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sábado, 2 de julho de 2011

Raul Seixas, um transhumanista?

Publiquei aqui há algum tempo a tradução de um artigo de James Thomas, em que ele enxergava vários elementos comuns entre a filosofia de Schopenhauer e o transhumanismo. Mais especificamente, este elemento: a consciência dos aspectos negativos da condição humana e, ao mesmo tempo, a crença em uma saída terrena para superá-los. Nas palavras de Thomas:
“A filosofia de Schopenhauer mistura Platão, Kant e os Upanishads hindus para criar uma visão de mundo que consegue ser atraente e deprimente: a existência é sofrimento. É uma pancadaria infindável de dor e tédio, aliada a um esforço constante para o que não pode ser atingido. E ainda assim, há escapatória. Os seres humanos podem executar obras de arte e perder-se na arte da música, no jogo, ou na criação.”

Para Schopenhauer, a saída seria a  contemplação intemporal de uma realidade mais elevada, como a arte ou projetos intelectuais. Para os transhumanistas, além de possíveis saídas psicológicas, a solução definitiva envolveria mesmo redesenhar mentes e corpos humanos.

Críticos argumentam que este traço do transhumanismo revela um desprezo pelo corpo, uma obcessão com a perfeição e juventude e um medo irracional (?!) envolvendo a morte (Borgo). Transhumanistas rebatem dizendo que o desejo de recuperar a juventude, especificamente, e transcender as limitações naturais do corpo humano, em geral, é um fenômno pan-cultural e histórico, isto é, visível em todos os lugares, em todas as épocas (Bostron).
E, neste post e no seguinte, vou tentar argumentar com um exemplo a universalidade destas ideias. Tentarei trazer outros exemplos em um futuro post.

Ouro de Tolo
Há algum tempo ouvi a música “Ouro de Tolo” de Raul Seixas e me dei conta de que ela também possui os mesmos elementos a que James Thomas se referiu como transhumanistas. Vamos a um trecho da música (clip dela aqui):




“Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo
Prá ir com a família no Jardim Zoológico dar pipoca aos macacos...
Ah! Mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro Jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco...
É você olhar no espelho e se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado 
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal...
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social...
Eu que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada, cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador...” (Raul Seixas, Ouro de Tolo)
Temos aí a ideia da futilidade das práticas sociais, a consciência das limitações humanas e da morte e, não obstante, uma remota possibilidade de escapatória desta sensação de “claustrofobia existencial” pela imaginação ou pela interação com discos voadores (o mito secular do século XX).  

O famoso psicólogo Karl Gustav Jung considerava que os fenômenos UFO eram uma espécie de mito moderno, um mito com temas mais racionais (os ETs são seres vivos materiais, viajam em veículos voadores produtos de uma engenharia superior etc.), porém surgido da mesma necessidade humana de colocar algo no lugar dos erodidos mitos religiosos.

A diferença radical em relação ao transhumanismo? O plano destes é efetivar pela ciência uma alteração da própria condição humana, isto é, uma transcendência material que visa tornar o material mais próximo dos sonhos de beleza e bem-estar cultivados pela humanidade no plano da imaginação (como a ideia de paraíso, presente em todas as religiões). Já artistas como Raul Seixas procuravam a escapatória “queimando a vela dos dois lados” com as drogas e/ou com formas estranhas de experiências religiosas, como o ocultismo (isto é, uma mistura de mito e experiências com o inconsciente), que às vezes envolvia elementos de ufologia.

Isso pode ser tema de uma reflexão futura entre as semelhanças (que são várias) entre a ufologia e o singularitarianismo. Desde já antecipo minha opinião: a de que, idenpendentemente da concretização de cada hipótese em particular (tais como a singularidade, o "upload" da consciência etc.), o projeto transhumanista, no conjunto, é o que tem valor. É como a ciência: as hipóteses e teorias científicas mal surgem e são derrubadas, mas o método científico é o motor perene que gera o conhecimento. Em relação ao transhumanismo, a mesma lógica se aplica: sendo ou não viável uma ou outra ideia (muitas se mostrarão inadequadas), o método de buscar objetivamente alterar a realidade em direção a uma potencialização do bem-estar humano é o que importa.

3 comentários:

  1. Excelente artigo!! Como sugestao, que tal escrever um artigo sobre o transhumanismo no cinema?! Filmes como Repo Man, AI - Inteligencia Artificial, Exterminador do futuro entre outros.

    Abracos!!

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  2. Os filmes são um bom ponto de partida, mas há o risco de se pensar de forma incorreta acerca do futuro, admitindo como possibilidade reais, situações altamente improváveis.

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  3. Valeu pela sugestão, Hector! Vou colocar na minha lista!

    Zero, sua preocupação é legítima e é uma preocupação que tenho. Eu faria uma observação a mais: é preciso ter cuidado com o ceticismo enviesado pelo "status quo". É preciso perceber que existe uma grande zona cinzenta entre o possível/impossível, como a história bem o demonstra e o problema não me parece tão simples como a intuição cética (sempre bem-vinda e necessária) pode sugerir. Mas é, sem dúvida, um ponto importante e que deve merecer atenção!

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