domingo, 11 de setembro de 2011

Aperfeiçoamento Humano: experimentos em busca do mito moderno


Trecho interessante do documentário.

Quem se interessa pelo assunto "ciência versus religião" ou a busca da conciliação ou pontos de contato entre ciencia e religião, poderá se interessar pelo documentário de três episódios "Aperfeiçoamento Humano" (no original Technocalyps), produzido por Frank Theys e veiculado no History Channel de Portugal.
O documentário possui entrevistas interessantes e traz algumas revelações sobre ala transhumanista "pentecostal", isto é, aquela interessada em fazer uma colagem a qualquer custo entre ciência e religião (ao contrário das alas mais cética e críticas) e a inspiração religiosa por trás dos líderes de grandes projetos científicos, como a exploração espacial e o projeto do Genoma Humano.
A temática de "Aperfeiçoamento Humano" é semelhante a do documentário Transcendent Man, inclusive muitas das pessoas que aparecem em Transcendent Man também estão lá. Algumas entrevistas são até melhores ou pelo menos mais extensas, como a de Hugo de Garis. "Aperfeiçoamento Humano" é alguns anos mais antigo que Transcendente Man (terminou de ser filmado em 2006, enquanto Transcendent Man terminou de ser filmado em 2009).
Como eu ia dizendo, do ponto positivo há o fato de que as entrevistas são mais extensas, há outros entrevistados bons, mas, prepare-se: conclusões e entrevistados completamente malucos também estão presentes, principalmente no final do terceiro episódio (o pior de todos).
Documentário Aperfeiçoamento Humano: entrevistas boas, atmosfera "dark", imagens desagradáveis, costura apressada entre ciência e religião.

Os pontos negativos são vários. Em primeiro lugar, a atmosfera dark, de "cine trash" do documentário, a começar pelo título original, em inglês: "Technocalyps". Isso torna o documentário tão estranho e esteticamente tão desagradável que demorei um pouco para ter certeza se o filme queria fazer proselitismo ou atacar o transhumanismo. Por incrível que pareça, era proselitismo mesmo.
Abusa-se de imagens e motivos religiosos com efeitos especiais toscos de anjos, alienígenas verdes e centauros jogando futebol (e eu que pensava que os centauros eram criaturas mais sábias!). Ficaria melhor ter mostrado pinturas renascentistas do que esses efeitos especiais mal feitos. Há uma cena de impressionante mal gosto com a exposição irritantemente longa de animais atropelados. A trilha sonora parece extraída de videogame de combate.
Mas o ponto realmente negativo e inaceitável do documentário é a utilização de algumas ideias que apelam para uma credulidade quase religiosa para costurar a conciliação entre ciência e religião. Se a ideia é mostrar que religião e ciência podem caminhar juntas e que sua separação é recente, há farta evidência histórica sobre isso (ex: antigos egípcios, os alquimistas etc.). Mas é totalmente dispensável apelar para o mais bizarro dos misticismos para isso, como é feito no final do terceiro episódio. O clímax do misticismo bizarro é a  picaretíssima fala do místico francês e "profeta de extraterrestres" Rael -- uma verdadeira agressão a todo aquele que possuir um mínimo de massa encefálica entre as orelhas.
Não estou dizendo que toda ponte que se tente fazer entre a ciência e a realização é descabida ou que o filme não traz observações interessantes. Na vida, temos que tentar separar a criança da água suja. Achei muita coisa ali interessante. Só que essa relação entre tecnociência e relligião não é bem estudada, nem tampouco aproveitada (não se diz: quais pedaços de ciência e religião são inconciliáveis, quais são aproveitáveis etc.). O resultado dessa pressa é algo que é feio demais para ser atrativo como religião e crédulo demais para ser aceito por uma mente minimamente cética. É o problema da sereia transhumanista: na pressa de se desfrutar os amores de uma bela sereira, naufraga-se a nau da razão, a única que poderia levar o marujo encantado para os braços de uma mulher de verdade.
Eu tenho a intuição de que algum movimento semelhante ao transhumanismo poderá estabelecer uma ponte entre ciência e religião. Da ciência, aproveitando-se a razão como meio de apropriação e transformação do mundo. Da religião, aproveita-se a estética e os sonhos que satisfazem a dolorosa condição humana. O resultado, seria algo que tem os sonhos da religião como projetos a serem realizados pela ciência e tecnologia. Os dogmas religiosos deixam de ser dogmas em que você tem que acreditar e se transformam em projetos que você deve perseguir. Esse é o pensamento que, para mim, parece estar por trás de vários pensadores transhumanistas e no movimento da singularidade. E, na minha opinião, tem o potencial para se transformar em um mito moderno. Mito no sentido positivo que lhe dava Joseph Campbell, uma espécie de software mental que orienta nossa ação e compreensão no mundo, que organiza a relação entre o eu mortal e tudo-o-mais. Um mito que, portanto, não precisa ser necessariamente falso ou baseado no misticismo. Pode ser baseado na engenharia.
Mas o documentário Aprimoramento Humano não atinge esse objetivo, não consegue costurar bem esse mito, porque acaba apelando para um misticismo agressivo (sinceramente, Rael?!?) e para um déficit de racionalidade ou espírito cético. Mas é mais um experimento na tentativa de se costurar um mito moderno. Vale lembrar que as religiões tradicionais contaram com centenas ou milhares de anos de experimentação e seleção cultural para atingir o design atual (alguém se lembra da cena de vários pretensos messias profetizando e competindo por seguidores em "A Vida de Bryan"?). O transhumanismo e o movimento da singularidade são extremamente recentes e estão se saindo bem. Aguardemos os próximos experimentos. 

Inside Job: colocando as raposas para vigiar o galinheiro





Pensamentos que me acometeram depois de assistir o documentário "Inside Job" (http://www.youtube.com/watch?v=tytH0CQSsXo):

1- Pensava que a elite norte-americana era mais esperta;
2- Pensava que o povo americano e os promotores federais dos EUA eram bem mais espertos;
3- Para a prudente e paciente China se tornar o poder dominante, não vai ser preciso dar um tiro sequer. Basta os EUA continuarem fazendo "business as usual";
4- Bendito seja o país que é capaz de financiar, premiar (com o Oscar) e divulgar pelo mundo um filme como "Inside Job". Na China ou na ex-URSS, o diretor e sua equipe poderiam ser premiados com uma bala de fuzil (para cada um);
5- Se eu fosse eleitor americano, não premiaria Barack Obama com a reeleição (a não ser que eu descobrisse que, na casa dele, ele também coloca as raposas para vigiar o galinheiro);
6- O EUA deveriam substituir a mentalidade do dinheiro ilusório pela mentalidade da abundância, tal como defendida por Peter Diamandis (http://www.diamandis.com/?page_id=17) ou Peter Thiel (http://www.tedxsv.org/?page_id=516).

sábado, 27 de agosto de 2011

Max More fala sobre a prioridade número 1 para os transhumanistas




Traduzi hoje trecho de uma excelente entrevista de Max More ao blog "Singularity 1 on 1".
Para quem não o conhece, Max More é considerado a primeira pessoa a utilizar o termo transhumanismo no seu sentido atual e é um dos líderes do movimento. É PhD em filosofia pela Universidade de Oxford e atual presidente da Alcor Life Extension (que ele comenta em outro trecho desta mesma entrevista). Depoimentos de Marvin Minsky, professor emérito do MIT, sobre Max More: "Existem poucas pessoas que sabem tanta coisa, podem a um só tempo pensar tão clara e corajosamente e conseguem se expressar tão acuradamente.

Carl Sagan era uma dessas pessoas e, parcialmente pagando o preço com sua vida ele conseguiu atingir o grande público. Mas Sagan se foi e não foi substituído. Eu vejo Max como meu candidato a este posto."
A legenda pode ser baixada no youtube, caso alguém queira traduzir para outra língua.



Sócrates (nick do entrevistador):
Olá a todos e sejam bem-vindos
ao "Singularity 1 on 1"
"Singularity 1 on 1" é um blog futurista
cujas entrevistas você pode escutar ou baixar.
Como vocês já podem saber, meu nome é Sócrates
 e eu farei as perguntas na entrevista.
Hoje tenho a honra de ter como meu convidado
o Dr. Max More (PhD).

Dr. Max More tem um currículo muito rico e longo
talvez a forma mais rápida de apresentá-lo
seja citando dois outros grandes futuristas e pensadores.

Marvin Minsky, o pai da inteligência artificial
[Professor Emérito do M.I.T.],
disse de Max More: "Existem poucas pessoas
que sabem tanta coisa, podem a um só tempo pensar 
tão clara e corajosamente
e conseguem se expressar tão acuradamente.


Carl Sagan era uma dessas pessoas e, 
parcialmente pagando o preço com sua vida
ele conseguiu atingir o grande público.
Mas Sagan se foi e não foi substituído.
Eu vejo Max como meu candidato a este posto."


E Raymond Kurzweil disse de Max More:
"As ideias de Max More são muito influentes
entre outros grandes pensadores e líderes.
Seus escritos representam futurismo
 cientificamente fundamentado
e refletem um entendimento sofisticado
das tendências tecnológicas
e de como estas tendências provavelmente
se desenvolverão neste século que se aproxima."

Então, olá Max e seja bem vindo ao "Singularity 1 on 1".

Uma das suas citações mais famosas que encontrei foi esta:
"Nós conquistamos dois dos três sonhos dos alquimistas:
a transmutação de metais e aprendemos a voar.
A imortalidade é a próxima conquista."

Você poderia nos explicar
porque você acha
que a imortalidade é a próxima conquista?

Max More: Eu escrevi isso há um tempo atrás
e devo dizer que hoje
eu não uso mais o termo imortalidade.

Sócrates: Aubrey de Grey é muito cuidadoso
 em evitar esta palavra.

Max More: A gente se sente tentado a usar "imortalidade"
porque é uma única palavra, de fácil compreensão,
melhor do que usar expressões longas
mas eu não diria imortalidade porque isso implicaria em
uma garantia de nunca morrer ou nunca perecer.
E acho que ninguém pode garantir isso,
isso teria conotações religiosas.
Eu prefiro "superlongevidade" ou
viver indefinidamente.

A idéia é que os alquimistas eram protocientistas
Eles tentavam fazer ciência
antes da existência do método científico.
Eles foram muito criticados,
mas eles também fizeram progressos.
Mas usando a ciência moderna,
nós temos sido capazes de atingir aqueles objetivos.
Nós somos capazes de voar usando máquinas.

E conseguimos transmutar elementos
a um grande custo energético, mas é possível.
Então, resta o terceiro objetivo dos alquimistas
que é aumentar a duração da vida humana,
que, para mim, é o objetivo
mais importante para nossa civilização.
Porque o que acontece atualmente
é essencialmente um holocausto:
milhões de pessoas morrendo em grande número,
uma de cada vez
e nós não achamos isso tão ruim
porque não vemos elas todas mortas em um lugar,
Mas isso é muito ruim, são muitas pessoas morrendo
E as pessoas dizem "Ah, mas isso é natural".
E para mim isso não é aceitável.
O fato de ser natural
não faz disso uma coisa boa.
Nós precisamos fazer as pessoas pararem
de morrer e envelhecer,
E aqueles que morrerem
antes destas tecnologias
devem ser criopreservados.
O fato de que isso não é a prática padrão
me impressiona.

E quando as pessoas do futuro olharem para nossa época
eu acho que elas vão dizer:

"O que passava pela cabeça daquelas pessoas?"
"Eles não faziam nada!"
"Eles jogavam as pessoas fora
quando elas eram consideradas legalmente mortas,
eles não faziam nada para aumentar a expectativa de vida,
eles não financiavam isso,
mas gastavam absurdas quantias de dinheiro
construindo armas
e financiando programas que não eram muito úteis,
eles não faziam praticamente nada
a respeito do problema do envelhecimento,
deixando o financiamento disso
a cargo de pequenos grupos privados."
"Isso não faz nenhum sentido."

Sócrates: Aubrey de Grey, que é outro entusiasta
do antienvelhecimento ou da superlongevidade,
sempre se refere ao fato de que morrem
100.000 pessoas por dia em razão do envelhecimento.
Ele tem um grande dificuldade em aceitar o termo
"morte natural", acho que nem suporta ouvir isso.
Então esse seria o objetivo por trás do seu trabalho?
Atingir a superlongevidade tendo em vista que
nós já atingimos os outros dois objetivos dos alquimistas?
É essa a motivação de Max More?

Max More: Certamente é uma grande parte da minha motivação,
mas é claro que alterar a duração da vida das pessoas
mudará uma série de coisas,
o modo como nós nos relacionamos uns com os outros,
organizações, a política, o modo como as pessoas lideram,
isso mudará uma série de coisas.
Os críticos dizem: "Mas isso mudaria absolutamente tudo!"
Mas é isso mesmo!
Mas você tem que pensar a extensão da vida
do ponto de vista dos outros objetivos transhumanistas.
Só viver mais... para mim isso já soa muito bom,
mas eu quero continuar a aprimorar a mim mesmo,
melhorar a nós mesmos intelectualmente,
emocionalmente e socialmente, porque tudo isso funciona junto.
Então há muito mais.
Mas eu acho que este objetivo (lutar contra o envelhecimento)
é o que merece mais ênfase nesse momento
porque ele é simplesmente negligenciado,
mas ele é crucial.
Nós podemos esperar para construir
 uma superinteligência artificial (AI),
nós podemos esperar para construir nanotecnologia,
naves espaciais,
se nós conseguirmos viver o bastante.
Mas de outro jeito, não.
Algumas pessoas argumentam que a inteligência artificial
poderia nos levar a resolver o problema do envelhecimento...
Talvez...
Mas para mim, conquistar o envelhecimento
ou pelo menos retardá-lo
É a prioridade número um.

sábado, 20 de agosto de 2011

"Seios maiores sem silicone" e outras possibilidades na Superinteressante

A Superinteressante parou de falar um pouco sobre Jesus e, na alvissareira edição deste mês (Edição nº. 294 - "O futuro do seu corpo"), traz em linguagem popular a temática transhumanista:

"Olhos que veem no escuro. Força sobre-humana. Seios maiores sem silicone. Novas funções para o cérebro -- e até um sexto sentido. Tudo isso já existe e logo estará em você. Conheça a mais radical transformação do nosso tempo: a reinvenção do corpo humano."

Mais sobre a edição (que ainda está nas bancas):
http://super.abril.com.br/superarquivo/?edn=294Ed&yr=2011a&mt=agostom&ys=2011y



Para as interessadas que chegaram a este post pelo título: a tecnologia "melhor que silicone" a que a matéria se refere é a desenvolvida pela empresa Cytori. Mais detalhes:

Extremamente interessante, ainda, a notícia de recriação de dentes a partir de células-tronco (terceira dentição), segundo a reportagem, assunto pesquisado no Brasil por Silvio e Monica Duailibi, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Excelente entrevista de Nick Bostrom na Revista Filosofia

Nick Bostrom (para os desavisados: fundador da Humanity+, antes chamada Associação Transhumanista Mundial, e professor de filosofia da Universidade de Oxford, uma das melhores do mundo) concedeu uma entrevista à brasileira Revista Filosofia. É uma entrevista muito boa que vale a pena ler e divulgar, especialmente para aqueles intelectualmente mais exigentes. Quem quiser a ler por inteiro:

Abaixo, trechos relacionados com assuntos frequentes neste blog, destaquei algumas das frases que achei mais interessante.

Entrevista
Homem imortal ou fim da espécie?
Inteligência Artificial, criogenia e cura para o envelhecimento são avanços que podem garantir maior potencial e sobrevida ao homem. Mas desenvolvimentos tecnológicos nesta linha também podem trazer grandes riscos existenciais capazes de exterminar nossa espécie

O filósofo sueco Nick Bostrom, 37 anos, possui uma vasta formação acadêmica: Filosofia, Matemática, Economia e Ciências da Computação são algumas das áreas em que ele tem graduação ou pós-graduação. Desde os 33 anos é diretor do Instituto para o Futuro da Humanidade, uma entidade acadêmica situada em Oxford, na Inglaterra, destinada a pensar as grandes questões e possíveis encaminhamentos do progresso da humanidade, o que inclui temas como a criogenia, a criação de Inteligência Artificial e também os riscos que novas tecnologias podem provocar à espécie humana. Já arrecadou mais de 13 milhões de dólares em verba por meio de bolsas para pesquisa, prêmios e doações. O Instituto para o Futuro da Humanidade reúne diversos pesquisadores de destaque em suas respectivas áreas que decidiram pensar questões mais globais do progresso humano. Dentre eles, tem-se: Anders Sandberg, neurocientista computacional; Robin Hanson, economista; e Rebecca Roache, filósofa. (...)

Bostrom realizou múltiplas contribuições em questões fundamentais para o transhumanismo, movimento intelectual que prega um uso racional da tecnologia para modificar fundamentalmente a condição humana. Seus artigos publicados incluem temas como riscos existenciais - riscos com potencial de destruir toda a raça humana; drogas da inteligência - heurística de como realizar, de maneira segura, alterações tecnológicas na cognição humana; e ética infinitária - como agir eticamente num universo infinito em que qualquer ação finita não altera a soma total infinita do bem no mundo. Mais informações podem ser encontradas em seu website pessoal (www.nickbostrom.com).



FILOSOFIA  Quais são seus pensamentos sobre criopreservação?
Nick Bostrom: Penso que criogenia é uma opção racional para uma pessoa que pode facilmente arcar com os custos e que valoriza a sua própria sobrevivência.

A lógica básica é simples. Em temperaturas tão baixas quanto a do nitrogênio líquido, os processos bioquímicos basicamente param. Isso significa que não existe nenhuma degradação subsequente do corpo ou do cérebro uma vez que ele tenha sido congelado ou vitrificado. Ainda que com os protocolos atuais uma grande quantidade de dano seja feita no processo de preservação, é perfeitamente plausível que a informação contida no cérebro não é verdadeiramente apagada, apenas embaralhada - da mesma maneira como não se apaga realmente a informação de um documento impresso ao cortá-lo em pedaços: com paciência, os pedaços podem ser unidos novamente para revelar o texto original.

Temos então uma situação na qual a informação provavelmente ainda esta lá, mas de uma forma embaralhada e inviável. Alguma tecnologia avançada do futuro, tal como a Nanotecnologia ou a emulação completa cerebral, seria necessária para reparar o dano ocorrido no processo de resfriamento bem como para reverter a causa original da morte (ou 'desanimação', em linguajar criogênico). Parece negligente apostar a sua própria vida na convicção de que essas tecnologias nunca serão desenvolvidas. Consequentemente, um tratamento conservador apropriado para cadáveres seria preservá-los em temperaturas de nitrogênio líquido na esperança de que, em algum ponto no futuro, a tecnologia médica irá avançar o su ciente para que a reanimação se torne factível.

Não existe garantia de que isso irá funcionar, mas as chances são certamente melhores do que enterrar ou cremar o corpo, o que apaga permanentemente toda a informação do seu cérebro. A criogenia é geralmente paga por um seguro de vida. O custo anual depende da idade da pessoa quando ela se inscreve. Para uma pessoa jovem, deve ser algo em torno de 500 dólares por ano, o equivalente a um ou dois pares de sapatos de grife.

(...)

FILOSOFIA -  E sobre a "dieta imortal" de Ray Kurzweil e Terry Grossman [Os autores apresentam, no livro A Medicina da Imortalidade, um programa que retardaria o envelhecimento e preveniria numerosas doenças, aumentando a longevidade e a qualidade de vida das pessoas para que elas estejam com boa saúde e energia quando novas tecnologias de prolongamento da existência estiverem disponíveis? 
Nick Bostrom: Eu sou cético a respeito. Mas suponho ser algo bom. As pessoas estão tentando abordagens diferentes - talvez alguém vá tropeçar em algo que funcione.


FILOSOFIA -  As maiores promessas de nosso tempo vêm de entusiastas da Inteligência Artificial e de entusiastas do antienvelhecimento. Esses são os avanços nos quais você apostaria o seu dinheiro como as principais fontes de mudanças ou existe algum campo negligenciado de pesquisa para o qual devemos voltar nossos olhos? 
Nick Bostrom  Não penso que Inteligência Artificial ou curas para o envelhecimento são eminentes, mas em longo prazo, sim, esses são certamente os campos para manter nossos olhos. Eu gostaria de ver progresso em antienvelhecimento o mais cedo possível. Inteligência Artificial é muito mais problemático porque envolve um grande risco existencial. Uma inteligência artificial no nível humano iria muito provavelmente rapidamente ser seguida por superinteligência. É de crítica importância que descubramos como fazer uma Inteligência Artificial amistosa e segura antes de descobrir como se fazer uma Inteligência Artificial.

(...)

FILOSOFIA -  Vindo de um país rico, você escolheu uma vida de trabalho árduo promovendo a inteligência e a felicidade das pessoas futuras. Já se arrependeu dessa decisão, invejando aqueles que tiveram uma juventude selvagem e emocionalmente intensa?
Nick Bostrom  Pode ter faltado algumas coisas em minha juventude, mas não faltou intensidade emocional. Nunca me arrependi do caminho que segui. Fora a esperança de que ele possa produzir algum grande e significativo beneficio, ele também tem muitas satisfações diretas e pessoais. É muito divertido e muito estimulante intelectualmente. Imagino que não  ficaria feliz pensando que tive a oportunidade de fazer algo significativo e falhei em sequer tentar.


Nick Bostrom no TED


sábado, 30 de julho de 2011

Carl Sagan: Um Universo que não foi feito para nós (legendado)


Se isso nos desagrada, teremos nós mesmos de usar nossas melhores ferramentas para redesenhá-lo no que for possível... Não tampar os olhos com as mãos, como os bebês que acreditam que, fazendo isto, não estão sendo vistos por mais ninguém.

Ricardo Oliveira da Silva: "A palavra 'impossível' só existe para a gente desmoralizá-la"



Já faz alguns anos que assisti à notícia sobre a vitória de Ricardo de Oliveira da Silva em um noticiário de TV. Acho que foi quando ele ganhou a primeira medalha. Quase nunca assisto  à televisão, mas aquele dia realmente valeu a pena. Sabe aquelas histórias que enchem os olhos d'água? Que dão um arrepio? Inspiram? Pois bem, a história de Ricardo Oliveira da Silva pertence a esta categoria. É uma daquelas pessoas que tem uma história de vida tão bonita que servem de símbolo para todos nós. Portador de atrofia de tecido muscular, doença que o tornou deficiente físico, só pode começar a frequentar a escola aos 17 anos. E, ainda assim, só uma vez por semana: a professora tinha que ir a sua casa para lhe ensinar as lições. Mas, quando chegava lá, ela percebia que seu aluno já se adiantava nas matérias. Uma mente privilegiada: "Eu começava sempre devagar e ia superando os os obstáculos um a um pra poder chegar longe".

Para fazer as provas, seu pai o transportava em um carrinho de construção por mais de 1km. Não obstante todos esses obstáculos, Ricardo venceu por três vezes a Olímpiada Brasileira de Matemática. Segundo ele, "a palavra 'impossível' só existe para gente desmoralizá-la." E, lembrando uma música famosa do Mont Python, disse que: "na vida tudo tem dois lados e você não vai fazer nada se só ficar olhando o lado ruim." 

Ricardo com o então Presidente Lula, em uma bonita e merecida homenagem.

Disse ainda ao então Presidente Lula que "hoje o Brasil está me ajudando; amanhã, quem sabe, eu poderei ajudar o Brasil." O Brasil ajudando ele? Humm... dificilmente. Provavelmente a Inglaterra ajudou e está ajudando Steven Hawking, mas tenho dificuldade em enxergar como o Brasil está ajudando o Ricardo e outras crianças talentosas brasileiras pobres.  Por outro lado o Ricardo, só com sua história, já está ajudando o Brasil: é um motivo de inspiração para desafiarmos nossos limites!


Meio de transporte para ir fazer provas: 1km no carrinho de mão de construção civil, puxado pelo pai.

Estou convencido de que com o domínio dos processos informacionais dos sistemas biológicos, a biotecnologia/bioinformática poderá trazer transformações no mundo tão profundas como aquelas realizadas pela ciência da computação/informática (será que na década de 1940, as pessoas imaginavam como a tecnologia da informação iria interferir em nossas vidas?). Se isso se tornar realidade nas próximas décadas, então ainda poderemos ver Ricardo Oliveira da Silva em uma corrida vespertina, quem sabe em um arbóreo campus da universidade em que tiver se tornado professor (não sei se isto está nos planos dele, mas ciência no Brasil praticamente só em universidades públicas mesmo). 

A história de Ricardo já nos inspira. Espero poder ver, ainda, seus trabalhos nos ajudarem a desmoralizar muitas e muitas vezes a palavra "impossível" e tornar trivial o que hoje parece fabuloso. 
Fontes:

Sonhando acordado

"Todos os homens sonham: mas não do mesmo jeito. Aqueles que sonham de noite nos recessos empoeirados de suas mentes acordam no dia seguinte para descobrir que seus sonhos eram vaidades: mas aqueles que sonham de dia são homens perigosos, pois podem atuar em seus sonhos com os olhos abertos para torná-los realidade. "
 
"All men dream: but not equally. Those who dream by night in the dusty recesses of their minds wake in the day to find that it was vanity: but the dreamers of the day are dangerous men, for they may act their dream with open eyes to make it possible."
T. E. Lawrence

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Comentários divertidos do Clube Cético sobre Ray Kurzweil



Um tópico curto, meio antigo, inteligente e extremamente divertido no fórum do Clube Cético, comentando uma entrevista de Raymond Kurzweil:

http://clubecetico.org/forum/index.php?topic=8812.0


Trecho engraçado em que um dos foristas, Bruno, manifesta seu incômodo a respeito da possibilidade de o ser humano se fundir com as máquinas ou inteligência artificial (um incômodo, aliás, que realmente deve ser levado a sério e refletido):

"Bruno: Não sei, me sinto incomodado com essa fuga da natureza...
Dr. Manhattan: Isso também foi o que Ugh disse, quando Ogh fez a primeira fogueira...

Bruno: Vai ver ugh era muito mais feliz do que o josé, nascido 20 mil anos mais tarde. ele e suas gazelas.
Dr. Manhattan: Não se ele fosse diabético. Ou se precisasse ir ao dentista. Ou se tivesse uma crise de apendicite, ou..."


Este outro tópico também é interessante:

http://clubecetico.org/forum/index.php?topic=7761.0