sobre o que sentimos. Podemos, aliás, escolher ficar felizes pelo conhecimento destes fatos, por vivermos nesta época e termos melhores chances de lidarmos com esses problemas do que qualquer outra geração anterior. Pense em alguém que tivesse essas mesmas ideias, só que em 1911. Esta pessoa, "exilada" no início do século XX, ainda estaria a 100 anos da ciência atual. Só isso já é para mim motivo de sobra para felicidade legítima. 
 
Acho importante buscarmos a felicidade e cultivarmos o otimismo em nossas vidas. Só que acho importante fazer isso sem alimentar a inação, a passividade, já que o mais importante é que cada um se engaje de alguma forma, dê sua contribuição para as causas que o comovem. Agora, se, finalmente, mesmo depois de tudo isso, chegar o momento do "apagar das luzes", podemos enfrentar esse momento com coragem e serenidade, sabendo que fizemos a nossa parte, fizemos o melhor possível, agimos conforme o que nos ditava a razão.

Essa linha de raciocínio utiliza algumas ferramentas de uma "filosofia" ou "arte de viver" muito antiga, chamada estoicismo. O estoicismo já foi considerado um precursor da terapia cognitivo-comportamental, e despertou a atenção de estudiosos como Albert Elias e Aaron Beck. Já foi chamado de o "zen budismo para mentes analíticas", por enaltecer o papel da razão e do pensamento lógico (a lógica de predicados era parte dos ensinamentos estoicos). Foi por séculos uma filosofia muito popular entre os antigos romanos e enfatizava que, para levar um vida feliz, você deve exercer o controle sobre o que está sob seu controle e cultivar a indiferença em relação ao que não está sob seu controle. Os estoicos defendiam uma vida simples e austera e sustentavam que a felicidade é encontra pela remoção dos desejos, não pela sua satisfação. Na minha leitura pessoal, o ponto central do estoicismo soa algo assim: "matenha-se firme fazendo o que você pensa que deve ser feito e descanse sua mente quanto ao resto". Uma espécie de arte do controle pessoal pelo controle racional dos pensamentos. Ao invés de uma sopa bagunçada de neurotransmissores, é você no comando.

Utilizar o estoicismo hoje certamente não é uma questão de “plug and play”. Afinal, depois de mais de dois mil anos, a humanidade aprendeu algumas coisas. Por exemplo, a visão de virtude dos estoicos soa ultrapassada em muitos pontos (submissão da mulher ou preferências sexuais, por exemplo). Estudiosos da psicoterapia moderna, como Martin Seligman, demonstraram a importância do otimismo para levar uma vida saudável (será que o otimismo seria um caminho para a indiferença estoica?). Aliás, se fosse se sente muito pessimista ou deprimido, recomendo bastante o livro "Aprenda a ser otimista" de Seligman (não é um livro de blá-blá-blá autoajuda, é um livro de divulgação científica da psicoterapia, com fundamento acadêmico ou, se preferir, é um livro de autoajuda com fundamento acadêmico).

Há também uma metafísica no estoicismo que soa para mim meio suspeita e acho que sem esta metafísica ficaria difícil sustentar com o mesmo rigor a indiferença estoica em relação à morte (os estoicos não viam problema algum na morte e alguns até se matavam). Embora não dispensassem muita importância para os rituais envolvendo os deuses romanos, era comum aos estoicos recorrerem a uma ideia panteísta de Deus, também chamado Natureza, Providência, Razão (uma visão de um deus impessoal que parece guardar semelhança com o panteísmo de Espinoza e Einstein). Mas parece que também havia espaço para um pensamento mais cético ou ao menos faziam-se questionamentos nesse sentido. Esta metafísica também abrangia a crença em algum tipo de persistência do espírito, embora este fosse considerado de natureza material. Estas ideias podem ser aproximadas de algumas ideias transhumanistas: muitos acham possível que no futuro existirão superinteligências semelhantes a deuses, uma visão que não é restrita aos transhumanistas. Em recente entrevista ao NYT, Richard Dawkins comentou sobre “a possibilidade de que poderíamos co-evoluir com computadores, um destino de silício”, mencionando os comoventes escritos do físico Freeman Dyson sobre um futuro em que “os seres humanos evoluíram para algo como raios de energia inteligente e moral superpoderosa”. Adentrando ligeiramente no terreno da ficção científica, talvez uma assembleia destas superinteligências resolva ser chamada de “Providência” ou “Faculdade Mestra”. Também é comum entre os transhumanistas a crença (justificada, no meu entender) de que a criônica pode importar em algum tipo de persistência após a morte, com a preservação do que pode consistir o aspecto mais fundamental do que vem a ser uma pessoa: o seu conexoma. Assim, mesmo a metafísica estoica não está tão absurdamente distante do que a imaginação humana atual concebe.

Indiferença grata: Professor Anton fala sobre estoicismo

Enfim, o estoicismo pode fornecer algumas ferramentas antigas que podem ser combinadas e alteradas com outras mais modernas. Dito isto, não quero dar a entender que sei muita coisa sobre o assunto. Apenas li alguns textos na internet (em português, há um texto muito bom na introdução às Meditações de Marco Aurélio), li alguns vídeos no youtube (listados abaixo, em inglês) e encomendei um livro cuja resenha compartilho na próxima postagem. É uma resenha muito boa e acho que tem tudo a ver com o espírito do blog.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Folha de S. Paulo: DNA de 'rato pelado' traz pistas para estudos antivelhice

Da Folha de S. Paulo de Hoje:


Heterocephalus glaber: o Matusalém dos roedores. Um rato normal vive 02 anos. Este sortudo, chega aos 30 com poucos sinais de envelhecimento e grande resistência ao câncer.



13/10/2011 - 09h03

DNA de 'rato pelado' traz pistas para estudos antivelhice

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA E SAÚDE
Será que o segredo da juventude eterna se esconde no DNA de um rato pelado? Colocada nesses termos, a possibilidade parece absurda, mas o genoma do roedor desnudo em questão --o rato-toupeira-pelado, ou Heterocephalus glaber, como preferem os cientistas-- talvez traga pistas importantes sobre como mamíferos como eles e nós envelhecemos e lidamos com o câncer.
Isso porque essa criatura sui generis, cujo DNA decifrado está sendo apresentado na edição de hoje da revista científica "Nature", é o Matusalém dos roedores.

SEGREDO NAS PONTAS
Enquanto ratos mais vagabundos, como os que povoam esgotos e biotérios de universidades, têm expectativa de vida de uns dois anos, o H. glaber, nativo da savana da África Oriental, pode até chegar à casa dos 30.

À PROVA DE CÂNCER
O bicho aparentemente consegue isso sendo extremamente refratário a tumores, por exemplo. Em laboratório, os pesquisadores têm até dificuldade de induzir a formação de cânceres na espécie.
Também é quase imperceptível o processo de envelhecimento das criaturas. A mortalidade não aumenta com a idade (menos quando se chega perto da longevidade natural do bicho, claro), e a fecundidade também é alta durante a vida toda.

(...)

Essa lista de características únicas pode ser vista por um novo prisma graças ao genoma recém-soletrado, trabalho que foi coordenado por Vadim Gladyshev, da Escola Médica de Harvard (EUA).
Para começar, os pesquisadores verificaram que, entre os genes do bicho que os diferenciam dos demais mamíferos, estão os que coordenam a estrutura dos telômeros --as pontinhas dos cromossomos, os quais abrigam o material genético. Os telômeros estão justamente ligados à divisão e ao envelhecimento das células.
A tendência é que, conforme as células se dividem e envelhecem, os telômeros encurtem --e isso leva a uma série de problemas bioquímicos. Os bichos, pelo jeito, acharam um modo de contornar esse fenômeno comum.
Os dados de DNA também indicam que a criatura é mais eficiente na hora de fazer uma faxina nas proteínas do organismo que sofreram danos. E também mantém em funcionamento pleno as mitocôndrias, usinas de energia das células, durante todo o seu período de vida.
Finalmente, os pesquisadores liderados por Gladyshev também acharam genes que ajudam o bicho a sobreviver em condições de baixo teor de oxigênio. Agora, o desafio é aplicar os dados em estudos sobre doenças que afetam seres humanos.

(...)

Veja a matéria completa aqui: 
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/989911-dna-de-rato-pelado-traz-pistas-para-estudos-antivelhice.shtml



domingo, 9 de outubro de 2011

Aprimorando o blog Fabuloso Futuro


Quem quiser ajudar a aprimorar este blog:

https://spreadsheets.google.com/spreadsheet/embeddedform?formkey=dEdLUlA1dXRhZE4wS3pTYzVUZkg5dUE6MQ

Palestras sobre open hardware: o caminho para abundância material?

 Opinião audaciosa de Ray Kurzweil no "World Business Forum" em Milão em 2007 (link para a apresentação):

 "Nós iremos concretizar os objetivos do comunismo com o movimento opensource a nanotecnologia." Poderíamos acrescentar à frase de Kurzweil: "sem matar a liberdade de expressão, nem milhões de pessoas", como as outras tentativas do século XX tentaram atingir esses objetivos.

A princípio, a ideia parece uma utopia maluca. Mas o fato é que, além do sucesso alcançado pelo movimento open software, já já existem precursores surpreendentes de tecnologias openharware.  Veja os vídeos abaixo:




Open hardware: Onde estarão estas tecnologias daqui a 50 anos?


Para quem se interessar pelo assunto no Brasil, vale a pena dar uma olhada no projeto open hardware chamado Laboratório de Garagem:

Pareceu bastante surpreendente. E eu não me surpreenderia se esse tipo de ciência (de garagem) acabasse sendo mais estimulante que a ciência institucional no Brasil (praticamente restrita a grandes universidades públicas com desempenho ruim, se comparadas à média internacional).

A árvore indiana



Belo vídeo motivacional indiano retratando o poder de iniciativa. Me fez lembrar desta frase: "Faça o que você pode, onde você está, com o que você tem." ("Teddy" Roosevelt)

domingo, 25 de setembro de 2011

Richard Dawkins sobre transhumanismo e a singularidade: sim, é possível a existência de seres "semelhantes a deuses"

Richard Dawkins: o professor da glamurosa Oxford que resolveu dar a cara a tapa criticando a religião. No entanto, para ele, seres semelhantes a deuses são possíveis -- pela evolução tecnológica.

O rei dos céticos, o príncipe dos ateus. Um dos maiores biólogos evolucionários da história. Um dos poucos cientistas popstar, que saiu do conforto de Oxford para dar a cara a tapa criticando a religião. Para os crentes, o cavaleiro-mor do Apocalipse (os outros três cavaleiros do apocalipse são: Sam Harris, Daniel Dennett e Cristopher Hitchens). Em uma entrevista ao New York Times desta semana, Richard Dawkins indiretamente (a entrevista não era sobre isso) endossa a hipótese dos transhumanistas e singularitarianos: a de que a humanidade pode evoluir para algo semelhante a deuses (no entanto, acho que entre Dawkins e os singularitarianos pode haver uma divergência grande quanto ao timing desta evolução).

O cientista militante: "Provavelmente não existe nenhum deus. Agora pare de se preocupar e aproveite sua vida."

Essa declaração do Dawkins é boa porque serve para reforçar a demarcação (para alguns, nem sempre nítida) entre, de um lado, pensamentos de tendência transhumanista, e, de outro lado, o pensamento religioso. Transhumanistas se valem da  explicação científica.

Abaixo, minha tradução do trecho da entrevista que trata do assunto. Entrevista original e completa (em inglês) aqui.

***

Após duas horas de conversa, o professor Dawkins anda longe. Ele fala da possibilidade de que poderíamos co-evoluir com computadores, um destino de silício. E ele está intrigado com o lúdico, mesmo comoventes escritos de Freeman Dyson, o físico teórico.

Em um ensaio, Professor Dyson se lança a milhões de anos especulativos para o futuro. Nossa galáxia está morrendo e os seres humanos evoluíram para algo como raios de energia inteligente e moral superpoderosa.

Isso não parece terrivel descrição de Deus?

"Certamente", o professor Dawkins responde. "É muito plausível que no universo existam criaturas semelhantes a deuses."

Ele levanta a mão, apenas no caso de um leitor pensar que ele está indo em direção a uma curva religiosa. "É muito importante entender que esses deuses foram feitos por um explicável progresso científico de evolução incremental."

Poderiam ser imortais? O professor dá os ombros.

"Provavelmente não." Ele sorri e acrescenta: "Mas eu não quero ser demasiado dogmático sobre isso."
***



 

 Talvez você também se interesse por este outro artigo:

Dr. Michio Kaku: nos tornaremos os deuses que uma vez tememos


P.S. -- O título da postagem é ligeiramente desonesto, mas me explico. Dawkins não falou diretamente do transhumanismo ou do movimento da singularidade (movimentos diversificados e, sem dúvida, com alguns setores suscetíveis à crítica), mas se referiu aos tema comuns das superinteligências, hibridização do homem e da máquina e possibilidade da imortalidade. A razão deste título (e de vários outros pouco imaginativos deste blog) é simplesmente para facilitar que o post seja encontrado na busca pelo Google.

Folha de São Paulo: Cérebro humano tem viés religioso 'de fábrica'


Trecho de artigo interessante publicado na Folha, ligando a religiosidade a perfis cognitivos. De um lado, os ateus ultralógicos se aproximam do espectro autista e é desse campo que sai um bom número de grandes físicos e engenheiros. Por sua vez, os ultrarreligiosos (capazes de ver e falar com espíritos) se aproximam da esquizofrenia. Mentes diferentes habitando universos completamente diferentes.

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22/09/2011 - 05h30

Análise: Cérebro humano tem viés religioso 'de fábrica'

HÉLIO SCHWARTSMA
ARTICULISTA DA FOLHA


"Nos últimos 20 anos, psicólogos, neurocientistas, filósofos e sociólogos se puseram esquadrinhar e teorizar sobre a religião, dando origem à nova ciência da fé. A ideia central é que, independentemente do fato de Deus existir ou não, a religião é um fenômeno real, mensurável e com a qual podemos fazer experimentos.

É claro que nada nessa área é muito consensual, mas dessas duas décadas de pesquisas emergiram algumas linhas de explicação que são relativamente bem aceitas. Ao que tudo indica, o cérebro humano vem de fábrica com uma série de vieses cognitivos que tornam a religião um subproduto natural.

Destacam-se aí nossa tendência para reconhecer padrões (indispensável para perceber regularidades) e para detectar agência (muito útil na identificação de presas e predadores). Acrescente-se a isso nossa propensão a inferir estados mentais alheios (essencial para a vida em sociedade) e temos a receita para criar deuses.

De acordo com Michael Shermer, num cálculo aproximado, ao longo dos últimos dez mil anos a humanidade produziu dez mil religiões com cerca de mil deuses.

É claro que as coisas ficam bem mais complicadas quando descemos aos detalhes.

(...)

Esse tipo de fenômeno é mais bem descrito como um gradiente cujos extremos são patológicos. A psicóloga Catherine Caldwell-Harris, por exemplo, liga o estilo cognitivo ultralógico de ateus à síndrome de Asperger, uma forma de autismo que produz um bom número de engenheiros e físicos.

Na outra ponta, Andrea Kuszewski sugere um vínculo entre esquizofrenia e religiosidade. Seguir as intuições reconhecendo padrões e agência mesmo onde não existem é que leva uma pessoa a conversar de igual para igual com uma geladeira ou a discutir com Deus."

domingo, 11 de setembro de 2011

Aperfeiçoamento Humano: experimentos em busca do mito moderno


Trecho interessante do documentário.

Quem se interessa pelo assunto "ciência versus religião" ou a busca da conciliação ou pontos de contato entre ciencia e religião, poderá se interessar pelo documentário de três episódios "Aperfeiçoamento Humano" (no original Technocalyps), produzido por Frank Theys e veiculado no History Channel de Portugal.
O documentário possui entrevistas interessantes e traz algumas revelações sobre ala transhumanista "pentecostal", isto é, aquela interessada em fazer uma colagem a qualquer custo entre ciência e religião (ao contrário das alas mais cética e críticas) e a inspiração religiosa por trás dos líderes de grandes projetos científicos, como a exploração espacial e o projeto do Genoma Humano.
A temática de "Aperfeiçoamento Humano" é semelhante a do documentário Transcendent Man, inclusive muitas das pessoas que aparecem em Transcendent Man também estão lá. Algumas entrevistas são até melhores ou pelo menos mais extensas, como a de Hugo de Garis. "Aperfeiçoamento Humano" é alguns anos mais antigo que Transcendente Man (terminou de ser filmado em 2006, enquanto Transcendent Man terminou de ser filmado em 2009).
Como eu ia dizendo, do ponto positivo há o fato de que as entrevistas são mais extensas, há outros entrevistados bons, mas, prepare-se: conclusões e entrevistados completamente malucos também estão presentes, principalmente no final do terceiro episódio (o pior de todos).
Documentário Aperfeiçoamento Humano: entrevistas boas, atmosfera "dark", imagens desagradáveis, costura apressada entre ciência e religião.

Os pontos negativos são vários. Em primeiro lugar, a atmosfera dark, de "cine trash" do documentário, a começar pelo título original, em inglês: "Technocalyps". Isso torna o documentário tão estranho e esteticamente tão desagradável que demorei um pouco para ter certeza se o filme queria fazer proselitismo ou atacar o transhumanismo. Por incrível que pareça, era proselitismo mesmo.
Abusa-se de imagens e motivos religiosos com efeitos especiais toscos de anjos, alienígenas verdes e centauros jogando futebol (e eu que pensava que os centauros eram criaturas mais sábias!). Ficaria melhor ter mostrado pinturas renascentistas do que esses efeitos especiais mal feitos. Há uma cena de impressionante mal gosto com a exposição irritantemente longa de animais atropelados. A trilha sonora parece extraída de videogame de combate.
Mas o ponto realmente negativo e inaceitável do documentário é a utilização de algumas ideias que apelam para uma credulidade quase religiosa para costurar a conciliação entre ciência e religião. Se a ideia é mostrar que religião e ciência podem caminhar juntas e que sua separação é recente, há farta evidência histórica sobre isso (ex: antigos egípcios, os alquimistas etc.). Mas é totalmente dispensável apelar para o mais bizarro dos misticismos para isso, como é feito no final do terceiro episódio. O clímax do misticismo bizarro é a  picaretíssima fala do místico francês e "profeta de extraterrestres" Rael -- uma verdadeira agressão a todo aquele que possuir um mínimo de massa encefálica entre as orelhas.
Não estou dizendo que toda ponte que se tente fazer entre a ciência e a realização é descabida ou que o filme não traz observações interessantes. Na vida, temos que tentar separar a criança da água suja. Achei muita coisa ali interessante. Só que essa relação entre tecnociência e relligião não é bem estudada, nem tampouco aproveitada (não se diz: quais pedaços de ciência e religião são inconciliáveis, quais são aproveitáveis etc.). O resultado dessa pressa é algo que é feio demais para ser atrativo como religião e crédulo demais para ser aceito por uma mente minimamente cética. É o problema da sereia transhumanista: na pressa de se desfrutar os amores de uma bela sereira, naufraga-se a nau da razão, a única que poderia levar o marujo encantado para os braços de uma mulher de verdade.
Eu tenho a intuição de que algum movimento semelhante ao transhumanismo poderá estabelecer uma ponte entre ciência e religião. Da ciência, aproveitando-se a razão como meio de apropriação e transformação do mundo. Da religião, aproveita-se a estética e os sonhos que satisfazem a dolorosa condição humana. O resultado, seria algo que tem os sonhos da religião como projetos a serem realizados pela ciência e tecnologia. Os dogmas religiosos deixam de ser dogmas em que você tem que acreditar e se transformam em projetos que você deve perseguir. Esse é o pensamento que, para mim, parece estar por trás de vários pensadores transhumanistas e no movimento da singularidade. E, na minha opinião, tem o potencial para se transformar em um mito moderno. Mito no sentido positivo que lhe dava Joseph Campbell, uma espécie de software mental que orienta nossa ação e compreensão no mundo, que organiza a relação entre o eu mortal e tudo-o-mais. Um mito que, portanto, não precisa ser necessariamente falso ou baseado no misticismo. Pode ser baseado na engenharia.
Mas o documentário Aprimoramento Humano não atinge esse objetivo, não consegue costurar bem esse mito, porque acaba apelando para um misticismo agressivo (sinceramente, Rael?!?) e para um déficit de racionalidade ou espírito cético. Mas é mais um experimento na tentativa de se costurar um mito moderno. Vale lembrar que as religiões tradicionais contaram com centenas ou milhares de anos de experimentação e seleção cultural para atingir o design atual (alguém se lembra da cena de vários pretensos messias profetizando e competindo por seguidores em "A Vida de Bryan"?). O transhumanismo e o movimento da singularidade são extremamente recentes e estão se saindo bem. Aguardemos os próximos experimentos. 

Inside Job: colocando as raposas para vigiar o galinheiro





Pensamentos que me acometeram depois de assistir o documentário "Inside Job" (http://www.youtube.com/watch?v=tytH0CQSsXo):

1- Pensava que a elite norte-americana era mais esperta;
2- Pensava que o povo americano e os promotores federais dos EUA eram bem mais espertos;
3- Para a prudente e paciente China se tornar o poder dominante, não vai ser preciso dar um tiro sequer. Basta os EUA continuarem fazendo "business as usual";
4- Bendito seja o país que é capaz de financiar, premiar (com o Oscar) e divulgar pelo mundo um filme como "Inside Job". Na China ou na ex-URSS, o diretor e sua equipe poderiam ser premiados com uma bala de fuzil (para cada um);
5- Se eu fosse eleitor americano, não premiaria Barack Obama com a reeleição (a não ser que eu descobrisse que, na casa dele, ele também coloca as raposas para vigiar o galinheiro);
6- O EUA deveriam substituir a mentalidade do dinheiro ilusório pela mentalidade da abundância, tal como defendida por Peter Diamandis (http://www.diamandis.com/?page_id=17) ou Peter Thiel (http://www.tedxsv.org/?page_id=516).