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domingo, 18 de dezembro de 2011

O jogo da vida: estoicismo como gameficação do viver

“Como manter a mente saudável quando o mundo está doente?”
“Como ser uma boa pessoa quando o mundo é corrupto?”
“Como se manter livre em um mundo que quer nos escravizar?”
“Como ser feliz diante do sofrimento e das ansiedades da vida?”

Essas foram as questões com que os estoicos se deparavam e tentavam solucionar. A solução, para eles, era usar a Razão (já que o traço de nossa natureza que mais nos distingue dos outros animais é a racionalidade) para eliminar as emoções negativas (tristeza, ira, ansiedades etc.) e atingir a felicidade, esta entendida como um estado de bem-estar psicológico constante, uma alegria serena e imperturbável por circunstâncias externas, que se mantém firme e indiferente ao mundo externo (ao contrário da conotação que o adjetivo “estoico” adquiriu com o tempo, os estoicos não defendiam exatamente a eliminação de todas as emoções, mas sim a eliminação das emoções negativas).

O professor Luke Johnson, em seu curso "Practical Philosophy: The Greco-Roman Moralists" ensina que o ponto de partida para os estoicos é ter
“uma mente sadia, estar em posse constante de sua sanidade. Em outras palavras, você tem que começar por ser uma criatura racional.(..) Note que os estóicos davam uma tremenda atenção ao poder da mente de  perceber e moldar a realidade. (...) Você tem que começar por controlar sua própria razão. Se a razão é o seu instrumento de controlar sua vida e bem-aventurança, então você precisa ser capaz de controlar a sua razão. Assim, ele [Sêneca] aconselha seu irmão a libertar sua mente das opressões, porque essa é a única maneira de aprender alguma coisa. Você tem que envolver o mundo com sua mente. No entanto, ele diz, assim como Zeus, assim como os deuses, é preciso puxar a mente para trás de volta e manter o controle sobre ela. Não perca sua mente no mundo.”


Um símbolo estoico moderno, desenhado por Michel Daw enfatizando a racionalidade (espiral de Fibonacci) e a ideia aristotélica da virtude como o "meio de ouro".
Os estoicos dividiam seus estudos em lógica, física e ética. A lógica abrangia o estudo do raciocínio e da lógica formal. Eles se interessavam pela lógica porque entendiam que é preciso saber racioniar corretamente e para isso, dominavam a lógica formal. O estudo da física abrangia as ciências naturais e também explicações metafísicas sobre o Universo. Eles acreditavam que o universo chegaria ao fim em sucessivas conflagrações em que estrelas colidem com estrelas e tudo é destruído e apagado por uma série de incêndios, dando ensejo a novos mundos e a renovação da vida (convenhamos, embora sejam apenas chutes, os estoicos até que chegaram perto da astrofísica moderna).

Mas a ênfase, principalmente entre os romanos, era o estudo da ética, que tinha o objetivo de ensinar o filósofo a se sentir bem (maestria sobre pensamentos e emoções) e a agir bem (praticar as virtudes). Os estoicos defendiam que podemos eliminar nossas emoções negativas controlando a forma como percebemos os fatos e as circunstâncias externas, mesmo quando não podemos alterá-las. Muitas vezes, não há como mudar as circunstâncias externas, mas podemos mudar o julgamento que fazemos delas de modo a não permitir que estas circunstâncias nos façam experimentar sentimentos negativos. É como se os estoicos quisessem criar entre as circunstâncias externas e nosso eu interno uma camada cognitiva protetora capaz de processar primeiro as circunstâncias externas, permitindo ao eu interno desfrutar de bem-estar independentemente do que lhe ocorresse. E é este estado de bem-estar interno e não a satisfação de desejos escravizantes ("quanto mais desejos você tiver, a mais senhores terá de servir") que o verdadeiro filósofo deveria buscar. Esse estado interno é conseguido tanto pelo controle das "percepções" (crenças, julgamentos) quanto pela prática da virtude.

Mas o estoicismo não era uma filosofia centrada apenas no indivíduo ou no individualismo. Para os estoicos, a busca da própria tranquilidade interior não os eximia de cumprirem seus deveres sociais e, por isso, geralmente criticavam os epicuristas: não é possível abandonar os deveres sociais para viver em alegria em companhia apenas dos amigos tocando violão. É preciso cumprir seus deveres sociais e aprender a ser feliz no meio da confusão e dissabores da vida em sociedade -- porém, sem se perturbar com eles. "Começa cada dia por dizer a ti próprio: Hoje vou deparar com a intromissão,
a ingratidão, a insolência, a deslealdade, a má-vontade e o egoísmo — todos devidos à ignorância por parte do ofensor sobre o que é o bem e o mal
." Seria de se esperar um modo de pensar assim em um escravo, a todo momento insultado e humilhado. Mas estas são as palavras do imperador Marco Aurélio, que se notabilizou pela prática do estoicismo.

Sobre os estoicos recai o rótulo de resignados ou passivos diante do mundo. Segundo William B. Irvine, em seu livro “A Guide to the Good Life: the Ancient Art of Stoic Joy” (que recomendo bastante) é um engano pensar que os estoicos seriam defensores do fatalismo e da passividade, já que, na prática, observa-se que os estoicos estavam constantemente envolvidos em asuntos públicos e, na busca do cumprimento do que entendiam ser seus deveres, muitas vezes se sujeitavam a exílios ou receberam a própria pena de morte. Irvine também faz uma releitura bilhante da dicotomia estoica (“há coisas que estão sob nosso controle e coisas que não estão sob nosso controle”) propondo que, na verdade, trata-se de uma tricotomia: “há coisas que estão sob nosso controle, coisas que estão fora do nosso controle e coisas que estão apenas parcialmente sob nosso controle”. Nessa interpretação ou releitura do estoicismo, a resignação estoica teria outro sentido: o de não se consumir com preocupação ou remorso com aquilo que já é passado, nem com aquilo que não está ao seu alcance controlar. Um soldado, por exemplo, não tem controle sobre o desfecho de uma batalha. Não está sob seu controle o número de soldados inimigos, a qualidade das armas inimigas, os acidentes aleatórios no campo de batalha, as condições de tempo etc. Logo, é uma perda de tempo ele deixar-se consumir pela ansiedade em relação ao resultado final da batalha. Os estoicos diriam que lutar bem, usar bem a espada, manter a calma e atenção durante a luta são coisas que estão sob o controle dele e são nessas coisas que ele deve se concentrar. Seria uma espécie de internalização de objetivos, focando sua atenção em tudo aquilo que está sob seu controle.

Outra evidência de que o estoicismo não conduzia à passividade é que seus ideais inspiraram grandes transformações sociais, como a própria reinvenção da república e da democracia no mundo moderno com a Revolução Americana (John Adams, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin  foram leitores e admiradores dos moraralistas greco-romanos, dentre eles, os estoicos).

No Império Romano, onde o estoicismo se tornou bastante popular, era possível encontrar dentre seus praticantes pessoas tão diferentes quanto um escravo (Epiteto), um imperador (Marco Aurélio), um professor (Musônio Rufo/Musonius Rufus), um banqueiro e conselheiro da corte (Sêneca) e um senador (Cícero). Para um estoico, não importava saber quem você era, o que você tinha, onde você nasceu ou mesmo o que você pensava. O que importava era seu modo de agir e a virtude poderia fazer de um escravo (Epiteto) um rei e o vício poderia transformar um Imperador (Calígula) em um escravo -- ou mesmo em uma besta.

Algumas das ideias estoicas soariam conservadoras hoje, como o silêncio em relação à ordem escravocrata (que, aliás, no Brasil perdurou até 1888) e uma moralidade sexual que hoje soa ultrapassada (a corrente mais ascética defendia o sexo somente para reprodução e havia uma reprovação para com o homossexualismo). Por outro lado, defenderam também ideias progressistas para seu tempo: Musônio Rufo, “o sócrates romano”, chegou a defender a educação para as mulheres, argumentando que elas tinham capacidade de aprender a filosofia assim como os homens. Ele também foi um defensor do vegetarianismo. Detalhe: estamos falando de alguém que viveu no século I antes de Cristo.

O estoicismo teve um caráter eclético desde seu surgimento na Grécia e, dentre os romanos, apresentou inúmeras variações. É possível notar uma tendência mais ascética influenciada pelo cinismo (cinismo é outro termo que teve o significado alterado com o tempo, os cínicos eram uma espécie de hippies ascetas da antiguidade) e uma tendência mais palatável aos dias de hoje que chega a admirar elementos do epicurismo, a tendência de Sêneca (Thomas Jefferson também parece ter proposto uma mistura de estoicismo e epicurismo). Esse ecletismo e apreciação da racionalidade é um traço interessante porque permite que você mesmo, no exercício de sua própria “faculdade mestra” faça sua própria leitura do estoicismo. Na minha leitura do estoicismo, por exemplo, não há lugar para a crença (comum nos estoicos antigos) em um Deus que governa o mundo por sua Providência punindo os maus e premiando os bons, nem a crença na imortalidade da alma (a não ser pela tecnologia futura). Mas pensar no ideal da Razão (não como imperfeitamente se manifesta em nossas mentes, mas uma razão abstratamente ou idealmente considerada) e pensar na Natureza ou Deus (prefiro evitar essa palavra) como a grandiosidade (fria e indiferente aos assuntos humanos, é verdade) do Cosmos é uma estratégia cognitiva para mim válida e interessante para nos ajudar a melhor perceber a insignificância dos problemas e angústias dos seres humanos, dos pínguins e das formigas da pia da cozinha em uma escala cósmica. E também para evitar o risco de substituir a lacuna de Deus pelo próprio ego.

A filosofia, para os estoicos, era uma terapia ou um remédio para alma. Mas essa terapia não funcionava com palavras: exigia treinamento e prática constante. Um aprendiz estoico deveria trabalhar sua mente com o mesmo rigor com que um atleta trabalha seu corpo. O papel do filósofo estoico era o de um coaching. Por conta disso, eles desenvolviam técnicas para moldar hábitos mentais necessários ao domínio sobre pensamentos e emoções negativas. Diferentemente da filosofia e da atmosfera intelectual niilista e pessimista do século XX e da pós-modernidade, para os estoicos a filosofia estava a serviço da vida (boa). Sim, o mundo pode ser doente, alienante, cheio de desgraças, mas você pode desfrutar da tranquilidade da alma apesar de tudo isso. Ao contrário da literatura de autoajuda (com raras exceções) e das religiões, a filosofia estoica era sofisticada e inteligente (e não queria só colocar a mão no seu bolso). Você não precisava jogar sua inteligência no lixo, nem virar as costas à realidade dura do mundo para ser feliz. Que tradição, que tecnologia moral e psicológica!

A influência do estoicismo sobre a psicologia moderna é inegável. Albert Ellis, um dos criadores da terapia comportamental cognitiva e apelidado de "filósofo estoico com boca de marujo" (por conta dos palavrões) disse que sua inspiração para a TCC foi a frase de Epiteto de que "não são os eventos, mas nossas opiniões sobre os eventos que nos causam sofrimento." Algumas das técnicas estoicas estão mais vivas do que nunca na moderna terapia comportamental cognitiva de Albert Ellis e Aaron Beck. E, ao contrário da desgastada psicanálise, a eficácia da terapia comportamental cognitiva é suportada por muita evidência. Há quem pense também que o movimento da psicologia positiva (Mihaly Csikszentmihalyi, Martin Seligman etc.) desempenharia, hoje, um papel semelhante ao do estoicismo na antiguidade.

Mas uma grande vantagem de se estudar o estoicismo ao invés de somente as técnicas de terapia comportamental cognitiva ou psicologia positiva é poder se beneficiar de uma enorme quantidade de ricas reflexões sobre a arte de viver e, principalmente, poder compartilhar alguns dos valores (e não só técnicas) dos estoicos. Usufruir de mais de séculos de reflexão filosófica, “ouvir a voz” de Sêneca ou Marco Aurélio fornece também um sentimento de conexão com o passado.


"Um homem por inteiro", de Tom Wolf: o romance que despertou um interesse recente pelo estoicismo

Um interesse recente pelo estoicismo foi despertado a partir da publicação do livro “Um homem por inteiro”, de Tom Wolfe. O próprio William B. Irvine, autor de “A Guide to Good Life...", outro livro que tem agradado bastante os interessados no assunto, informa que sua curiosidade surgiu com a leitura do livro de Wolfe. Para quem quiser se informar melhor sobre o assunto, portanto, esses dois livros parecem ser os mais recomendados (o livro de William B. Irvine, apesar de escrito em inglês, tem uma linguagem simples e agradável).

Para usar um termo da moda, eu arriscaria dizer que o estoicismo é uma forma de “gameficação” da própria vida: é aprender a usar a mente para jogar bem o jogo da vida. Em um post futuro vou expor meu próprio sincretismo entre o estoicismo (da tendência que admira alguma coisa do Epicurismo) e o transhumanismo.

O estoicismo, espero ter deixado claro, não tem nada a ver com tristeza e sofrimento, mas com alegria e até bom humor. O bom humor sempre foi utilizado pelos estoicos como mais um recurso para jogar o jogo da vida. Catão, por exemplo, um político e cônsul que lutou pela República Romana, ao receber uma cúspida na face, usou o bom humor como resposta ao seu ofensor: "Vou jurar para qualquer um, Lentulus, que as pessoas estão erradas ao dizerem que você não sabe usar a boca."


Concluo este post com um exemplo extremo, belo e bem humorado da prática do estoicismo qe nos é contado por Luke Johnson, sobre Sêneca descrevendo os últimos dias de vida de Júlio Canus, filósofo estoico condenado à morte por Calígula.

“Ele [Júlio Canus] sabia que ia ser executado e Sêneca narra que Júlio passou os últimos 10 dias antes da data marcada para sua execução apenas jogando -- brilhantemente -- xadrez. Quando chegou o dia e o centurião veio para levá-lo para ser executado, Júlio fez sua última jogada e contou seus peões. Então, disse ao centurião: ‘Eu quero que você se lembre que eu estava ganhando a partida. Não deixe o outro jogador mentir dizendo que ele estava ganhando!’ Sêneca observa que ele [Júlio Canus] não estava apenas jogando xadrez, mas sim jogando o próprio jogo da vida, mostrando o que significava ser um filósofo, que é ser capaz de ter esse tipo de distanciamento em face da própria morte. Quando Júlio caminhava para ser executado, seu antigo professor de filosofia o acompanhou no percurso e lhe perguntou no que ele estava pensando. Júlio respondeu que estava pensando sobre a imortalidade da alma, que sempre foi fascinado em saber se a alma é consciente no momento da morte. E ele queria investigar esse assunto no momento de sua própria morte. Seneca conclui dizendo que ninguém ‘jogou filosofia’ (desempenhou o papel de filósofo) a tal extremo como aquele homem. Então é isso que a filosofia é capaz de fazer, ensinar a lidar com todas as voltas e reviravoltas da vida, mesmo sem mudá-las. Júlio Canus não podia fazer nada a respeito de sua própria execução, mas ele trouxe a execução para seu próprio jogo, assim como no xadrez. E, fazendo isso, ele se recusou a fazer o jogo do tirano [Calígula] e conseguiu manter-se livre, mesmo em face de sua própria morte.”

Para saber mais:
(ao invés de ir direto para o texto dos estoicos, acho melhor ganhar uma visão geral do assunto com o livro de Irvine)

Tom Wolfe, Um homem por inteiro
William B. Irvine,  A Guide to the Good Life: the Ancient Art of Stoic Joy.
Marco Aurélio, Meditações.
Sêneca, Da Tranquilidade da Alma, Da felicidade etc.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Uma crença fatal

A maioria das pessoas costuma lidar com a morte com crenças religiosas ("há existência após a morte, que é só uma passagem" ou "há uma energia espiritual que persiste após a morte física" etc.). Embora seja menos criticado, por ser uma racionalização mais inteligente, alguns ateus mais ligados às ciências naturais (como biólogos e físicos) também procuram adocicar a morte com ideias que para mim soam implausíveis, algo como "sobrevivemos parcialmente por meio de nossos filhos, que herdam 50% de nossos genes" ou "somos poeiras das estrelas, não morremos, a matéria apenas sofre uma transformação".
Ora, quem tem um irmão gêmeo ou conhece-os, sabe que um não é o outro, embora compartilhem 100% os genes e muito da história de vida, quanto menos um filho. E quanto à ideia de que a matéria de que somos feitos sobrevive, considere: se o Museu do Louvre pegasse fogo e só restassem cinzas de seu prédio e suas peças de arte, ainda assim não haveria motivos para ficarmos tristes? Afinal, as peças de arte eram feitas daquelas cinzas... Convenhamos, este raciocínio não serve para justificar nem a perda da Monalisa, quanto mais de uma pessoa de carne e osso como foi Leonardo da Vinci ou você é. 

Alguns ateus mais ligados às ciências humanas (mais intelectuais e menos cientistas) não costumam se satisfazer com estas explicações naturais e, por sinal, parecem não se satisfazerem com qualquer outra coisa. Mas, com o perdão do estereótipo e de todas as numerosas exceções, esse tipo costuma lançar mão de uma mistura encantada de pessimismo, boemia, sexo casual e tragédia pessoal para tocar à frente a “absurda existência humana”.

Qual é o problema que vejo nestas visões? Todas elas levam as pessoas à inércia em relação ao problema da morte, seja considerando que a morte é só uma passagem para um paraíso imaginário, que a morte não existe ou que ela existe e, por conta disso, a existência humana é irremediavelmente absurda e é melhor largar o assunto pra lá.

Daí surge minha simpatia pelas ideias dos engenheiros e cientistas radicalmente otimistas e ousados, no estilo dos TEDsters ou transhumanistas. Essas pessoas, ao mesmo tempo em que são honestas o bastante para reconhecerem o problema, propõem uma solução positiva: não vamos brincar de esconde-esconde; vamos começar a pôr a mão na massa e, quem sabe assim, pelo menos nossos netos terão sorte o bastante para levar uma existência menos sombria e, quem não se der bem a tempo, fica criopreservado, que parece ser bem mais prudente que cremado.

Fora essas poucas pessoas de imaginação ousada, o restante das pessoas prefere simplesmente aceitar docilmente a morte a pensar claramente sobre o assunto, o que para mim é um paradoxo: na busca do conforto psicológico diante do medo da morte, as pessoas preferem se deixarem morrer, sem nem ao menos considerar a possibilidade de algumas soluções técnicas que começam a ser vislumbradas atualmente (como a criônica e o início das pesquisas anti-envelhecimento). Eu vejo isso como uma piada ou pegadinha existencial: a melhor forma que a maioria dos seres humanos encontra para lidar com a morte, atualmente aumenta suas chances de morrerem, da mesma forma como a gordura adiposa, que foi evolutivamente útil em eras passadas, atualmente mata as pessoas obesas. Como, disparadamente, o recurso mais utilizado é algum tipo de crença na existência após a morte (espiritismo, esoterismo, misticismo, espititualismo etc. -- já que ninguém quer mais usar a palavra "religião"), acho que não é de todo absurdo dizer que a crença na existência após a morte é uma ideia que, de certa forma, mata. Uma crença mortal. “Pesquisas anti-envelhecimento? Criônica? Isso é uma bobagem, meu lugar é no céu, junto de Deus e suas hordas celestiais.”

Mas acho que essa é uma piada lúgubre, de profundo mal gosto. Muitas pessoas maravilhosamente boas se voltam para as religiões com as melhores das intenções e com sinceridade. Como insetos que são torrados nas lâmpadas dos postes, as pessoas procuram a crença no sobrenatural atrás de vida, certezas sobre como viver a vida e segurança para uma existência espiritual após a morte. Mas tudo o que recebem por isso é a morte embrulhada no papel da ignorância. Isso me faz lembrar um versículo bíblico, em que Jesus teria indagado: "E qual o pai dentre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? Ou, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião?". 



Pequeno documentário sobre o estoicismo

Acho que essa visão explica um pouco a motivação de se criar um blog para divulgar essas ideias a quem possa interessar. Mas a dúvida que queria expor, é a seguinte: a consequência de não se acreditar em Deus ou na vida após a morte e nem se utilizar racionalizações para lidar com a morte é uma vida infeliz, dominada pelo pessimismo e pela ansiedade? E minha resposta é um contundente NÃO. Você não precisa se valer de crendices como a existência após a morte, nem precisa dar nó em pingo d'água para se convencer de que não existe problema algum com a morte. Podemos levar uma vida feliz apesar de tudo isso porque podemos, em larga medida, assumir o controle sobre o que sentimos. Podemos, aliás, escolher ficar felizes pelo conhecimento destes fatos, por vivermos nesta época e termos melhores chances de lidarmos com esses problemas do que qualquer outra geração anterior. Pense em alguém que tivesse essas mesmas ideias, só que em 1911. Esta pessoa, "exilada" no início do século XX, ainda estaria a 100 anos da ciência atual. Só isso já é para mim motivo de sobra para felicidade legítima. 
 
Acho importante buscarmos a felicidade e cultivarmos o otimismo em nossas vidas. Só que acho importante fazer isso sem alimentar a inação, a passividade, já que o mais importante é que cada um se engaje de alguma forma, dê sua contribuição para as causas que o comovem. Agora, se, finalmente, mesmo depois de tudo isso, chegar o momento do "apagar das luzes", podemos enfrentar esse momento com coragem e serenidade, sabendo que fizemos a nossa parte, fizemos o melhor possível, agimos conforme o que nos ditava a razão.

Essa linha de raciocínio utiliza algumas ferramentas de uma "filosofia" ou "arte de viver" muito antiga, chamada estoicismo. O estoicismo já foi considerado um precursor da terapia cognitivo-comportamental, e despertou a atenção de estudiosos como Albert Elias e Aaron Beck. Já foi chamado de o "zen budismo para mentes analíticas", por enaltecer o papel da razão e do pensamento lógico (a lógica de predicados era parte dos ensinamentos estoicos). Foi por séculos uma filosofia muito popular entre os antigos romanos e enfatizava que, para levar um vida feliz, você deve exercer o controle sobre o que está sob seu controle e cultivar a indiferença em relação ao que não está sob seu controle. Os estoicos defendiam uma vida simples e austera e sustentavam que a felicidade é encontra pela remoção dos desejos, não pela sua satisfação. Na minha leitura pessoal, o ponto central do estoicismo soa algo assim: "matenha-se firme fazendo o que você pensa que deve ser feito e descanse sua mente quanto ao resto". Uma espécie de arte do controle pessoal pelo controle racional dos pensamentos. Ao invés de uma sopa bagunçada de neurotransmissores, é você no comando.

Utilizar o estoicismo hoje certamente não é uma questão de “plug and play”. Afinal, depois de mais de dois mil anos, a humanidade aprendeu algumas coisas. Por exemplo, a visão de virtude dos estoicos soa ultrapassada em muitos pontos (submissão da mulher ou preferências sexuais, por exemplo). Estudiosos da psicoterapia moderna, como Martin Seligman, demonstraram a importância do otimismo para levar uma vida saudável (será que o otimismo seria um caminho para a indiferença estoica?). Aliás, se fosse se sente muito pessimista ou deprimido, recomendo bastante o livro "Aprenda a ser otimista" de Seligman (não é um livro de blá-blá-blá autoajuda, é um livro de divulgação científica da psicoterapia, com fundamento acadêmico ou, se preferir, é um livro de autoajuda com fundamento acadêmico).

Há também uma metafísica no estoicismo que soa para mim meio suspeita e acho que sem esta metafísica ficaria difícil sustentar com o mesmo rigor a indiferença estoica em relação à morte (os estoicos não viam problema algum na morte e alguns até se matavam). Embora não dispensassem muita importância para os rituais envolvendo os deuses romanos, era comum aos estoicos recorrerem a uma ideia panteísta de Deus, também chamado Natureza, Providência, Razão (uma visão de um deus impessoal que parece guardar semelhança com o panteísmo de Espinoza e Einstein). Mas parece que também havia espaço para um pensamento mais cético ou ao menos faziam-se questionamentos nesse sentido. Esta metafísica também abrangia a crença em algum tipo de persistência do espírito, embora este fosse considerado de natureza material. Estas ideias podem ser aproximadas de algumas ideias transhumanistas: muitos acham possível que no futuro existirão superinteligências semelhantes a deuses, uma visão que não é restrita aos transhumanistas. Em recente entrevista ao NYT, Richard Dawkins comentou sobre “a possibilidade de que poderíamos co-evoluir com computadores, um destino de silício”, mencionando os comoventes escritos do físico Freeman Dyson sobre um futuro em que “os seres humanos evoluíram para algo como raios de energia inteligente e moral superpoderosa”. Adentrando ligeiramente no terreno da ficção científica, talvez uma assembleia destas superinteligências resolva ser chamada de “Providência” ou “Faculdade Mestra”. Também é comum entre os transhumanistas a crença (justificada, no meu entender) de que a criônica pode importar em algum tipo de persistência após a morte, com a preservação do que pode consistir o aspecto mais fundamental do que vem a ser uma pessoa: o seu conexoma. Assim, mesmo a metafísica estoica não está tão absurdamente distante do que a imaginação humana atual concebe.

Indiferença grata: Professor Anton fala sobre estoicismo

Enfim, o estoicismo pode fornecer algumas ferramentas antigas que podem ser combinadas e alteradas com outras mais modernas. Dito isto, não quero dar a entender que sei muita coisa sobre o assunto. Apenas li alguns textos na internet (em português, há um texto muito bom na introdução às Meditações de Marco Aurélio), li alguns vídeos no youtube (listados abaixo, em inglês) e encomendei um livro cuja resenha compartilho na próxima postagem. É uma resenha muito boa e acho que tem tudo a ver com o espírito do blog.