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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Professor da USP dá palestra sobre "Transhumanismo e Biohacking" no Intercon2012



"O próximo degrau está sempre escondido da gente" - Luli Radfahrer
     Tenho que quebrar meu jejum blogueiro para divulgar aqui a palestra bem-humorada, visionária e realista de Luli Radfahrer intitulada "Transhumanismo e Biohacking", que foi a palestra de encerramento do Intercon 2012. Luli Radfahrer é Professor-Doutor da ECA-USP, colunista da Folha de S. Paulo e curador do InterCon. É a melhor apresentação em português sobre as tecnologias emergentes que poderão resultar no transhumanismo que já assisti. Essa palestra deveria ser transformada em livro.
     Na primeira metade da palestra, Luli Radfahrer fala basicamente da evolução da internet. Na segunda parte, ele entra em temas relacionados ao transhumanismo como o movimento Quantified Self, cultura hacker, empreendedorismo DIY, impressora 3D e -- a parte mais interessante -- biologia sintética
     Quem já viu as palestras de Peter Dimamandis e Juan Enriquez e acompanha esses assuntos não vai encontrar muita informação nova (a questão da privacidade foi novidade pra mim, não tinha pensado o assunto dessa forma). Mas o estilo de apresentação é totalmente diferente e, é claro, trata-se de um original pensador brasileiro. Radfahrer faz algumas críticas ao Kurzweil ("O Padre Marcelo dos tecnofilistas") e à singularidade ("Uma ideia no mínimo torta"). Infelizmente, as críticas têm um formato mais retórico que analítico (isto é, rigoroso e com argumentos explícitos ao invés de frases de efeito). Por exemplo, a analogia do corredor de 100 metros rasos que Radfahrer emprega para criticar a ideia de curva exponencial e a singularidade me pareceu inexata e mal empregada (o próprio Kurzweil rebate facilmente essa crítica explicando que sua "lei dos retornos acelerados" prevê uma série de curvas exponenciais em formato "S", em que uma curva termina ao atingir certos limites e dá lugar a outro crescimento exponencial, em um nível mais alto). O problema que vejo nesse tipo de crítica é que se perde a oportunidade para uma crítica mais essencial: qual o fundamento epistemológico da hipótese da singularidade? (Ou seja, essa ideia é plausível ou é uma crença milenarista  sofisticada?) Como fica a questão das hierarquias e desigualdades sociais nessa história? Como se falar em imortalidade pra todo mundo quando hoje o pobre não tem nem saúde básica decente? O garoto com smartphone com acesso ao Google na África vai ter comida para boa formação e funcionamento do seu cérebro? Mas a singularidade e essas questões não foram o tema central da palestra, que também não teve formato acadêmico (ou seja, provavelmente todos na plateia permaneceram acordados).
    Radfahrer fez uma grande síntese bastante completa dos últimos desenvolvimentos da tecnologia e dos novos tempos que estão chegando e apresentou tudo isso de forma energizante. A palestra termina com um trecho otimista de uma palestra do físico Freeman Dyson em que a atitude niilista de curtir uma depressão diante de um universo frio e indiferente cede lugar a um impulso de afirmação da vida baseado na curiosidade e no espírito de aventura:

"Então eu espero que nos próximos 10 anos, nós encontraremos essas criaturas, e, sendo assim, é claro, toda a nossa visão de vida no universo mudará. Se nós não as encontrarmos, podemos criá-las nós mesmos. (Risos) Esta é outra grande oportunidade que se abre. Nós podemos, tão cedo tenhamos um pouco mais de entendimento de engenharia genética (...) é desenvolver uma criatura que possa viver num satélite frio, um lugar como Europa [Satélite de Júpiter], então poderíamos colonizar com nossas próprias criaturas. Isto seria algo divertido de fazer. (Risos) A longo prazo, é claro, isto tornaria possível para nós nos movermos para lá. O que vai acontecer no fim -- Não serão apenas os humanos quem colonizarão o espaço, a vida se moverá para fora da terra, se movendo para seu reino final. E o reino da vida, é claro, será o universo. E, se vida já estiver lá, isto se tornará mais entusiasmante, a curto prazo, mas, a longo prazo, se não houver vida lá, nós mesmos a criaremos. Nós transformaremos o universo em algo muito mais rico e belo do que é hoje. Então, de novo, nós temos um lindo e grande futuro para conceber."Freeman Dyson no TED2003
  
     Vale a pena ver e divulgar.





terça-feira, 5 de abril de 2011

VIDA ÚTIL: DIYbio ("Faça você mesmo bio") cientistas amadores manipulam genes na garagem


Você acha que pode fazer mais pelo mundo do que engrossar a audiência do campeonato brasileiro ou da novela das oito? Gostaria de saber como fazer seus filhos gostarem de ciência? Toda essa onda de inovações também lhe dá uma vontade de "colocar a mão na massa"? O texto abaixo, do New York Times (reproduzido na Folha de S. Paulo no dia 28 de março de 2011), mostra como algumas pessoas, independentemente da idade e formação, estão fazendo isto. Para quem tem filhos, está aí uma forma divertida de cultivar um hobby conjunto e despertar o interesse pela ciência nas crianças.

Trechos do artigo abaixo. O assinante da Folha e do UOL pode ler o texto completo aqui.
































São Paulo, segunda-feira, 28 de março de 2011 
 



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VIDA ÚTIL: FAÇA VOCÊ MESMO

Hackers trocam bytes por genes e germes

Por JED LIPINSKI

No GenSpace, um novo laboratório montado num antigo prédio de escritórios no centro de Brooklyn (Nova York), um grupo de "biólogos de garagem", ou "biohackers", está tentando fazer pela biologia moderna o que os hackers fizeram pela informática: transformar o "geek" em chique.
Com a ajuda de sites como o OpenWetWare.org, que dá a leigos acesso às mesmas informações disponíveis para doutorandos, os biohackers estão reinventando o Frankenstein da era moderna.
Suas ambições não são nada amadoras. Eles estão clonando cepas de E. coli para que se tornem bactérias transgênicas, resistentes à radiação, capazes de prevenir a malária; ou tentam curar o câncer usando água salgada e ondas de rádio.
Tais experiências são típicas do movimento chamado "biologia faça você mesmo", ou "DIYbio", que inclui pessoas de profissões díspares como artistas, executivos de banco, baristas e escritores, muitos dos quais não abrem um livro de ciências desde o colégio.
O DIYbio é parte de um movimento mais amplo de cientistas amadores realizando trabalhos de alto nível. É o caso de Mark Suppes, 32, webdesigner do Brooklyn, que, há poucos meses, se tornou o 38° físico amador a realizar uma fusão atômica.
Os biohackers montam centrífugas com batedeiras comuns, transformam webcams baratas em microscópios poderosos e criam fotobiorreatores com garrafas de refrigerante e bombas para aquários.
O GenSpace, inaugurado em 10 de dezembro, define-se como o primeiro laboratório biológico comunitário e não lucrativo nos EUA. Instalado em um antigo banco, parece um laboratório de garagem transportado para um ensolarado ateliê do Brooklyn.
As origens diversas dos seus sete integrantes, que racham o aluguel mensal de US$ 750, estimulam uma troca criativa.
Nurit Bar-Shai, uma artista de quase 40 anos, disse que sua falta de formação científica a libera para fazer "perguntas estúpidas", como "por que as placas de ágar precisam ser planas?".
Chetan Taralekar, 30, corretor de títulos do Barclays Capital e ex-programador de videogames, disse ter notado semelhanças entre escrever um código de computador e manipular o código genético.
"Mas, na genética, o meio é a realidade", afirmou. "Você está programando a vida."
A principal meta do GenSpace é promover a ciência como um hobby viável para crianças e adultos. "Quanto mais gente sujar as mãos em um laboratório, menos provável será que elas tenham reações por reflexo a coisas como pesquisas com células-tronco e organismos geneticamente modificados", disse Daniel Grushkin, 33, autor especializado em divulgação científica e porta-voz informal do grupo.
(...)
"A escola que eu frequentei no Queens nem tinha laboratório", disse Sung Won Lim, 22, que trabalha à noite numa mercearia 24 horas. "Eu gostaria de ver um dia estudantes saindo do GenSpace com os seus próprios organismos geneticamente modificados. Isso, para mim, seria muito legal."