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sábado, 12 de março de 2011

Pensando sobre a morte e... novamente, o problema "ciência versus religião"



Por mais que às vezes meditemos sobre a morte, sentimos o peso de sua mão apenas quando ela vem cobrar seu tributo. Em nossa jornada diária, geralmente nos encontramos em um estado de consciência e de interação com os outros em que, muito raramente,  cuidamos de revelar para eles a essência do que sentimos, do que o outro representa. As interações humanas cotidianas costumam  se restringir ao plano do entrechoque de personalidades, das cascas criadas pelos hábitos e pela monotonia. Então, vem a morte e, de uma vez só e para sempre, nos arrebata a possibilidade de poder dizer e enfatizar tudo o que gostaríamos de ter dito e ressaltado. Difícil expressar a dor que isso representa. A melhor expressão que conheço é na tradução de Fernando Pessoa do poema de Edgar Allan Poe, "Nunca Mais". A angústia da inalterabilidade e definitividade de uma situação pra sempre dolorosa.

Não acredito na possibilidade de vida ou existência após a morte, não vejo qualquer evidência, por mais remota que seja, desta possibilidade -- a não ser a própria tendência sutil ao auto-engano para encobrir este aspecto desagradável da existência e evitar o sofrimento psicológico. Esconder a morte da consciência como o bebê que se esconde dos pais tapando os olhos com as mãozinhas, acreditando que mais ninguém o vê. Particularmente, vejo até problemas muito maiores, inclusive sociais (previdência, economia etc.), éticos (sofrimento, a destinação de recursos cada vez maiores aos idosos, ao invés de crianças e jovens etc.), envolvendo o envelhecimento (viver uma vida cada vez mais prolongada com cada vez menos prazer e mais sofrimento) do que na morte em si. Penso que  quando ela chega, muitas -- quase todas eu diria -- coisas se perdem, algumas não. A estrutura da mente humana, essa máquina de descobrir e representar o mundo com a qual nascemos, de certa forma se mantém, pois seu padrão é transmitido e preservado, com pequenas variações, pela reprodução biológica. As melhores ideias e criações de uma pessoa também podem ser preservadas na cultura e essa talvez, do ponto de vista social, seja a preservação que mais importa: vidas pouco produtivas são apagadas rapidamente pela morte, enquanto vidas produtivas e significativas se projetam sobre as futuras gerações, como um grande algorítimo genético cultural que vai selecionando, acumulando e aperfeiçoando as melhores ideias. No entanto, o ponto que nos interessa enquanto indivíduos, a rica e intrincada trama de memórias, sensações, emoções, habilidades, crenças etc. que compõem o que veio a ser uma pessoa -- um verdadeiro registro singular de uma época a partir de uma perspectiva única do universo: você -- tudo isso se perde, como se o único exemplar de um raro livro (embora, talvez, tedioso) se perderia caso fosse queimado. Sobram pequenas citações em outros livros, que também se queimarão. 

Durante a benção, logo antes do enterro, o padre disse palavras incrivelmente simples e belas, ressaltando que a morte é apenas uma passagem e que "nosso verdadeiro aniversário deveria ser o dia de nossa morte, assim como os santos são celebrados segundo o dia da morte, não do nascimento; pois é pela morte que nos livramos do sofrimento e das lágrimas e somos acolhidos por Deus. Agora, ele está em situação muito melhor que a nossa... No final, Deus triunfará sobre a morte, está escrito: a morte é o último inimigo a ser derrotado...".

É impressionante a beleza e sedução que estas palavras ganham quando pronunciadas no lugar certo, na hora para as pessoas certas, isto é, naquele momento em que você contempla  o corpo de alguém que, horas antes, falava, gesticulava, fitava e, agora, está frio e duro no interior de um caixão. Momento em que você também é lembrado de que sua vez chegará. Neste momento de imensa perplexidade, o aspecto tão evidentemente infantil e consolador destas ideias passa despercebido ou é quase perdoado. Digo quase porque, apesar de não ser fã da psicanálise, nunca me saiu da mente a observação inteligente de Freud de que a visão religiosa do mundo "é tão patentemente infantil, tão estranho à realidade, que, para qualquer pessoa que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade, é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida".

Isso reforça, em mim, a ideia da religião como uma tecnologia psicológica poderosíssima, um lastro importante para a existência humana, uma necessidade quase fisiológica em razão da condição humana: a de mortal consciente. Mas, também, me faz pensar que em algum momento, provavelmente não muito distante, uma tecnologia suficientemente avançada vai fornecer soluções técnicas (e não apenas consolo psicológico) para a condição humana. A ideia de uma "imortalidade da alma" ou uma continuação do "espírito", um paraíso de delícias é tão irresistivelmente sedutora que o homem, depois de milhares de anos sonhando com isso, vai, começar a criar uma realidade que gradualmente se aproxime destes doces sonhos.

Aliás, curiosamente, foi pensando nisso que cheguei ao ideário de Ray Kurzweil há alguns anos. Depois de refletir um pouco sobre como os videogames arrebatam algumas pessoas e como o SecondLife  (há alguns anos atrás parecia ser bem mais promissor) poderia se tornar um mecanismo de realização de sonhos, pensei: "é possível que o desenvolvimento dessas coisas nos leve a uma espécie de espiritualidade artificial, uma espiritualidade eletrônica ou virtual, baseada na tecnologia." Aí, fazendo algumas buscas no Google, acabei chegando ao livro "A Era das Máquinas Espirituais". Não era exatamente o que eu tinha em mente, mas era muito próximo.

Na semana passada assisti (depois de dois lamentáveis anos de espera...) ao documentário "Transcendent Man" e a ideia central  do filme é exatamente esta: a de que a engenhosidade humana pode forjar um mundo tão radicalmente diferente do nosso que sua descrição mais próxima só pode ser encontrada na metáfora do paraíso. O documentário é bem feito e inteligente. Não acrescenta muito para quem já leu os livros e acompanha as ideias de Kurzweil, mas acredito que pode ter um grande impacto para quem não estava a par dessas ideias.



Isso significa que o transhumanismo é uma religião?  Este talvez seja o mais rotineiro  ataque de que o movimento é alvo. Mas não é uma crítica sofisticada, nem necessariamente justa. E é fácil entender o porquê. Inegavelmente, transhumanismo e religião tem muito em comum: a promessa da satisfação dos mais profundos desejos decorrentes da condição humana, de mamífero bípede racional, ciente da própria dor e da própria miséria relativa a certos aspectos de sua condição. Superar a escassez, a ignorância, o sofrimento, a doença, o envelhecimento, as injustiças e, como disse o padre que citei acima, "o último inimigo a ser derrotado: a própria morte..." e transcender nossas limitações, diminuir o contraste entre "a natureza de sonhos e a qualidade de nossos condicionantes." Tudo isso tem a ver com a religião e transhumanismo.

Os meios utilizados em um e outro caso, no entanto, são absolutamente diferentes. No cerne do método religioso está o mito: a criação de estórias e explicações (nem sempre sutis) que tentam assegurar que todos os males são passageiros e que, após a morte, o crente bem comportado e conformado se livrará deles no paraíso, como a criança obediente que ganha uma bicicleta no Natal. Mas a religião não se limita a falar apenas isto... Ela se aventura a fornecer explicações (quase sempre desastrosas) sobre o mundo natural, ponto em que pode ser facilmente e perigosamente desmascarada. Como consequência, a religião tenta suprimir a contestação, o espírito crítico, a investigação e a dúvida. Se as evidências naturais (ex: fósseis) dizem algo, mas os textos religiosos dizem o contrário, a evidência só pode estar errada (conclusão: o demônio criou os fósseis para colocar dúvida nas pessoas). Se em sua forma poética e destilada pelos sábios o mito pode até ser bonito, sua exploração econômica (ou melhor dizendo, a exploração econômica da miséria humana) é algo que me cheira à contrafação. E, consumi-lo, é pagar caro por uma verdade pirateada, isto é, por uma mentira.

A alternativa tradicional a isso era a resignação com a condição humana e à vida como ela é, caminho, difícil, para poucos. Para estes, o problema não estaria na condição humana, mas na sua não aceitação. Eu colocaria aqui o ateu puro -- que às vezes vai criticar o transhumanismo como outra crença supersticiosa. Um aspecto que me desagrada nesse grupo é o "pensar dentro da caixa", como se o estado atual de nosso jovem conhecimento científico nos autorizasse a dizer "isso é possível" ou "aquilo é impossível". Ou, ainda, como se não houvesse uma linha divisória porosa e mal delimitada entre o que é possível e o que só pode ser fantasia. Muitos, ainda, comportam-se como se ser pessimista ou cético fosse sinônimo de estar certo. O ceticismo é ferramenta para se aproximar da realidade, não ela própria. Para transformar a realidade, sempre foi preciso outros ingredientes: a audácia e a experimentação.

E o transhumanismo, como pretende satisfazer os profundos desejos inerentes à condição humana? Com a ciência e a tecnologia, os produtos da inteligência humana. Mirando as fantásticas realizações da ciência moderna e extrapolando suas tendências, sustenta, com base nestas evidências, que é possível mudar os aspectos indesejáveis da condição humana (e, mesmo, transcender essa condição). Neste caso, o cultivo do espírito  crítico e cético inerente à investigação científica se faz necessário pois, do contrário, estaríamos retornando à primeira opção (religiosa): a da satisfação com os contos de fadas.

Infelizmente, a coisa não é sempre tão arrumada assim na agitação do mundo real. Na prática, o caminho do meio é sempre perigoso (é mais fácil escolher entre o preto e o branco) e ser transhumanista é andar no fio da navalha: de um lado, os profundos desejos decorrentes da natureza humana; de outro, o espírito científico  necessário à sua real concretização, às vezes negando a realização (ou realização imediata) dos desejos. Os limites entre um lado e o outro são cinzentos e incertos. Por sermos ansiosos e impacientes, não raro, pode-se perceber alguém cruzando estes limites em direção à satisfação dos desejos, independentemente de sua possibilidade de implementação objetiva, como o marinheiro que, atraído pelo canto de uma sereia, despedaça seu navio (a razão) em rochedos para ser devorado por ela. Aceitar e conviver com a incerteza é extremamente difícil, pois nossos cérebros parecem não ter sido moldados para isso. É bem mais fácil se guiar pelo preto no branco: ser um crente  fervoroso ou um ateu resignado.

Não obstante este risco, no momento estou convencido de que, pelo menos para determinado tipo de personalidade (certamente, o tipo mais comum) trilhar o primeiro (religião) ou o terceiro  (transhumanismo) caminho conduz a maior felicidade, com tendência a investir mais e a extrair mais da vida, sem o desconforto existencial decorrente da premissa de que todos aspectos desagradáveis da existência humana são imutáveis e de que a morte não irá necessariamente anular tudo. Para quem já não consegue se encantar com a religião, o transhumanismo é uma boa opção, além do que, não desemboca no dilema "quanto mais penso, mais sofro", tão comum às mentes religiosas. Para o transhumanista, "quanto mais penso, maior a chance de  transformar o mundo e sofrer menos".

O problema sério com a religião é que, se ela serviu de suporte existencial/cognitivo por todos esses milênios (quando a apreensão da natureza pelo homem não lhe permitiria mudar nada mesmo, o melhor era se conformar), agora, quando a era das soluções reais parece se aproximar, a religião passa a ser um estorvo ao desviar recursos, esforços e atenção dessas novas possibilidades. O que foi um produto da evolução cultural para que os seres humanos levassem com tranquilidade  e obediência suas curtas vidas (uma média de 25 a 30 anos até alguns milênios atrás; 45 anos no início do século XX nos EUA), pode tornar-se o maior obstáculo para o início de um processo  radical de evolução do próprio ser humano que poderia aproximar as promessas religiosas da realidade.

Mas não é de se esperar que ideias como o transhumanismo desempenhem logo um papel de substituto das religiões tradicionais. Não se substitui de uma hora para outra instituições domesticadas e lapidadas pelos milênios.  Será necessário ainda muito design. As religiões proporcionam socialização, fornecem suporte emocional e um programa de aprimoramento moral. No entanto, se me fosse perguntado, o que pode substitutir as religiões, eu não hesitaria em apontar o transhumanismo como um forte candidato.


Para aprofundar mais:
O FUTURO DA MORTE (Folha de S. Paulo, 04 de novembro de 2001).

4 comentários:

  1. Há algum tempo penso em algo que é próximo do foi dito no texto, p. ex., a morte sendo o fim de tudo o que pode ocorrer com uma pessoa. A partir desta perplexidade surgida do interrompimento de determinados planos, aparecem as possíveis respostas: religião, ciência e filosofia. O transhumanismo é uma perspectiva que surge como uma alternativa teórica à religião, um sucessor do humanismo surgido no renascimento.

    Ademais, mesmo existindo subdivisões internas quanto à escala de tempo das previsões, um dos tópicos que penso ser essencial neste debate diz respeito a extensão da vida, estudado atualmente, e que tem a ambição professada por religiões monoteístas já conhecidas: a imortalidade. Porém, as pesquisas que visam retardar o envelhecimento ainda não receberam a ajuda financeira suficiente. “A morte como processo natural” ainda é considerada uma verdade estabelecida, e encarada como algo a que todas as espécies estão sujeitas.

    Na verdade, passa por uma auto-avaliação sobre a participação que temos neste mundo, e os valores que devem ser cultivados é uma tarefa que . A religião possui valores semelhantes à teorias éticas que não levam em consideração entidades divinas, entretanto, considero as religiões um mal que impede a evolução intelectual de um modo geral. Tem-se discussões filosóficas de alto nível em filosofia da religião poderia alegar alguém com uma visão mais sóbria, mas a participação das autoridades religiosas vai além do necessário, uma distinção entre as provas sobre a existência de Deus e a prática religiosa, tão perigosa.

    A médio prazo, se tecnologias de aprimoramento cognitivo tiverem sucesso, aumentando nossa capacidade de memória, criatividade, raciocínio e emoções, seremos capazes de objetivos maiores como a colonização do espaço próximo. Além de serem felizes, acredito que um dos desejos de qualquer pessoa(transhumanista ou não), é ter participação em algo que seja maior que sua própria existência.

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  2. Interessante, Bruno.
    Sobre esta última parte, "tomar parte em algo maior", vale a pena conferir: http://www.ted.com/talks/lang/por_br/mihaly_csikszentmihalyi_on_flow.html . Acho que na última parte ele fala desta vontade que é algo comum em pessoas criativas e felizes.

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  3. Fiz algumas pequenas alterações no artigo e inseri links.

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  4. Eu sou ateu, para mim é lógico que as religiões são fábulas simples e é lógico que elas tenham sido criadas. E sou transhumanista, não vejo incompatibilidade entre ambos.

    Sou ateu para responder à religião e o transhumanismo não é uma religião.

    Penso que nós os "não crentes" damos demasiada importância à religião, perdemos demasiado tempo a explicá-la por nos parecer tão ridículo ainda acreditarem nelas tendo tantas evidências da sua não existência.

    Parece que há uma exigência de nos explicarmos, porque somos "não crentes", quando quem se deve explicar é quem é crente, tendo acesso à quantidade de informação hoje em dia não faz sentido que o seja.

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