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domingo, 27 de novembro de 2011

Transumanismo: um sandbox secular para explorar o pós-morte?

Publicado originamente por Malcolm MacIver  no blog Science Not Fiction

Eu sou um cientista e acadêmico durante o dia, mas, à noite, sou cada vez mais chamados para falar sobre transumanismo e a singularidade. No ano passado, fui assessor de ciência de Caprica, uma série que explora as relações entre seres digitais e pessoas reais. Alguns meses atrás, participei de um painel público sobre "Mutantes, androides e ciborgs: a ciência dos filmes da cultura pop" para a filial de Chicago da NPR, a WBEZ. Esta semana ela traz um painel do diretor de Guilds of America, em Los Angeles, intitulado "A Ciência dos ciborgs" sobre a interface de máquinas para sistemas nervosos vivos.
O mais recente painel para ser adicionado à minha lista é uma discussão sobre a primeira ópera transhumanista de Tod Machover, "Death and the Powers". A ópera é sobre um inventor e empresário, Simon Powers, que está se aproximando do fim de sua vida. Ele decide criar um dispositivo (chamado “o Sistema”) que permite a ele fazer o upload de si mesmo (humm... será que isto lembra a vida de alguém que conhecemos?). Depois do segundo ato, todo o conjunto, incluindo uma série de robôs de ópera e um lustre musical (criado no MIT Media Lab), torna-se a manifestação física do agora incorpóreo Simon Powers, que ainda ouvimos cantar, mas que desapareceu do palco. Grande parte da ópera explora suas relações com sua filha e mãe aós o upload. Sua filha e esposa se perguntam se o sistema é realmente Simon Powers. Eles se perguntam se devem seguir os seus fundamentos para se juntar a ele, se a vida ainda terá sentido sem a morte. O libreto, do renomado Robert Pinsky, transforma estas perguntas em bela poesia. Ele vai estreiar em Chicago em abril.

"Eu não acho que o transumanismo está tentando ser uma religião: eu acho que ele está dando aos secularistas (como eu) uma oportunidade de falar publicamente sobre a morte, a vida após a morte (...). É deixar-nos explorar com segurança essas ideias de uma forma menos sombria do que a típica narrativa da “carne para os vermes” em que os secularistas estão geralmente limitados."

 
Essas experiências têm sido fascinantes. Mas eu não posso deixar de me perguntar, o que significa todo esse interesse repentino no transumanismo e a singularidade?

A mídia está tão saturada com a alegação de que a singularidade vai chegar em 2045 que os céticos já se posicionam na defensiva. Vale notar em meio ao rancor um resultado recente do meu amigo e colega Konrad Kording, que mostrou que o número de neurônios que podemos gravar simultaneamente segue a Lei de Moore. Não muito tempo atrás, estávamos limitados a gravação da atividade de uma única célula cerebral de cada vez. Mais recentemente, fomos capazes de gravar várias centenas de uma só vez. Quando você examina a tendência de 56 estudos diferentes, Kording e seu aluno mostraram que o número está dobrando a cada sete anos. Embora este seja um intervalo maior do que a Lei de Moore (duplicações a cada dois anos), o que é realmente importante é que o crescimento é exponencial. Crescimento exponencial está no cerne dos argumentos para a proximidade da singularidade. Considerando o resultado de Kording, no entanto, quanto tempo você acha que precisaremos para conseguirmos gravar a atividade de todos neurônios no cérebro simultaneamente? Você pode se assustar: mesmo com esse crescimento exponencial incrível, levará 220 anos. Se o upload de nossa consciência implica-se, no mínimo, a gravação do padrão de atividade de todo o cérebro (o que não é menos plausível do que todos os argumentos por aí), então não vamos resolver isso até 2231.

É claro que o tempo da singularidade não é o momento em que podemos fazer upload de consciência, mas quando criamos máquinas superinteligentes (que, segundo alguns, se dedicariam a descobrir como derrotar o envelhecimento e fazer upload de nossa consciência, ao invés de nos perseguir até os confins da galáxia). Se o ano 2045 é razoável, isso é muito discutível. Eu espero que esta data não demore mais de um século ou algo assim, mas como alguém que muitas vezes pensa em escalas de tempo evolutiva, eu ainda vejo isso como uma quantidade insignificante de tempo.

Mas e se compararmos as evidências sobre quando a singularidade irá ocorrer com as evidência de destruição ambiental (como a de que agora estamos excedendo três de dez "fronteiras planetárias" para a existência humana sustentável), é muito claro que essas ameaças à nossa existência como espécie estão se aproximando muito mais rápido no horizonte do que qualquer a singularidade ou imortalidade por upload.

Então, o que está acontecendo? O ambientalismo está "extenuado" e o transumanismo "ligado"? O transumanismo é apenas um novo fascínio fugaz, assim como a colonização do espaço foi há algum tempo, também passará em breve? Ou há algo mais original está acontecendo?

Enquanto eu refletia sobre essas questões, recentemente, ocorreu-me que talvez a tendência transhumanista tem algo a ver em fornecer às pessoas seculares, tais como cientistas, engenheiros e fãs de ficção científica, ferramentas para falarem de coisas que as pessoas religiosas já possuem há muito tempo.

Considere isto: Scott Atran, entre outros, tem argumentado que o impulso para a religião tem uma base evolutiva, enraizada em nossos medos da morte e de predadores. Desde Darwin, se não antes, tornou-se cada vez mais difícil, porém, para pessoas de espírito científico colocar suas fichas na religião. Somado a isso, é difícil ter conversas em público sobre religião, até porque vivemos em uma sociedade multi-denominacional, onde a manifestação pública da crença pode ser vista como excludente. Simplesmente não é politicamente correto em muitos casos. E se o motivo da rápida disseminação da singularidade e do transumanismo consistir em dar às pessoas de pensamento secular uma saída para falarem de seus medos da morte e sonhos de imortalidade?

Muito tem sido escrito sobre as relações entre religião e transumanismo. Muitos têm visto paralelos entre transumanismo e religião. Mas eu não acho que o transumanismo está tentando ser uma religião: eu acho que ele está dando aos secularistas (como eu) uma oportunidade de falar publicamente sobre a morte, a vida após a morte e sobre os estranhos enigmas da identidade pessoal que um dia surgirão da transformação de nós mesmos em ciborges, cópias originais de nós mesmos ou seres totalmente digitais (o que eu tenho explorado aqui, aqui e aqui). É deixar-nos explorar com segurança essas idéias de uma forma menos sombria do que a típica narrativa da “carne para os vermes” em que os secularistas estão geralmente limitados. Ao fazer isso, talvez seja preenchido um vazio que a religião costumava preencher, mas já não consegue fazê-lo, para muitos de nós.

Malcolm MacIver é um bioengenheiro na Northwestern University que estuda as bases neurais e biomecânicas da inteligência animal. Ele presta consultoria para filmes de ficção científica (“Tron Legacy”, “The Avengers” de  Joss Whedon) e foi o conselheiro científico de Caprica. Ele estuda Inteligência Artificial e robótica não ficcional.

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