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domingo, 10 de abril de 2011

MARCELO GLEISER Contra as formas de dogmatismo


A crítica de Marcelo Gleiser erra o alvo e me parece subestimar o pensamento racional, a filosofia e a arte em relação à religião. Pior ainda, deixa perigosamente aberta uma porta por onde não apenas os elementos possivelmente benéficos da religião podem entrar. A superstição, o doce auto-engano das ilusões consoladoras (ou seja, o descompromisso com a busca da verdade), a disposição para irrefletidamente seguir líderes, o lusco-fusco da razão e da reflexão... tudo isso pode entrar pela mesma porta que Gleiser escancara em seu artigo.


Em artigo na Folha de S. Paulo de hoje ("Contra as formas de dogmatismo") Marcelo Gleiser fala sobre a crítica ao dogmatismo na ciência:

"... dentro de sua validade, teorias funcionam extremamente bem e, dessa forma mais restrita, podemos chamá-las de verdadeiras. Mas afirmar que a ciência detém a verdade é ir longe demais.
Escrevo não como uma crítica à ciência -isso seria contradizer a minha obra!-, mas como uma espécie de toque de despertar aos que pregam a ciência como dona da verdade. É necessário ter mais cuidado. (...)
"Muito da ciência e da religião vem da necessidade que temos de encontrar sentido e significado em nossas vidas. Simpatizo com a necessidade de humildade e autocrítica nas ciências defendida por Robinson. Espero, porém, a mesma atitude de líderes religiosos e teólogos."

Eu realmente aprecio o trabalho e a pessoa de Marcelo Gleiser e, até por isso, vou me dar ao trabalho de criticar rapidamente seu artigo.
O assunto é importante, autocrítica e reflexão sempre são bem vindas, mas acho que o tiro de Gleiser não acerta o alvo correto. Não posso concordar com seu raciocínio, que é mais ou menos este: "A ciência não explica tudo, não nos preenche inteiramente; devemos ser humildes e reconhecer isso. Se ela não pode dar conta de tudo, então há espaço para a religião e espero que a religião manifeste humildade recíproca." 

Concordo com a primeira parte do raciocínio. Pode a ciência explicar tudo ou dar significado às nossas vidas? Obviamente não. Não sabemos como vai ser daqui a 100 ou 500 anos, mas esta pretensão, hoje, com o ferramental teórico de hoje, é mesmo absurdamente pretensiosa. Como disse Einstein, nossa ciência representa apenas uma caricatura, uma minúscula fração da realidade; ainda assim, é o melhor que dispomos para compreendê-la. É parte indispensável do kit de sobrevivência para quem está no mundo.

Mas a questão, não é tanto a ciência, como a defesa do pensamento racional, do espírito crítico, da reflexão. Isto é mais importante que a ciência, bem mais amplo. Inúmeros problemas não podem ser tratados científicamente, mas isso não significa que não possam ser trabalhados pela filosofia, com o uso da razão e argumentação. E podemos conceber problemas que não possam ser tratados nem mesmo pela filosofia ou pela razão. Ainda assim, podemos recorrer à intuição e à arte (não falo da arte das elites de vanguarda do século XX; confira uma crítica de Pinker nesta palestra).

Enfim, não se pode concluir que a religião é necessária apenas porque a ciência não dá conta do recado da existência humana. O problema maior com a religião não é se meter em assuntos científicos fornecendo explicações inexatas sobre o mundo. O problema é a negação da reflexão, da indagação, do espírito crítico, da livre investigação das evidências e do pensamento racional, sua pretensão de exclusividade sobre seus dogmas, e, o ponto que para mim mais interessa, o fornecimento de dogmas consoladores sobre a condição humana (o principal: a crença na vida após a morte). Em maior ou menor grau, é possível encontrar alguns ou, geralmente, todos estes elementos nelas (o último, até onde sei, em todas elas; é o grande chamariz de fiéis).

Mas o pior do argumento de Gleiser é esperar reciprocidade da religião nesta "mea culpa" de manifestação de humildade por parte dos cientistas. Isso beira à ingenuidade. Isso não me parece plausível porque a religião é um sistema fechado de crenças que compete com outros sistemas fechados. Não é um sistema aberto à revisão de seus dogmas, porque isso exigiria um método de alguma forma semelhante ao científico. Isso exigiria abraçar o pensamento racional e, uma vez incorporada a racionalidade, todo o sistema tenderia a desmoronar. Faz parte da mecânica da religião não questionar seus dogmas fundamentais, por mais ridículos, infundados ou contrários a qualquer evidência sejam eles (ex: negação da teoria da evolução com base no livro de Gênesis). Faz parte, ainda, tentar impor aos outros este modo de visão (proselitismo religioso). Este último ponto me faz lembrar de uma frase do ativista ateu Christopher Hitchens: "O verdadeiro crente não pode descansar até que tenha o mundo inteiro curvado de joelhos."

E aqui aproveito para fazer uma reflexão sobre o transhumanismo/singularitarianismo: suas discussões se dão por meio de argumentos racionais, evidências e extrapolação de tendências, tudo criticável, sem problemas. Em comum com a religião, encontramos a busca da satisfação de anseios profundos ligados à condição humana (como a superação da morte e do sofrimento ou a transcendência dos limites do corpo biológico). Isso permite (e até estimula) que um transhumanista como Max More discorde abertamente dos pontos principais de outro, como Raymond Kurzweil, sem que isso leve a um racha. Vale a pena citar aqui novamente o elogioso artigo da TIME

"Mas singularitarianos compartilham uma visão de mundo. Eles pensam em termos de tempo profundo, eles acreditam no poder da tecnologia de moldar a história, eles têm pouco interesse na sabedoria convencional sobre qualquer coisa, e eles não  acreditam que você pode andar por aí e levar sua vida normalmente, assistindo TV, como se uma revolução de inteligência artificial não estivesse prestes a entrar em erupção e mudar absolutamente tudo. Eles não têm medo de soar ridículos, a aversão do cidadão comum por ideias aparentemente absurdas é, para eles, apenas um exemplo de preconceito irracional e singularitarianos não barganham com a irracionalidade. Quando você entra no espaço mental deles, você experimenta um gradiente extremo de visão de mundo, uma rígida tesoura  ontológica que separa os singularitarianos do lugar comum do restante da humanidade. Espere turbulência."

Retomando ao artigo de Gleiser, gostaria finalizar ressaltando este ponto: a premissa (correta, aliás) de que a ciência não explica tudo, nem detém a verdade absoluta NÃO nos leva a conclusão de que a religião seja necessária. A crítica de Marcelo Gleiser erra o alvo e me parece subestimar o pensamento racional, a filosofia e a arte em relação à religião. Pior ainda, deixa perigosamente aberta uma porta por onde não apenas os elementos possivelmente benéficos da religião podem entrar. A superstição, o doce auto-engano das ilusões consoladoras (isto é, o descompromisso com a busca da verdade), a disposição para irrefletidamente seguir líderes, o lusco-fusco da razão e da reflexão... tudo isso pode entrar pela mesma porta que Gleiser escancara em seu artigo, o que só posso lamentar.

2 comentários:

  1. Esta é a definição padrão para os problemas filosóficos: são problemas que não podem ser respondidos por cientistas. Entretanto, historicamente vemos que parte dos problemas filosóficos tornaram-se problemas científicos, e alguns deles estão sendo solucionados. Podemos admitir o seguinte, muitos dos problemas que temos são filosóficos, e isto se deve a nossa limitação cognitiva e também ao avanço científico.

    Tanto filósofos como cientistas, esperam que futuramente o problema da consciência seja respondido, com a descoberta de dados sobre o funcionamento cerebral. Todavia, não sei se este tipo de abordagem vale para o livre-arbítrio ou para os universais. Há pessoas pensando que estes problemas estão sendo formulados de forma equivocada, que o livre-arbítrio é uma ilusão criada pelo cérebro, e que os universais são categorias mágicas.

    Penso que encontramos várias questões em aberto, e lidar com elas envolve uma busca por justificações um compromisso com a verdade, mesmo que os métodos para alcança-la não sejam semelhantes.

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  2. Estou de acordo quanto à questão epistemológica, Bruno. E quanto ao artigo do Gleiser e suas consequências, o que você achou?

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