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domingo, 27 de novembro de 2011

Opiniões sobre o transhumanismo e sua relação com a religião

Diversas opiniões sobre o artigo de Malcolm MacIver  (Transumanismo: um sandbox secular para explorar o pós-morte?) sobre o transhumanismo e sua relação com a religião. Esses comentários foram originalmente postados aqui. É impressinante a qualidade dos comentários -- dá uma boa amostra da inteligência dessas pessoas. Resolvi traduzir alguns deles e colocar no blog.

Skrim
Eu não chamaria o transumanismo de religião - é apenas uma coleção de idéias unificada pela noção de que devemos transcender nosso estado de evolução natural biológica, que nossas mentes presente e capacidades não são o melhor que podemos fazer.
Eu chamaria o Singularitarianismo (com 'S' maiúsculo) de espécie de sistema de crenças estranhas sobre um evento pontual -- a invenção súbita de uma AGI superinteligente (em vez do desenvolvimento de AIs cada vez mais inteligentes e cada vez mais geral ao longo do tempo) ou upload da mente (em vez de uma sofisticação cada vez maior de tecnologia neural de interfaces que finalmente alcançam a simulação completa da mente) -- que, de repente, mudam tudo para sempre. Ainda não é uma religião em si, mas semelhante em suas origens psicológicas.
Jody
Eu não acredito necessariamente que em 2045 a singularidade ocorrerá, mas sou um transhumanista secular que certamente vê o paralelo entre transumanismo e religião. A maioria das religiões (pelo menos as três grandes) falam sobre a existência humana indefinidamente perpetuada e sobre o "paraíso". Há muito apelo para as pessoas nesta crença da vida após a morte. Acho que não seria ofensivo dizer que um dos maiores atrativos das religiões está nesta idéia de vida após a morte. Bem, nós ateus não acreditamos em religião, mas eu não vejo porque não podemos absorver alguns desses objetivos antigos e universais. Eu gostaria de viver para sempre e em algum tipo de felicidade, eu só não acho que eu preciso morrer e ser julgado por algum tipo de grande mágico no céu a fim de alcançar esse fim. Eu acho que a tecnologia vai fazer isso. A data de 2045 realmente não ressoa muito em mim, mas está dentro do meu período provável de vida, logo, ótimo. Eu certamente apostaria em criônica também. No pior dos cenários, estou morto e minha cabeça está congelado. No melhor dos cenários, (embora eu admita que é uma possibilidade meio remota), ressuscito e continuo a viver em um céu secular. Eu não sei que será o upload, a criônica, transferência para um novo corpo, ou alguma outra ciência imprevisível... mas estou muito confiante de que alguma forma de tecnologia vai ser o meu “deus ex machina”. Isso não é crença irracional na religião -- antes, é uma previsão otimista baseada no progresso da ciência -- mas os paralelos estão aí.
Hank Fox
O desejo consciente de não morrer é uma unidade básica de todos os seres vivos com um cérebro suficientemente grande para ser minimamente auto-consciente. E isso provavelmente tem sido uma constante nas últimas centenas de milhões de anos.
A religião tomou conta da ideia e por isso hoje temos dificuldade de falar sobre o assunto sem esbarrar em idéias religiosas. Somos forçados a abordar a discussão como se a religião tivesse inventado a ideia de amar a vida e sua continuação.
Mas, na realidade, a religião não tem nada a ver com a discussão, exceto que ela é uma das muitas coisas que poderiam ser ditas sobre o assunto.
Transumanismo, como um modelo de pensamento sobre a vida além do período normal de vida humano, não está tentando macaquear a religião. Está tentando solucionar um desejo humano básico, um desejo que precede a religião recém-chegada há alguns milhões de anos.
A religião é a resposta errada. Talvez seja a única resposta que tivemos por muito tempo, mas a religião não nos aproximou nem sequer um passo das soluções reais e, de fato, ela esteve atrapalhando as respostas reais durante toda sua existência.
Em um momento histórico em que temos uma chance de respostas reais, a religião ainda se coloca no caminho, no sentido de que não podemos sequer falar sobre o assunto sem ter de lutar imediatamente com a ideia tola de que tudo começou com a religião, e qualquer nova resposta tem de ser expressa em termos religiosos.
É como se você tivesse um bebê depois de anos possuindo gatos de estimação e seus amigos insistem que você está apenas tentando substituir seus gatos e o bebê é realmente apenas uma versão pobre de um gato. Quando a verdade é que talvez, pela primeira vez, você está feliz por ter algo DIFERENTE de um gato, algo maior, mais real e mais alegre.
Logan
(...)
Eu diria que eu sou um transhumanista (mas agnóstico sobre a sngularidade), e geralmente apoio os esforços para "curar" ou reverter o envelhecimento e eu gostaria de viver mais tempo do que uma vida humana normal, se eu pudesse, mas isso não significa que eu tenho pavor existencial sobre a morte ou quero evitá-la para sempre. Honestamente, não vejo valor na imortalidade ou na vida por dezenas de milhares de anos. Havia um antigo filósofo grego cujo nome não me recordo que dizia "onde a morte está, eu não sou. Onde eu estou, a morte não está"; por que então (esqueci o resto da citação) que eu deveria temer algo que por definição não posso experimentar? É como ter medo de um sentimento insensível. Medo de como se vai existir durante a sua inexistência. O processo da morte em si provavelmente desagrada, mas, o que posso fazer?
O medo da morte não pode ser superado apenas pela lógica, mas esse é um bom inicio, tanto quanto como os ateus pensam e sentem sobre a morte. Entre os ateus, há uma boa dose de estoicismo em face do inevitável e contentamento com a quantidade limitada de tempo (se é 20 anos ou 200 anos ou 2000 anos) que você tem que viver. Veja, por exemplo, o último capítulo do livro de Ronald Aronson "Viver Sem Deus". Há também uma boa entrevista estendida entre Richard Dawkins e Dan Dennett em que eles falam sobre a beleza da ciência e as perspectivas naturalistas sobre a morte (acho que foi no documentário "Genius of Charles Darwin" de Dawkins).
Não, a razão pela qual eu apoio o transumanismo e a pesquisa anti-envelhecimento é porque é apenas uma extensão dos princípios e objetivos da medicina (e da vida em geral) nos quais todos nós estamos de acordo: aumentar a qualidade e a quantidade dos anos que estamos vivos para o maior número de pessoas. Não há conflito necessário entre esta perspectiva e a perspectiva do estoicismo/contentamento; arriscando um clichê, eu diria que se trata apenas de reconhecer quais condições você pode mudar e quais você não pode.
Cassini (comentando Malcolm MacIver e  Logan)
Sobre o excelente texto de Malcolm MacIver eu diria o seguinte: mais do que nos permitir falar sobre a morte, o transhumanismo nos permite (e nos incita) a fazer alguma coisa em relação a ela.
Sobre os argumentos de Logan e a citação grega de que não há sofrimento, não há dor, não há nada na morte, eu diria que o problema é que essa racionalização filosófica para mim erra o alvo, que é a vida e nosso desejo de viver. O problema está na sombra que a morte lança sobre a vida, uma espécie de depleção de sentido capaz de minar boa parte de nossas energias para levar uma vida alegre e lutar, realizar sacrifícios, por aquilo que elegemos como nossos objetivos (e até mesmo para escolher objetivos).

Jody
Eu sou ateu, e tenho medo da morte. O pensamento de deixar de existir é horrível para mim, e não acho contentamento nele. Eu só não o temo o bastante para tornar-me irracional e passar a acreditar em magia. Mas eu sou um transhumanista porque eu quero evitar a morte -- ou, como alguns transumanistas dizem, a morte “não voluntária". Eu não acho que a morte, especialmente a morte de uma consciência humana, seja algo bom, nobre ou necessário. Eu acho que é algo a ser derrotado.
Matt Brown
Tenho pensando muito sobre a relação entre transhumaismo e religião tradicional e quanto mais eu penso, mais em comum eles parecem ter. Agora devo dizer que sou ateu e, como regra geral, vejo a religião como ultrapassada na melhor das hipóteses, mas parece óbvio que a religião, ou um análogo a ela, ainda serve a um propósito na sociedade moderna.
O problema com estes tipos de discussões começa com a definição do que exatamente é uma religião. Se aceitamos a definição de um sistema que envolve a adoração de deuses e deusas, um conceito do sagrado e do profano, e os enfeites de cerimônias religiosas, então, obviamente o transhumanismo não se encaixa nisso. Mas a religião tem tido muitas definições e nem todas eles são tão restritivas. Se aceitamos a definição de religião como uma visão de mundo que tenta responder a algumas das questões profundas que os humanos têm sobre a nossa própria existência (por que estamos aqui, qual o propósito que minha existência tem, etc.), a diferença entre os dois tornam-se cada vez menos e menos aparente.
Dito isso, eu não acredito que transumanismo é uma religião, mas eu tendo a concordar com o autor do texto que ele permite que os secularistas tenham uma porta para falar sobre a morte e significado. Na verdade, vou iria um passo além e diria que eu acredito que o transhumanismo está cumprindo em grande parte a mesma finalidade o mesmo que a religião faz, só que para as pessoas seculares. Os seres humanos ainda buscam de sentido para suas vidas e o transhumanismo pode ser apenas mais um canal para essa busca.
Malcolm MacIver
@ Jody - Acho que às vezes tentamos romantizar a morte e sua importância na renovação davida como uma forma de confortar-nos sobre isso, mas eu concordo com grande parte de sua opinião. A vida é fantástica -- já a morte e a estrada longa e dolorosa de declínio cognitivo e físico que nos levam a ela é tudo, menos isso.
Marjorie Kaye
Curiosidade responde por grande parte do meu interesse no transhumanismo, assim como o medo da morte. Até recentemente, ou você aceitava seu destino como uma criatura finita, ou se você fosse religioso, esperava (pelo menos se você estivesse no lado direito da equação pecado/virtude) que o seu padre/rabino/imam/ministro estava certo e havia algo grande do outro lado. Ou... você poderia congelar sua cabeça depois de sua morte e ter esperança (um pouco bruta para mim).
Essas eram as opções. Quando eu li o artigo deKurzweil sobre upload da mente em 2000, aquilo realmente me intrigou. Eu não sou um cientista, apenas curiosa. Eu quero saber se algum desses 400mil planetas tem algo ou alguém interessante. Eu gostaria de ver como as coisas serão no meu planeta natal, experimentar uma ou mais páginas da História do Homem (e da Mulher), talvez mais um capítulo inteiro, algo que estava anteriormente fora do alcance depois de setenta anos ou mais nesta terra.
Kurzweil descreve a maravilha de viver em um ambiente virtual, incluindo a escolha de sua aparência física de Lady Gaga ou Michael Jackson, se você é tão inclinado e cantar. Michael Asimov acha que versões digitais de nós irão se relacionam entre si em um nível mais profundo e complexo. Mas de acordo com o autor John Gray, estamos enganando a nós mesmos e faremos algo pior que vamos cópias imperfeitas de nós, levando todas as nossas fraquezas e conflitos conosco no ciberespaço. Talvez Gray esteja certo, mas valeria apena fazer o teste, ainda que seja para ficar por aqui um pouco mais. Em última análise, acredito que todos nós iremos querer saber o que realmente está por vir. Iremos nos libertar de qualquer pretensão de controle e seguiremos o fluxo.

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