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segunda-feira, 11 de junho de 2012

USP realizará sua "1ª Jornada Transhumanista"

Um evento muito interessante terá lugar na FFLCH (a faculdade de filosofia e humanidades da USP) : A 1ª Jornada Transhumanista. E, o melhor de tudo, é que o evento poderá ser assistido online pelo site http://www.iptv.usp.br .


Não é o primeiro evento discutindo o transhumanismo no Brasil (a Federal de Santa Maria já fez vários eventos). Mas o evento é importante porque é realizado na FFLCH-USP que, na área de humanidades, acho que é de longe o centro mais respeitado e influente do Brasil. Corre-se até o risco de, depois de um evento como este, o transhumanismo sair do armário e começar a virar moda nas faculdades de filosofia do Brasil. Filósofos devem pensar as grandes questões abertas do seu tempo. O transhumanismo é, sem dúvida, uma delas.
Enfim, em termos do Brasil acadêmico, é um evento bastante significante, de impacto. Parabéns aos organizadores.
O evento ainda contará com a participação de David Pearce, cofundador da Humanity+ e, sem dúvida um dos filósofos mais relevantes nos dias de hoje (pelo menos na minha lista, que inclui também Owen Flanagan, Daniel Dennett e Sam Harris).
O evento é organizado pelo Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade (único instituto devotado ao estudo e divulgação do transhumanismo no Brasil que tenho conhecimento).

Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidadeúnico instituto devotado ao estudo e divulgação do transhumanismo e da singularidade no Brasil organizou o evento.

Vale a pena divulgar e participar.

--
Cartaz do evento:
http://www.fflch.usp.br/df/site/agenda/arquivos/Jornada_transhumanista_2012_cartaz.pdf

Sexta-Feira, 15 de junho de 2012, 14 às 20 hs, sala 8
Depto. de Filosofia – FFLCH – USP
Transmissão online:  http://www.iptv.usp.br
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 (Cidade Universitária) São Paulo, SP

14:00-15:00 hs João Lourenço Fabiano (FFLCH-USP):

“Melhoramentos cognitivos: razões para modificar a evolução”

15:00-16:00 hs  Leo Arruda (Unifesp): “Ética utilitarista e transhumanismo”

16:30-18:00 hs Diego Caleiro (FFLCH-USP): “Nossos valores atravessarão a Singularidade?”

18:00-19:00 hs David Pearce (BLTC Research – Brighton, Inglaterra): “Abolishing suffering”

19:00-20:00 hs Discussão

“O transhumanismo é a classe de filosofias que busca nos guiar a uma condição pós-humana. O
transhumanismo compartilha muitos elementos do humanismo, como o respeito pela razão e
pela ciência, o compromisso pelo progresso, e uma valorização da existência humana (ou
transhumana) nesta vida, ao invés de em alguma  sobrenatural  ‘vida após a morte’. O
transhumanismo difere do humanismo no reconhecimento e na antecipação de alterações
radicais na natureza e nas possibilidades de nossas vidas, resultantes de várias ciências e
tecnologias, como a neurociência e neurofarmacologia, extensão da vida, nanotecnologia, ultrainteligência artificial e habitação do espaço cósmico, combinadas com uma filosofia e um
sistema de valores racionais” (MAX MORE, 1990, http://www.maxmore.com/transhum.htm).

Sexta-Feira, 15 de junho de 2012, 14 às 20 hs, sala 8
Depto. de Filosofia – FFLCH – USP
Transmissão online:  http://www.iptv.usp.br
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 (Cidade Universitária) São Paulo, SP

sábado, 20 de agosto de 2011

"Seios maiores sem silicone" e outras possibilidades na Superinteressante

A Superinteressante parou de falar um pouco sobre Jesus e, na alvissareira edição deste mês (Edição nº. 294 - "O futuro do seu corpo"), traz em linguagem popular a temática transhumanista:

"Olhos que veem no escuro. Força sobre-humana. Seios maiores sem silicone. Novas funções para o cérebro -- e até um sexto sentido. Tudo isso já existe e logo estará em você. Conheça a mais radical transformação do nosso tempo: a reinvenção do corpo humano."

Mais sobre a edição (que ainda está nas bancas):
http://super.abril.com.br/superarquivo/?edn=294Ed&yr=2011a&mt=agostom&ys=2011y



Para as interessadas que chegaram a este post pelo título: a tecnologia "melhor que silicone" a que a matéria se refere é a desenvolvida pela empresa Cytori. Mais detalhes:

Extremamente interessante, ainda, a notícia de recriação de dentes a partir de células-tronco (terceira dentição), segundo a reportagem, assunto pesquisado no Brasil por Silvio e Monica Duailibi, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

domingo, 29 de maio de 2011

O avanço imparável do trans-humanismo

Matéria bastante informativa da Revista Superinteressante de Portugal:

***

E depois de nós?

O avanço imparável do trans-humanismo


Os progressos tecnológicos e científicos vão permitir-nos intervir no corpo para eliminar deficiências congénitas e potenciar capacidades. A humanidade ultrapassa-se a si mesma.

Mais de sessenta cientistas, peritos e “tecno-intelectuais” foram convocados pela Universidade de Harvard (Estados Unidos), no Verão passado, para debater um tema tão transcendental como a capacidade humana para alterar a sua própria evolução. Os presentes expuseram as suas previsões sobre o futuro da ciência e da tecnologia, assim como sobre o impacto destas no fenómeno da trans-humanização. O prolongamento da vida humana, o domínio dos circuitos do cérebro, a robótica, a nanotecnologia, a inteligência artificial e as técnicas para aperfeiçoar a espécie humana foram apenas algumas das ideias que se discutiram na reunião, promovida pela Humanity+, uma ONG conhecida até há pouco tempo sob o nome de World Transhumanist Association.

Para ler tudo: http://goo.gl/W3qjr


domingo, 27 de março de 2011

Por que deveríamos ter uma alta dose de techno-otimismo?

"Uma nova geração de artistas vai escrever genomas com a fluência com que Blake e Byron escreveram versos." -- Freeman Dyson  (imagem: "A Escada de Jacó", de Blake)

Trecho de artigo do venezuelano Jason Silva em que ele apresenta algumas das idéias que pretende explorar em seu futuro filme "Turning into Gods".

Why We Could All Use a Heavy Dose of Techno-optimism
("Por que deveríamos ter uma alta dose de techno-otimismo?")
Publicado originalmente no Vanity Fair
JASON SILVA

Em uma recente conferência do TED, um jantar foi organizado pela Fundação Edge, um think tank sem fins lucrativos que celebra as grandes idéias. O tema da noite foi a "Nova Era da Maravilha", e a discussão atraiu comparações com a Era Romântica, o período entre 1770 e 1830, quando a ciência ea arte eram amigas. Foi um tempo em que os astrônomos e poetas foram, de certa forma indistinguíveis, assim como artistas eram inspirados pela ciência por um senso inebriante de respeito e admiração. Em algum lugar abaixo da linha, no entanto, esses dois mundos tornaram-se incoerentes.

Talvez até agora. Estamos à beira de uma revolução bio/nanotecnológica/inteligência artificial que vai abrir novos mundos de exploração. E devemos abrir nossas mentes para a ilimitadas e e alucinantes possibilidades.
De acordo com o físico e escritor Freeman Dyson, nesta Nova Era da Maravilha "uma nova geração de artistas vai escrever genomas com a fluência com que Blake e Byron escreveram versos." Leve isso em conta por apenas um minuto: ele está dizendo que nós estaremos aplicando o nosso talento criativo para o tecido do que somos.
Aqui estão algumas previsões do que poderíamos ver:

• As lentes de contato como computadores. As lentes terão L.E.D. circuitos com reconhecimento de padrões e ligação à Internet de alta velocidade, cujos resultados irão sobrepor ao mundo digital na parte superior do mundo real, criando uma realidade aumentada. Basicamente, isto significa que as lentes podem fazer um computador invisível aparecer bem na sua frente.

• A cura da morte. O biogerontologista Aubrey de Grey viaja pelo mundo promovendo a investigação de novas terapias de rejuvenescimento para fazer todos nós possamos viver 1.000 anos. Ele acredita que o envelhecimento é simplesmente uma doença que não tem cura e que rouba 100 mil de pessoas por dia suas vidas, amores e vitalidade. Ele chama SENS sua pesquisa: Estratégias para Engenharia de Senescência Mínima. (Eu explorei essa idéia em meu filme The Immortalists.).

• Projetar cérebros humanos. O autor best-seller, futurista e inventor Ray Kurzweil diz que estamos a menos de três décadas de distância da engenharia reversa do cérebro humano em um computador capaz de criar uma inteligência mais inteligentes que a de humanos (A IBM espera fazer engenharia reversa do cérebro humano até 2030.) Kurzweil defende que, então, iremos nos fundir com esta inteligência e tornarmo-nos pós-biológicos, ou seja, ainda seremos humanos, mas melhorados. Nesse ponto, nós vamos simplesmente fazer back up de nossas mentes do mesmo jeito que fazemos backup de fotos digitais, eventualmente mudando nossa consciência para a Internet. 

A cura para todas as doenças. Nanorobôs médicos do tamanho de hemácias farão engenharia reversa de nossa bioquímica para que nunca fiquemos doentes.

Há outros atualmente empurrando os limites do que é possível fazer --- mavericks inaugurando o que é dito ser uma era de computadores e da biologia e um retorno à maravilha. Alguns poderiam dizer que estamos mexendo com forças que não entendemos completamente. Mas eu afirmo que a evolução destas tecnologias são precisamente o que significa ser humano: a nossa história é marcada por uma curiosidade implacável e nossa incrível capacidade de transcender os limites do que é considerado possível.

Nós somos a primeira espécie que cria tecnologia. Usamos a tecnologia para ampliar o nosso alcance. Nós não ficamos nas cavernas, e não estamos nos limitando ao planeta. Para tocar jazz com nossos genomas e o universo pode vir a ser o que nós somos. O biólogo Edward O. Wilson estava certo quando disse: "Nós desativamos a seleção natural ... a força que nos fez assim... temos de olhar profundamente dentro de nós mesmos e decidir o que desejamos nos tornar." (ou, como o autor de ficção científica britânico, inventor e futurista Arthur C. Clarke disse, "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica.")

Se o processo da vida é sobre se mover para uma maior complexidade e organização, uma espécie de sublime desdobramento de sistemas cada vez maior de auto-organização, então estamos realmente fazendo muito bem. Certamente existem desafios pela frente, mas há também potencial para profunda grandeza. O Grande Colisor de Hadrons é apenas o exemplo mais recente dos feitos magníficos da humanidade.

Nós não devemos ter medo de empurrar os limites, em vez disso, devemos alavancar nossa ciência e nossa tecnologia, juntamente com nossa criatividade e nossa curiosidade, para resolver os problemas do mundo. Talvez Stewart Brand estava certo: "Somos como deuses e poderiamos ser bom nisso." Afinal, mais poder acarreta mais responsabilidade. 

Assista ao vídeo de Jason sobre o filme que pretende fazer: http://vimeo.com/10939144


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O homem por trás do documentário "Transcendent Man"


Abaixo, excelente entrevista com Barry Ptolemy, o diretor de "Transcendent Man", documentário que retrata a vida e ideias de Raymond Kurzweil (infelizmente, não está legendada). 

O entrevistador de Barry é Jason Silva, um jovem entusiasmado ligado à mídia (e com um aspecto bem latino-americano, eu diria quase brasileiro). Lembro-me que em um dos vídeos curtos no Youtube de Jason que vi há alguns anos ele era criticado por singularitários/transhumanistas mais velhos, que não gostavam de seu jeito espontâneo, de sua "apropriação das ideias" ou da imprecisão com que falava das ideias com que se empolgara (realmente Jason era meio impreciso em algumas definições, mas tinha pegado e expressava bem a ideia geral da coisa). Na época, pensei com meus botões: "Esse cara pode ser muito mais promissor em transmitir as ideias singularitárias/ transhumanistas às massas do que o estilo 'mad scientist' ou cientista maluco religioso que alguns simpatizantes mais velhos da ideia encarnam. E esses caras não percebem isso."

Acho que Jason Silva tem feito um bom trabalho de divulgação e promete ainda mais, como aponta a entrevista abaixo. E também penso que é possível que a geração de jovens adultos de Jason seja aquela em que o transhumanismo e o singularitarismo mais se alastrará em razão da crença de que "se a gente se mobilizar, dará tempo, as chances são grandes". Entre os mais muito mais velhos, é muito mais difícil pensar fora da caixa. A certa altura da vida as racionalizações e justificações da vida e do sofrimento já se cristalizaram no cérebro (isso, claro, para quem simplesmente não se contentou com o arroz com feijão da religião e do esoterismo). "Pensar fora da caixa" equivaleria a se expor à incerteza, ao risco e à ansiedade. Mas, por outro lado, seria mergulhar em uma aventura.

No Twitter, o site de Kurzweil noticiou que Transcendent Man foi lançado no iTunes no Canadá e está entre os "top ten". O lançamento para os EUA (onde o filme também está sendo exibido nos cinemas de um modo especial, com debates e participação de Kurzweil) no iTunes está previsto para primeiro de março (acho que aí poderemos, no Brasil, comprar o filme também -- mas sem legendas).

Até lá, os simpatizantes mais exigentes e dispostos a fazer o melhor uso possível da inteligência já disponível entre as orelhas podem encontrar subsídio para uma opinião crítica sobre o filme nos seguintes artigos (não é bom de inglês? Use o Google Translate e aproveite esta leitura para incrementar sua leitura e vocabulário):
    

De modo geral, pode-se dizer que estes dois artigos, inteligentes e bem escritos se complementam (a empolgação de um é compensada pelo ceticismo do outro).







Meeting of the minds with Transcendent Man director Barry Ptolemy from jason silva on Vimeo.

domingo, 9 de janeiro de 2011

A Fonte da Juventude (matéria da Carta Capital)

A matéria abaixo é um pouco antiga (1999), algumas coisas mudaram desde lá (O Extropy Institute dissolveu-se para juntar-se à Humanity+, Aubrey de Grey nem havia lançado seu SENS ainda e Roy Walford faleceu em 2004 aos 79 anos), mas se trata de matéria tão boa que merece ser divulgada. Texto completo aqui

"Um dia, quando as pessoas estiverem vivendo 300 anos e com plena saúde, comentarão: 'Meu Deus, como é que aqueles bárbaros aceitavam viver apenas 75 anos!'" -- Michael Rose, Universidade da Califórnia em Irvine, autoridade mundial em genética do envelhecimento, à Carta Capital.
A Fonte da Juventude: Seremos todos matusaléns?
"Sim", garante a engenharia genética
POR GIANNI CARTA,
De Los Angeles
Imagine o seguinte ser humano: cérebro de albert Einstein na cabeça de Paul Newman, tronco de Sylvester Stallone e pernas de Pelé. Melhor ainda: esse homem, com capacidade de auto-renovação de qualquer órgão do corpo, viverá séculos. Em breve ele poderá se materializar. Sentado no bar do Beverly Hilton Hotel, em Los Angeles, Max More, 35 anos, doutor em Filosofia e líder do Extropy Institute, confirma: "Seremos capazes de nos autodesenhar para sermos quem quisermos". E acrescenta: "Mas, infelizmente, o mais provável é que minha geração seja a última a morrer".

O Extropy Institute, artéria do transumanismo, movimento que almeja ampliar as capacidades humanas ad infinitum, está sediado na ensolarada Califórnia e tem centenas de afiliados. Munido de um laptop, um motorista de caminhão se comunica com More de várias cidades americanas. Seu interesse não passa de um sonho para todos nós que, num momento ou outro, vivemos nesta Terra: a imortalidade. Mas, se viver para sempre é algo irrealizável - pelo menos por ora -, eis o aforismo que vem à tona em todos os encontros extropianos: "Quanto mais (existirmos), melhor".

Extropianos são gente seriíssima. Segundo os princípios do grupo, eles visam, entre outras coisas, aumentar sua inteligência, vitalidade e capacidade de armazenar informações. À recente conferência Biotech Futures: Challenges Of Life Extension And Genetic Engineering, na Universidade da Califórnia, em São Francisco, organizada pelo Extropy Institute, compareceram 200 pessoas. E não se tratava de um bando de crias da Internet, capaz de ousar somente quando escudado por computadores. Ao contrário. Vários dos articulados participantes encarnam o que há de melhor nas mais diversas áreas do conhecimento e da atividade humanos.

RAPIDEZ. Embora nem todos sejam membros do Extropy Institute, esses engenheiros espaciais, cientistas, filósofos, médicos, advogados, analistas de computadores e cientistas sociais pregam que, por meio da ciência, da tecnologia e da biologia, podemos prolongar a vida. E os mais otimistas - mais visionários? - acreditam que um dia seremos todos matusaléns, numa alusão ao patriarca hebreu que, antes do Dilúvio, teria vivido 969 anos.


O que está claro é o seguinte: num futuro muito próximo, haverá mudanças que pensávamos possíveis somente em filmes de ficção científica. Na verdade, estamos nos dando conta de que, pouco a pouco, avanços tecnológicos não nos deixarão mais de queixo caído. O motivo? Nunca, no curso da história do homem, novidades médicas, tecnológicas e científicas aconteceram com a rapidez atual. Segundo Ray Kurzweil, presidente da Kurzweil Technologies Inc., o processo evolucionário está em constante aceleração porque se apóia em descobrimentos do passado.

 
Portanto, o ritmo de inovações tecnológicas só tende a aumentar.

Leia (e, se é simpatizante da causa, que tal divulgá-lo?) o
texto completo aqui.

sábado, 20 de novembro de 2010

Transhumanismo é tema de colóquio na Universidade Federal de Santa Maria

Infelizmente não divulgamos aqui a tempo... mas, pela importância, vale a pena registrar o evento na UFSM (RS). 


Transhumanismo é tema de colóquio nesta sexta-feira 


Planetário da Universidade Federal de Santa Maria, RS.



"O trabalho desenvolvido por Pearce é considerado 'de ponta' em universidades como Oxford, entretanto desconhecido no Brasil. Nesse caso, Santa Maria é sede de um evento histórico para pesquisadores das ciências sociais, humanas e naturais" (fonte: Universidade Federal de Santa Maria)


O curso de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) apresenta o 3º Colóquio de Ética e Ética Aplicada com o tema: evolução e transumanismo. O transumanismo pode ser visto como o uso das tecnologias latentes para o aperfeiçoamento do ser humano de maneira cognitiva, genética e moral. Tem como fato a evolução das espécies e seleção natural (darwinismo), desenvolvendo uma necessidade de posição do homem frente à construção do modelo transumanista e de um estágio pós- humano.



Além das apresentações acadêmicas nacionais, a principal atração do colóquio é o filósofo inglês David Pearce (BLTC Research – Brigthon, Inglaterra), pesquisador ícone no assunto.

David Pearce, que permanece em Santa Maria até amanhã, ministra palestra nesta sexta-feira, às 10h45min, sobre Projeto Abolicionista. O trabalho desenvolvido por Pearce é considerado “de ponta” em universidades como Oxford, entretanto desconhecido no Brasil. Nesse caso, Santa Maria é sede de um evento histórico para pesquisadores das ciências sociais, humanas e naturais.

O professor doutor Ricardo Bins Di Napoli é o responsável pelos estudos em ética na UFSM. O 3º Colóquio de Ética e Ética Aplicada, que iniciou ontem, dia 17, segue até amanhã, 19 de novembro, das 8h45min às 12h e das 14h às 17h30min, no Centro de Ciências Sociais e Humanas (prédio 74) da UFSM.
Mais informações com Pablo Rolim pablo.rolim@hotmail.com do diretório acadêmico da filosofia DaFil ou com Gabriel Garmêndia garmendia_gabriel@yahoo.com.br, acadêmico pesquisador em ética aplicada.

Programação do evento:
* 19 de novembro, sexta-feira:
Turno da manhã
8h45min: Recepção e Abertura
9h: Vídeo-conferência ou Web-conferência.
Tema: Is conscientious objection in medicine morally justifiable?
Palestrante: PhD. Student Francesca Minerva (Università di Bologna)
10h15min: Debate
10h30min: Intervalo (Coffee Break)
10h45min: Mini-curso presencial.
Tema: Projeto Abolicionista (III)
Palestrante: Sr. David Pearce (BLTC Research – Brigthon, Inglaterra)
11h45min: Debate
12h: Encerramento das Atividades Turno Manhã
Turno Tarde
14h: Vídeo - Conferência
Tema: Desafios do transumanismo a uma concepção naturalista sobre a normatividade.
Palestrante: Prof. Dr. Marco Antonio de Azevedo (UNISINOS)
15h30min: Intervalo
15h45min: Mesa Redonda de Encerramento.
Tema: Evolução, Genética e Transumanismo.
Palestrantes: professores Dr. Élgion, Dra. Lia Reiniger; e Ursula Matte (UFRGS).
Coordenador da mesa: professor Dr. Noeli Dutra Rossatto (UFSM)
17h15min: Debate
17h15min: Encerramento das Atividades Turno Tarde

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Transhumanismo no horário nobre da TV

Episório da popular série "The Big Bang Theory" ("The Cruciferous Vegetable Amplification") leva ideias transhumanistas para o grande público

Sheldon tentanto estimar a propabilidade de viver o bastante para presenciar a Singularidade. No quadro, o famoso Teorema de Bayes (ferramenta estatística também utilizada em Inteligência Artificial)


Sites transhumanistas comemoram a performance cômica de Sheldon no segundo epiódio da quarta temporada de "The Big Bang Theory" ("The Cruciferous Vegetable Amplification"):
"Sheldon is a transhumanist!
Sure, these ideas are all portrayed as bizarre and ridiculous, but that’s because Sheldon is the nerd of the group. But that’s okay. If The Big Bang Theory has demonstrated anything, it’s how quickly and easily nerdy ideas can become mainstream. Stay tuned."

Imortalidade, Singularidade, “Upload” da consciência:
No trecho inicial do episódio, Sheldon fala rapidamente sobre a Singularidade, misturando o termo com a ideia (que é associada, mas são sinônima) de “upload” da consciência, um dos meios que supostamente poderiam levar as pessoas à imortalidade. Há uma imprecisão quanto à data estimada para a Singularidade, já que a previsão mais comumente divulgada estima que ela deve ocorrer por volta de 2045 (é a data prevista por seu maior pregador, Raymond Kurzweil. Aqui, sua explicacao: http://en.wikipedia.org/wiki/Predictions_made_by_Raymond_Kurzweil#2045:_The_Singularity ). Eis o diálogo:


Sheldon: Estou tentando determinar quando morrerei.
Leonard: Muitas pessoas estão pesquisando isso.
Leonard: O que é tudo isso? [apontando para uma série de paineis com desenhos]
Sheldon: Meu histórico familiar. Herança de longevidade, propensão a doenças, etc.
[...]
Sheldon: tenho no máximo mais 60 anos.
Leonard: Tudo isso?
Sheldon: Só me leva até aqui. Preciso chegar até aqui.
Leonard: O que tem aí?
Sheldon: Uma estimativa preliminar da singularidade, quando o homem poderá
transferir a consciência para máquinas e alcançar a imortalidade.
Leonard: Então, está chateado por perder a oportunidade de ser tornar
algum tipo de robô bizarro?
Sheldon: Desse tanto.
Leonard: Que azar. Quer ovos?
Sheldon: Você não entende, Leonard. Vou perder tanta coisa... A teoria do campo unificado, fusão a frio, o cachorrolvo.
Leonard: O que é um cachorrolvo?
Sheldon: É um híbrido de cão e polvo, melhor amigo do homem no mar.
Leonard: Tem alguém trabalhando nisso?
Sheldon: Eu iria trabalhar. Planejei me dar de presente no meu aniversário de 300 anos.
[…]

Medicina da Imortalidade de Raymond Kurzweil e Terry Grosman
Neste trecho, Sheldon faz indiretamente referência à dieta da longevidade popularizada no Livro “A Medicina da Imortalidade”  (em inglês, “Fantastic Voyage: How to Live Long to Live Forever”) de Raymond Kurzweil e Terry Grosman. Eliminação de carboidratos, consumo de hortaliças e a prática diária de exercícios físicos -- tudo o que Sheldon resolveu fazer -- estão entre as principais recomendações (suplementos vitamínicos e minerais,consumo de chá verdade, etc. também fazem parte deste estilo de vida).

Sheldon: Não vou comer pizza hoje.
Penny: Mas é quinta. Quinta é dia de pizza.
Sheldon: Não para mim. Quinta agora é a Noite dos Vegetais Crucíferos. A escolha de hoje foi couve-de-bruxelas.
Howard: Sério? Está mudando o calendário Sheldoniano?
Sheldon: Um pequeno preço a se pagar.
Penny: Pelo quê?
Leonard: Não pergunte!
Penny: Desculpa, desculpa.
Sheldon: Para poder viver o suficiente para fundir minha consciência com a cibernética, tenho que mudar minha dieta.
Penny: Por cibernética, você quer dizer robôs?
Sheldon: Correto.
Penny: Você quer se transformar em um robô?
Sheldon: Essencialmente, sim.
Sheldon: Estou planejando começar um regime de exercícios desenvolvido para fortalecer o sistema cardiovascular.

Sheldonbot
Aqui, mais uma referência aos transhumanistas/singularitários. O SheldonBot é inegavelmente uma paródia do BrinBot (apelido dado ao dispositivo móvel de presença virtual utilizado por Sergey Brin, co-fundador do Google, em uma sessão na Singularity University). Eis o vídeo do BrinBot: http://video.nytimes.com/video/2010/06/12/business/1247468032243/the-brinbot.html

Sheldon: Saudações, amigos.
--Saudações, seja lá o que você for.
Sheldon: Sou um dispositivo móvel de presença virtual. Eventos recentes me demonstraram que meu corpo é muito frágil para aguentar as imprevisibilidades do mundo. Até a época que possa transferir minha consciência, eu permanecerei num local seguro e vou interagir com o mundo dessa forma. […] Pode parecer meio estranho no começo, mas com o tempo se acostumarão a lidar comigo desse jeito.
– Honestamente, não vejo muita diferença.
Sheldon: Obrigado. Era o que eu queria.

Dito isto, haveria motivo para comemorar esta rápida e histriônica performance de um gênio maluco transhumanista, Dr. Sheldon Cooper?

No início pensei que não, que não se deveria dar tanta importância a esta forma de divulgação que mais se aproxima da ridicularização. E escrevi um comentário crítico no site do Kurzweil demonstrando meu desapontamento.

Pensando melhor, no entanto, acho que ela foi positiva (e bem melhor do que as representações distópicas e maçantes sobre o futuro; pintar o futuro como uma fossa já encheu minha paciência) . Por quê?


Porque "qualquer verdade passa por três estágios: Primeiro, é ridicularizada. Segundo, é violentamente combatida. Terceiro, é aceita como óbvia e evidente." (Arthur Schopenhauer). Estamos passando para o segundo estágio. 

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

No futuro haverá um novo tipo de religião baseada na engenharia?

Haverá no futuro um novo tipo de religião, baseada na  ciência e na engenharia? O que seria isso? (que, aliás, será o tema desse blog)


Marcelo Gleiser escreveu na Folha de S. Paulo: "Está na hora de irmos em frente e deixar para trás o desgastado embate entre a ciência e a religião, que já não rende nada. É preciso encontrarmos um novo rumo, ir além da polarização linear que vem caracterizando as discussões do papel da fé e da razão na vida das pessoas por mais de cem anos."

Gleiser propõe como saída a busca de valores universais, como a defesa da vida, mas o próprio cientista levanta o forte contra-argumento do relativismo cultural (para o fundamentalismo religioso, a vida pode não ter qualquer importância comparada ao além-vida). Alternativamente, há quem defenda algo bem mais radical ou inovador e que se aproxima, digamos, de um "tertium genus" entre religião e ciência.


EMBATE
O embate entre ciência e religião foi um corolário do Iluminismo (embora, como se sabe, os filósofos iluministas geralmente não tinham se dado conta disso e supunham com tranquilidade a existência de um Deus; o cisma, em um primeiro momento, era com  os abusos e safadezas da Igreja, não com Deus em si). Já no século XIX, o cenário do conflito Fé X Ciência parecia montado (destaque para Darwin) e, no decorrer no século XX, totalmente insuperável, com a ciência (talvez, principalmente, a biologia e a cosmologia) avançando e destronando a fé, que foi recuando, humilhada e  perigosamente ressentida.


Existiram, durante o século XX, alguns movimentos que tentaram reconciliar o aparentemente irreconciliável. Se para Freud a religião era algo pateticamente infantil, Jung tentou resgatar o status da fé e das manifestações místicas, capitalizando, para isso, seu grande prestígio intelectual. Mas não chegou a fazer um movimento.


Rhine tentou estudar, assegurando-se das garantias do rigor acadêmico, os fenômenos parapsicológicos e Stanislav Grof, os estados alterados da consciência (embora Grof tivesse ficado cada vez menos rigoroso, aparentemente perdendo sua credibilidade no meio científico). Em ambos os casos (bem como vários outros), tais pesquisas geraram expectativas, entusiasmos, mas os resultados foram dúbios ou irrelevantes. Nada que garantisse a certeza tranquilizadora, que tantos anseiam, da existência de espíritos e planos espirituais e -- claro, isso é o que importa -- o sossego  existencial diante da morte.


Houve ainda uma tentativa de se aproximar a ciência das ricas visões de mundo orientais. Foi o que Fritjof Capra (autor do famoso "O Tao da física") tentou empreender. Mas, para os mais exigentes, embora fosse um trabalho bonito, não era convincente o bastante e também não chegou a fazer um movimento ou alterar um paradigma.


Nesta primeira década do século XXI o desconforto da discórdia entre ciência e religião parece ter aumentado de intensidade -- talvez até porque o novo século foi marcado por um incidente (o 11 de setembro) que, de certa forma, parecia ter lançado um mundo de progresso tecnológico crescente em meio a uma cruzada na Idade Média, com mouros e cristãos se enfrentando por petróleo, fé e complexo de inferioridade. Radicais religiosos governam boa parte do mundo (e não só no mundo islâmico, nos EUA os presidentes frequentemente invocam Deus em seus argumentos). 

Para não assistirem passivamente o que consideram o risco do naufrágio da razão, ativistas ateus, tais como grande e influente biólogo Richard Dawkins e o jornalista Christopher Hitchens jogam lenha na fogueira da discórdia, disparando artilharia pesada sobre o que consideram ser a principal raiz dos males da sociedade: a religião (para moderar este ímpeto ateu, talvez seja prudente relembrar que a religião, o "ópio do povo", foi suprimida da URSS e outros países comunistas sem que, em virtude disso, tenha emergido ali um novo iluminiso ou luzes de qualquer natureza). Gosto muito de Dawkins, para mim uma espécie de Faraday ou Lavoisier vivo, mas a estratégia de tirar a religião e Deus das pessoas sem colocar nada no lugar me parece que jamais vai dar muito resultado.


CONCILIAÇÃO NO XXI
No meio desse fogo cruzado, não faltam os bem intencionados que tentam conciliar, de uma maneira meio barata (destinada ao consumo e conforto das massas), ciência e fé. É o caso Dan Brown e seus "Anjos e Demônios". Ou, ainda, do documentário "Quem somos nós?". Sobre este último, gostaria de dizer uma ou duas palavras.
Filmes como "Quem somos nós?" revelam um aspecto interessante sobre o nosso tempo: a credibilidade do saber científico de um lado e o vazio existencial e espiritual da ciência, de outro. O filme é montado de forma a reunir relatos e opiniões  (algumas, apenas) até respeitáveis de um ou outro cientista razoável (ao que me lembro) com outras (a maioria) ideias completamente esdrúxulas e pseudocientíficas que, é fácil perceber, usam e abusam do linguajar científico. O filme também apresenta uma postura muito mais confirmatória do que investigativa.
 
Essas pessoas, pois, se utilizam das fortes credenciais da ciência (a menção a universidades às vezes famosas, títulos acadêmicos,  o  linguajar acadêmico meio chato e recheado de palavras técnicas etc.) para tentar emprestar, por extensão, credibilidade a ideias sem qualquer comprovação científica (como a risível ideia de que o cristal de gelo formado em uma garrafa de água com o rótulo "Hitler" seria um cristal feio e sujo).

Tais explicações podem ser satisfatórias para leigos completos, mas, para aqueles que empregarem um mínimo trabalho de pesquisa, são insustentáveis. E o saldo disso é que tais tentativas de ligar ciência e religião não só não superam o fosso entre as duas como talvez o aprofundem em razão do sentimento de decepção que surge quando se toma consciência do embuste. (para quem quiser aprofundar os argumentos contra "Quem somos nós?" e "O Segredo", recomendo os textos: "A difícil condição humana - Por que o esoterismo pesudocientífico faz tanto sucesso?" e "Esoterismo Quântico", ambos de Gleiser)

UM NOVO TIPO DE RELIGIÃO

Pois bem. Existe alguma outra alternativa de conciliação entre ciência e religião? Por que, afinal de contas, tentar conciliar as duas coisas? Ao invés de desenganá-los, não seria melhor deixar os crentes viverem felizes com suas crenças (mas sem bombas)? Ou, do ponto de vista do crente: deixar esses cientistas malucos queimarem no fogo do inferno? (ok, o assunto é meio sério, mas me lembrei de um trecho deste videoclip)

Do ponto de vista científico, a religião não seria apenas um um corpo de mentiras fossilizadas habilmente utilizadas para explorar as pessoas? E, para os religiosos, a ciência não seria um índice da arrogância do homem, que quer brincar de deus?

Minha opinião é a de que, embora seja o melhor do que dispomos, a ciência é insuficiente para preencher o vazio e justificar a dor experimentada pela maioria das pessoas. A ciência, pelo menos entre as pessoas mais instruídas (Freud observou há mais de um século "...as camadas superiores da sociedade 'não mais acreditam em Deus'"), metodicamente erodiu os mitos e as crenças e, com isso, uma série de fundamentos que explicavam e justificavam a existência humana desde tempos primordiais, confortando e transmitindo segurança. 

Embora seja responsável por este vazio, a ciência não o preencheu com nada. Nem é sua finalidade fazê-lo (mas, se essa finalidade for da filosofia, ela também não fez um bom trabalho, a não ser para os filósofos acadêmicos). Mas e a arte, o sexo e o vício? 


Vivemos um momento histórico em que se proclamou o "fim da arte e da estética", declaração no mínimo controversa. Mas muito menos controversa é a percepção de que temos os sentidos embotados pela grande profusão de tendências e correntes artísticas, uma sucedendo a outra, cada uma trazendo já morta a promessa de redenção. Seguindo o caminho da especialização, a literatura, a música, a pintura, parece que tudo meio reduzido a guetos ou fã clubes, sem aquele apelo incontestável às multidões que uma obra de arte fazia no passado. Hoje, por mais desesperadamente experimental que uma tendência se mostre, ela é blasé. 
 
Já o vício e o sexo são poderosos instrumentos de atuação  direta no eixo dor-prazer. No entanto, seguir o caminho do vício é queimar a vela dos dois lados -- e ter que pagar uma conta alta no final. O sexo, a grande pilastra de nossas existências, poderia resolver nossos problemas se fôssemos ou nos tornássemos obongos. Acho que a vanguarda cultural na década de 1960 esperaria mais da moral e dos costumes em 2010. De qualquer forma, por mais forte que seja o instinto, o córtex humano talvez seja grande demais para se satisfazer apenas com ele.
Na falta de candidato melhor, é a crença no sobrenatural que se oferece a preencher esse vasto campo humano de expectativas, anseios, medos e necessidade de conforto: desde o fundamentalismo religioso para os fanáticos, passando pelo esoterismo tipo autoajuda de livraria de Shopping para a classe-média consumista até a atmosfera elegante, psicologicamente confortável e socialmente prestigiada de alguns seguimentos das religiões tradicionais (a imagem que me vem à mente é a do apresentador da BBC Robert Winston em uma sinagoga). 

Claro que, para quem tem estômago forete e não topa nenhuma das alternativas acima, o ateísmo oferece uma alternativa sóbria e racional:


"Nós [ateus] não nos baseamos unicamente na ciência e na razão, porque esses são fatores mais necessários que suficientes, mas desconfiamos de tudo o que contradiga a ciência ou afronte a razão. Podemos diferir em muitas coisas, mas respeitamos a livre investigação, a mente aberta e a busca do valor das idéias. Não sustentamos nossas convicções de forma dogmática: a divergência entre o professor Stephen Jay Gould e o professor Richard Dawkins acerca da "evolução pontual" e das lacunas na teoria pós-darwinista é bastante grande e igualmente profunda, mas iremos solucioná-la com base nas provas e no raciocínio, não por excomunhão mútua. (...) Não somos imunes à sedução do encanto, do mistério e do assombro: temos a música, a arte e a literatura, e achamos que os sérios dilemas éticos são mais bem abordados por Shakespeare, Tolstoi, Schiller, Dostoievski e George Eliot do que pelas histórias morais míticas dos livros sagrados. (...) Estamos resignados a viver apenas uma vez, a não ser por intermédio de nossos filhos, para os quais estamos muito felizes de perceber que devemos abrir caminho e ceder lugar. Nós especulamos que seria pelo menos possível que, assim que as pessoas aceitassem o fato de que suas vidas são curtas e duras, se comportassem melhor com os outros, e não pior. Acreditamos com grande dose de certeza que é possível levar uma vida ética sem religião." (Christopher Hitchens no livro "Deus não é grande").


O que parece difícil, no entanto, é estender a resignação de "viver apenas uma vez" e a crença de que é possível (para os não biólogos) acreditar que se atinge uma meia imortalidade "por intermédio de nossos filhos, para os quais estamos muito felizes de perceber que devemos abrir caminho e ceder lugar" (afinal, nossa individualidade não se confunde com nossos genes e se nem gêmeos idênticos são, evidentemente, a mesma pessoa, quanto menos nossos filhos, que tem 50% a menos de identidade genética e surgem em outra época).


E, aqui, finalmente chegamos ao assunto deste post inicial: existe alternativa para quem não quer seguir nenhum dos caminhos anteriores? É possível, conciliar, de um lado, a ciência como recurso de conhecimento e alteração do mundo, e, de outro, cultivar elementos positivos da religião, tais como a transcendência das limitações de um corpo biológico, a persistência de nossa consciência e identidade, a ideia de aprimoramento e evolução interior, a existência (ainda que futura) de planos ou seres de inteligência superiores à nossa?


E, a resposta, surpreendentemente parece ser positiva. De fato, um movimento recente, porém crescente e que começa a chamar a atenção da mídia internacional procura alcançar exatamente esses objetivos. De certa forma, é como se, para estas pessoas, as ideias religiosas e mágicas de todos os tempos, que refletem as mais profundas aspirações e desconfortos da "difícil condição humana" (principalmente a morte e a ideia de limitação, o hiato entre nossos sonhos e nossos condicionantes) são tão boas que merecem ser perseguidas e criadas pelo homem. 

É um movimento de pessoas que se recusam a endossar o sedativo que são as crenças religiosas. Mas, também, rejeitam a resignarem-se diante da dureza da condição humana (como pregam os ateus "estoicos" – “estoicos” para diferenciar, já que muitos deste movimento também são ateus ou agnósticos). Procuram, ao contrário, adaptar a dureza do mundo aos sonhos do homem e não os sonhos do homem à dureza do mundo. Aplicam-se a estas pessoas a definição de Jorge Luis Borges sobre a ficção científica de H. G. Wells: é a imaginação que aceita “o prodigioso, sempre que sua raiz fosse científica, não sobrenatural”.  


Cada tipo de personalidade pode se enquadrar melhor em um dos recursos existenciais acima esboçados. Alguém pode transacionar com sua própria consciência, aceitando os dogmas de uma religião tradicional para evitar o desconforto psicológico de ter que passar a limpo as grandes questões da existência (e, é claro, que um bom número nem chegará ao ponto da dúvida ou nem terá consciência desta transação). Outros, talvez mais abertos e sinceros, podem simplesmente viver a vida perfeitamente bem e tranquilos com a ideia de finitude e morte, racionalizando que o melhor caminho é a resignação. E outros, finalmente, podem considerar a solução dos ateus meio chata, pois, já que não há nada a perder, talvez fosse melhor (mais emocionante e criativo) fazer uma aventura para tentar transcender a própria condição humana e atingir um estado em que a morte pudesse ser efetivamente uma escolha e não uma fatalidade sobre a qual cabe ao homem resignar-se ou mentir a si próprio.


O movimento em questão é chamado transhumanismo ou singularitarianismo (as expressões não são exatamente sinônimas, mas são bem próximas e ligadas, a distinção fica para outro post). Para quem quiser inteirar-se das principais ideias e pontos de vista favoráveis ao movimento, recomendo as entrevistas abaixo de Raymond Kurzweil, o grande porta-voz do movimento (basta clicar para assistir):

Raymond Kurzweil faz uma análise sobre o futuro da humanidade

No futuro de homem Raymond Kurzweil e máquina serão um só


Termino, por fim, com um trecho de um artigo (intitulado "The First Church of Robotics" e é crítico, aliás) sobre o assunto, publicado no New York Times:


"cientistas da computação [...] são humanos, e são tão apavorados com a condição humana como qualquer um. Nós, a elite técnica, procuramos alguma maneira de pensar que nos dá uma resposta à morte, por exemplo. Isso ajuda a explicar o fascínio de um lugar como a Singularity University. [...]
Todos esses pensamentos sobre consciência e almas estão ligados igualmente à fé, o que sugere algo notável: o que estamos vendo é uma nova religião, expressa através de uma cultura de engenharia."


Com a ressalva de que, a meu ver, não se trata de uma nova religião, mas de um novo tipo de coisa que surge da mistura de religião nos fins e ciência/engenharia nos meios, é este o tema e o ponto de vista que este blog explorará. E o nome Fabuloso Futuro justifica-se, pois, por todas as acepções que o dicionário Houaiss traz do adjetivo fabuloso:


"adj. (1532) 1 que concerne ao legendário, às narrativas criadas pela imaginação <os personagens f. dos irmãos Grimm> 2 que tem características de fábula <os contos algo f. de Murilo Rubião> 3 que se reporta à mitologia <mitos e heróis f.> 4 que se refere a tempos recuados em que história e lenda se confundem <o mundo f. do classicismo greco-romano> 5 que (por suas dimensões) ultrapassa a imaginação <as f. distâncias interestelares> 6 p.metf. que, sendo real, parece imaginário <palácio de suntuosidade f.> 7 p.ext. que tem caráter admirável; incrível <acontecimentos f.> 8 que não é bem conhecido; indistinto, obscuro <dizem que por lá vive um homem com poderes f.> 9 B que é tido como ótimo; excelente, fantástico <comprou um carro f.> "


Como é próprio dos blogs, mais do que primar por um objetivismo jornalístico ou acadêmico, os posts aqui estarão encharcados de opiniões pessoais, como se fossem relatos de uma viagem pessoal, durante a qual, espera-se, encontrar companhia.
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